quarta-feira, 29 de junho de 2022

O céu de junho


Era uma tarde de sábado, não lembro bem de que ano. Eu devia ter uns sete ou oito anos, andava de bicicleta com meu irmão por algumas poucas ruas da cidade. Ao subirmos uma das ruas nos deparamos com ela interditada, um palco montado e centenas de bandeirinhas coloridas.

Nem preciso dizer ao leitor que era o mês de junho. Foi a primeira vez que vi a preparação para uma festa junina de rua. Hoje me lembro com carinho desse instante e de alguns detalhes da festa que aconteceu naquela fria noite no interior do país. 

Não é que eu seja entusiasta das quadrilhas, danças e da canjica. O que me chama a atenção é a belíssima decoração, as vestimentas, o espetinho, o pinhão e o quentão. 

Quem é que não gosta de se esquentar com um quentão em uma fria noite de junho? Quem é que vai dispensar um espetinho que acabou de sair do fogo? Quem é que vai negar uma paçoca oferecida com carinho?

Mesmo os mais incrédulos insistem em comprar o bolo de Santo Antônio pra ver se arrumam casamento. Mas nunca me esqueço daquela fogueira altíssima queimando naquela noite escura.

Eu olhava as lenhas sendo consumidas pelas chamas que esquentavam os foliões e pensava comigo mesmo que era impossível pular a fogueira, como nos dizia a tradicional canção. E foi naquela noite que eu olhei para o céu estrelado e percebi a imensidão do mundo.

Nós que somos do interior temos o prazer de enxergar muito mais estrelas do que aquelas vistas na cidade. É um jogo de iluminação que atrapalha a luz daquelas que iluminam na completa escuridão. Olhei o céu outras vezes em outros meses, mas o céu de junho me encanta.

Eu olho para o céu e vejo como ele está lindo, olho as estrelas e vejo como elas estão cintilantes, eu olho para mim e vejo como eu posso chegar até lá. Não sei você, mas há algo de diferente no céu de junho que eu não consigo explicar. Talvez seja o frio que nos faz viajar na nossa própria imaginação, talvez seja Deus se fazendo presente nas quermesses das capelas.

Assim passa a metade do ano e o céu de junho continua o mais bonito de todos os meses. Ah, o céu de junho. O céu mais estrelado do ano que mesmo a neblina fica com inveja e quer esconder de todos. 

O céu de junho esquenta o inverno, aquece o coração e nos faz olhar com intensidade para a imensidão da criação. O céu de junho é perfeito e quando a lua passa a clarear o horizonte a certeza é de uma perfeição ainda maior e infinita na nossa verdadeira Pátria. O céu de junho poderia mesmo ser um espelho daquilo que poderemos encontrar no fim de nossa caminhada. 

(*)

Boas vindas ao inverno

Boa sorte ao outono

Até logo a primavera

Vejo em breve o verão

Abraços!

Thailan de Pauli Jaros

29JUN2022

Solenidade de São Pedro e São Paulo


P.S.1. Ainda tenho que escrever sobre os meus balões de dobradura, mas fica para a próxima, talvez ano que vem. 

P.S.2. O bom das festas juninas é que elas continuam no mês de julho, naquilo que se convencionou dizer de festa julina. Vai dizer que o povo brasileiro não é criativo? 

P.S.3. O tal do espetinho conhecido em todas as partes do Brasil é chamado de xixo na minha terra. São as regionalidades que nos fazem brasileiros.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

A neblina do lado de fora


20.06.2022- Escrevo este pequeno rascunho apoiado nas crônicas de Shakespeare que ainda não tive a ousadia de ler. O livro de capa dura em duas línguas foi folheado há poucos minutos em uma tentativa de leitura que não teve sucesso. Mas paciência, a literatura aguarda o tempo passar pela sua simples atemporalidade. O jornal da manhã de hoje já ficou velho, mas a poesia ainda olha para a frente. 

Uma noite mal dormida nos faz refletir sobre um dia mal aproveitado, mas há muito durmo bem e não lembro de nenhuma reflexão nesse sentido. Sorte a minha. Talvez seja sorte mesmo, talvez falta de atenção, ou mesmo privilégio. Quantos são aqueles que não dormem nas frias noites de outono que precedem os dias de inverno.

A neblina já baixa na cidade e faz a noite ficar ainda mais fria e sedutora. O desafio é tentar enxergar a um palmo do próprio nariz. No silêncio da escuridão penso naquele silêncio que deveria ter sido cortado por um ruído e que passou despercebido ao ouvido. Aquele silêncio que muito queria falar, mas que calava por não encontrar a palavra certa. Se é que a palavra certa ainda existe.

Um silêncio frio e ao mesmo tempo tão ensurdecedor que poderia calar os sinos de uma catedral. Um silêncio que mostrou a fatalidade de um momento. Aquele eterno momento que passa e deixa sinais que nunca vão se apagar. Pronto. A quietude foi invadida pelo alto som de um despertador que tinha esquecido de desligar e como em um susto tudo volta à realidade da sala vazia e a neblina do lado de fora. 

Talvez o som abrupto do despertador seja a palavra certa no momento certo. No entanto, alguma frase dita por alguém me parece muito mais certa do que um barulho que nos faz acordar para a realidade. É que às vezes o silêncio fala bem mais.

Pode ser que o inverno não seja tão ruim assim. Pode ser que tudo seja bobagem. Pode ser que ainda tenhamos tudo a descobrir e isso só pode ser fascinante. A neblina baixa, a fumaça branca e a surpresa debaixo daquele poste na rua de madrugada quando nada acontece e os bons estão dormindo. 

O inverno não pode representar a morte daquilo que o verão trazia com alegria. Talvez um descanso para que tudo volte a viver quando a primavera chegar. Uma lareira pode preservar o fogo aceso por um bom tempo e a cigarra já se preparou para que não falte o alimento necessário.

É isso, apesar da confusão ainda é cedo para qualquer conclusão. Ainda é cedo para ligar o aquecedor. As folhas caíram mas nós continuamos tentando nos equilibrar.

Thailan de Pauli Jaros

20JUN2022