terça-feira, 31 de agosto de 2021

O café amargo, os prédios e as coisas que eu não prestei atenção


 

Um ritual monótono me acompanha diariamente há cerca de um ano e meio. Antes de começar a fechar as páginas frias do impresso, vou até a cozinha tomar um pequeno copo de café. O movimento diário que adotei para me desligar do mundo real por quinze minutos varia bastante de horário, mas quase sempre é perto das quatro da tarde. Os vinte e dois passos entre a redação e a garrafa térmica preta me afastam das limitações do meu psicológico fraco e dos sonhos que nunca terei coragem de realizar. Jogar uma perna na frente da outra é quase uma confissão para mim mesmo de que não tenho muitas conquistas pela frente... E está tudo bem.

O café está ruim, mas já estou treinado. O segredo é tomar sempre um bom gole amargo logo de cara e fingir que é um daqueles cafés que vendem em algum lugar que você nunca foi, mas imagina ser de qualidade. Conforme o tempo passa, acostuma. Tem algo naquele líquido escurecido (e aparentemente envelhecido) que me ajuda a ficar acordado entre um lead genérico e outro. Acho que é o romantismo da coisa, já que nem o leite e nem o açúcar ajudam muito. Aí já se vão pelo menos uns cinco minutos de desatenção.

Com a bebida quente em mãos, vou até a janela. Durante os momentos que restam, eu aprecio a vista. A araucária à minha esquerda sempre me chama atenção, especialmente nos dias nublados. É quando o verde dos galhos fica mais vivo e contrasta com o cinza do céu e do asfalto. Perto dali, o canto dos pássaros me faz lembrar do mundo. No mesmo terreno, um prédio com ar meio colonial se junta à paisagem. Ele é da mesma cor que o prédio construído à frente da janela. "Deve ser do mesmo dono, e ele deve fazer uma boa grana", penso sempre que olho. No entanto, ontem estavam pintados de cinza com listras brancas e eu não consegui lembrar se sempre foram assim. Ao lado das paredes que ficam no meu campo de visão, ergueram aquelas estrutura de madeira típicas de quem pretende refazer a pintura.

"Mas que droga", disse em voz alta pra mim mesmo (tenho feito isso bastante). "Eu venho todos os dias ao mesmo lugar, no mesmo horário e não me lembro da cor destes malditos prédios. Realmente eu vivo pra me superar nesses fracassos, não é possível". Logo em seguida, solto um riso pra dentro. Um amigo me viu e disse que achou fofo eu olhar pela janela tanto tempo. "Jesus, quanto tempo eu fiquei aqui?", pergunto a mim mesmo. "Ufa, ainda faltam dois minutos", respiro e volto antes. Como se os dois minutos fossem fazer alguma diferença no meu universo previamente definido, que nem sei se é tão definido assim. Não tive tempo pra notar ainda.

Essa eu dedico para mim mesmo, em um tempo no qual eu não fique mais refém do cotidiano café amargo e das coisas que eu não presto atenção. Ou não tenho coragem de prestar.

ALLYSON SANTOS

31 de agosto de 2021