Antigamente eu olhava para os dois lados antes de
atravessar a rua. Observava melhor as estrelas. Admirava uma boa foto. Parava
e conversava com um amigo de longa data que há tempos havia perdido contato. Tinha mais ânimo para escrever as coisas. Abraçava as pessoas que amo. Falava
olhando nos olhos. Era menos orgulhoso, menos vaidoso, menos rancoroso. Conseguia
me planejar melhor. Eu já me importei mais com o dia 16 de agosto.
Antes de começar a escrever este texto, olhava para o
arquivo em branco e notava que havia muito de mim ali dentro. Há tempos deixei
de controlar as teclas. Com todas as suas incógnitas, costumes, desigualdades,
solidões, propagandas, leis e injustiças, é a cidade que me molda. Em algum
momento me deixei levar por ela. Perdi o controle. Ela escreve o que quer. Faz
de mim o que quer. Fez de mim o que sou.
Tudo
foi se tornando cada vez mais vazio. Os erros que eu perdoava, as falsidades
que eu tolerava, os medos que eu cultivava, as ideias que eu defendia. É como
se hoje, tudo estivesse no piloto automático. No percurso, deixei de ser aquele
garoto que sonhava e que mantinha fé nas coisas e nas pessoas.
Vinte anos se passaram. A cidade mudou muita gente que eu
conhecia. Trouxe gente nova e criou novos paradigmas. Convivo diariamente com a
tristeza das escolhas que não fiz, tentando recuperar meu próprio controle. O
caos do cotidiano nas esquinas não tem concerto. O que posso fazer é encontrar
meios, não de sobreviver, e sim de viver nele.
Se
antes eu admirava as minhas incertezas, hoje elas me tiram o sono e me
paralisam a face. Pequenos efeitos colaterais de quem vive com medo do amanhã. Não
preciso da folha inteira, só de alguns parágrafos de volta para admirar as pequenas
coisas dentro da série de outras que sou obrigado a defender sem motivo. Uma
pena a gente só pensar nessas coisas uma vez a cada 12 meses. Mais um ano que
se passa e eu não sei o que fazer. Feliz aniversário!
Mais
um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade
Essa vida é jogo rápido
Para mim ou pra você
Mais um ano que se passa
Eu não sei o que fazer
Juventude se abraça
Faz de tudo pra esquecer
Um feliz aniversário
Para mim ou pra você
Feliz aniversário
Envelheço na cidade!
Ira!
Allyson Santos
16AGO19