O Brasil se comoveu com a morte do grande comunicador Gugu Liberato e o ano carregado no fio da navalha parece que pesou na reta final. O bêbado cambaleando que cai quase na entrada do bar. É fato que ainda não aprendemos a lidar com o inesperado, dizem que a única certeza que temos na vida é a morte, mas nunca nos acostumamos com ela. E os motivos torpes nos deixam ainda mais irritados, como alguém morre por uma razão tão idiota?
É o freio que falhou, a curva que não pôde ser vencida, o ar condicionado que parou de funcionar. São detalhes tão ridículos que nos fazem acreditar que Deus tem senso de humor. E mesmo com tudo isso sempre nos esquecemos o quão importante é amar. Nos disse Santo Agostinho que a medida de amar é amar sem medida e um duro exercício para lembrarmos de quem verdadeiramente amamos é a tentativa de imaginar uma vida sem eles. Seja um pai, uma mãe, um filho. Seja um amigo, um cônjuge ou um ídolo. Ao imaginar a morte de nossos amores percebemos o quão importante é amar, quanta falta alguém pode fazer em nossas vidas. Pois é, mas essa vida é passageira. E se acreditamos (e de fato eu acredito) em vida eterna, nos resta rezarmos por aqueles que amamos, mas temos que rezar em vida e não só depois da morte.
Enquanto escrevo este texto me recupero de uma forte melancolia que estou sentindo há alguns dias, uma angústia insuportável e ao mesmo tempo consoladora e que pode definir alguns passos e me ajudar em algumas decisões. Como tenho sangue de jornalista normalmente vejo as coberturas especiais na televisão, desde eleições presidenciais, passando por momentos de convulções sociais e morte de pessoas notáveis. Assisti na íntegra ao velório e enterro do Gugu, artista que acompanhei desde minha infância e de quem era admirador. Percebi algumas nuances e refleti muito sobre a vida, a morte, a responsabilidade, o pudor e a caridade. Não achei que isso ia me afetar da maneira como me afetou, mas segui em frente.
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Algumas pesquisas publicadas por alguns jornais dizem que a adolescência nos tempos modernos vai até os 24 anos. Eu arriscaria dizer que pode chegar aos trinta. Partindo do pressuposto de que jovens devem envelhecer para começar a entender a vida esse é um fato muito preocupante. Velhos que se acham jovens, jovens que detestam a responsabilidade e irresponsáveis que esquecem de suas raízes e gritam palavras de ordem aos quatro ventos. A velha síndrome do Peter Pan fica exposta no momento em que adolescentes ingratos lutam pela terra do nunca sem pensar nas consequências e culpam tudo e todos pelas próprias fraquezas.
A verdade é que o novo século está formando pessoas irresponsáveis, reclamonas e desestruturadas que não sabem o que a palavra responsabilidade significa. Por ter essa sensação me surpreendi positivamente ao ver um detalhe durante a cobertura da morte do apresentador Gugu Liberato. Seu filho, João Augusto, de 18 anos, tomando a responsabilidade para si ao ver a fragilidade da mãe e das irmãs. Um exemplo do que se esperar de um homem bem estruturado que tem o único objetivo de proteger a sua família no pior dos dias.
João Augusto precisava de colo, precisava de um ombro para chorar, mas acima de tudo precisava se manter firme para tomar decisões importantes sobre sua família. A imprensa publicou que foi ele quem ligou para a ambulância na tentativa de salvar Gugu, ele quem teve que assinar o termo para a desligada dos aparelhos do próprio pai, ele quem tratou dos assuntos jurídicos envolvendo o translado do corpo e a viagem de volta ao Brasil. Um menino (?) de 18 anos que se comportou de uma maneira brilhante e afirmou que vai honrar o pai para o resto de seus dias.
No catálogo de coisas incompreensíveis também lamentamos a inversão da roda da vida ao ver uma mãe enterrar o próprio filho aos noventa anos. A fortaleza mostrada por João Augusto com toda certeza vem de sua vó, Dona Maria do Céu, que aguentou horas de angústia e cansaço para se despedir de seu filho.
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Uma fatalidade pode nos dar muitos ensinamentos. Não sabemos quando estaremos na pele dessa família, quando será a nossa vez de mostrar força, mostrar sentimento, mostrar responsabilidade. Se (quando) acontecer em nossa família, seremos capazes de nos manter firmes apesar do coração destroçado? Seremos capazes de permanecer serenos e acreditar nas decisões de Alguém muito maior do que nós? Seremos capazes de entender e aceitar os desígnios de Deus? São questionamentos difíceis, mas totalmente necessários para crescermos, para amadurecermos a nossa fé.
Todos precisamos de um ombro para chorar quando é necessário, mas mais do que tudo devemos ser o ombro de alguém todos os dias de nossas vidas. Para sermos interessantes precisamos ser interessados.
Grande abraço
Thailan de Pauli Jaros
03DEZ2019
