domingo, 5 de fevereiro de 2023

Candeeiro

A escuridão demora a chegar nesses dias quentes de verão. O anoitecer vem lentamente, como uma tartaruga na eterna corrida contra e lebre que nos conta a fábula. O vento parece respirar numa pequena brisa para nos mostrar o pouco do que devemos ver. O silêncio é cortado pelos motores dos carros nas ruas, sirenes de ambulâncias e aceleradas de motos. 

É quase sete da noite mas ainda está claro lá fora. Aqui dentro a luz permanece acesa na tentativa de iluminar o pequeno cômodo silencioso. Naturalmente o fim de domingo chega melancólico pela expectativa do início da semana. Não que isso seja uma reclamação, mas uma constatação pessimista da realidade. 

Sim, estou reclamando. Mais uma vez entre tantas outras vezes, estou reclamando. Na segunda-feira reclamo do início da semana, do sono, da noite mal dormida. Na terça, falo da chuva, da distância quilométrica para o fim de semana. Na quarta, vocifero contra a eterna semana do mês que nunca acaba. Na quinta, o calor está insuportável e na sexta-feira o dia não acaba mais. 

Pobre miséria a nossa de não enxergar a beleza dos dias da semana. É como se a cada dia esquecêssemos da maravilha que pode ser a vida e do quanto perdemos com a amargura. Não fomos criados para o anonimato de uma vida pobre, rancorosa, insossa e escura.

O homem, meus amigos, não foi feito para o fracasso da morte, mas para o heroísmo da vida. Sal da terra e luz do mundo. Assim como um candeeiro apagado não completa sua nobre vocação, um homem miserável não consegue iluminar o seu entorno. 

O desânimo às vezes é inevitável, mas sempre temos a oportunidade de passarmos por ele. É como a história do limão e da limonada. Muitas vezes temos que passar por dificuldades para nos darmos conta de nossas facilidades. Só sentimos falta do candeeiro quando ele deixa de iluminar.

Ânimo, senhores!

Thailan de Pauli Jaros

05FEV2023

   

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Carta para Bento

Esta carta apareceu em minha mente enquanto recitava o terço em frente ao quadro de Vossa Santidade. Impaciente que sou, estava em pé e andava pelos cômodos da casa entre as Ave-Marias. Quão pequeno sou diante de vós. O quadro fica ao lado da janela, e a janela dá para o mundo.

Esse mundo meio bagunçado, impaciente, fugaz e desordenado. Enquanto dizia uma Ave-Maria passaram abaixo da janela algumas pessoas com o som levemente alto tocando um ritmo bastante duvidoso. Olhei para o quadro e Vossa Santidade sorria. 

Por questões práticas, mas com o mesmo respeito, vou me referir a Vossa Santidade por você. Você entende onde quero chegar com esta carta que começou meio perdida. Estamos todos perdidos no meio desse vale de lágrimas, mas alguns buscam um pouco de dignidade e tentam aprender a amar Aquele que é o único necessário. 

Você me ensinou que o silêncio é a forma mais correta de ouvir a Deus e entender o que Ele nos prepara. Você me ensinou que muitas vezes os grandes discursos não são necessários, embora sejam em alguns momentos, para encontrar o nosso Caminho. 

Você me ensinou que a Verdade não pode ser relativa, apesar de eu não entender muito dessas coisas de teologia. É claro, você me ensinou que não precisa ser um doutor para entender os mandamentos e seguir os dogmas indispensáveis da salvação. 

Você me ensinou que não pode ser covardia renunciar àquilo que lhe dava destaque para servir de forma mais eficaz no claustro de um convento. Pelo contrário, decisões fortes necessitam de coragem acima de qualquer ser humano. E foi na solidão e no silêncio que você carregou as tuas ovelhas e pediu por elas nesses últimos anos. 

Posso ousar compará-lo a Nossa Senhora ao dizer que você pedia todos os dias a Nosso Senhor por nós, pobres pecadores. "Eles não tem mais vinho". Não temos mais vinho, mas tenho a confiança de que Vossa Santidade vai continuar olhando por nós e nos querendo bem. Afinal, mesmo um humilde servo pode interceder por nós na vinha do Senhor. 

É isso que peço. É esse o pedido. Santo Padre, São Bento XVI. 


Thailan de Pauli Jaros

05JAN2023