Dias atrás algumas pessoas ficaram comovidas com um cantor sertanejo que se apresentou para um público de somente três pessoas: seus pais e sua namorada. O episódio ganhou as manchetes e logo o cantor recebeu o apoio de diversos sertanejos. Pessoal do ramo que já passou pelo mesmo perrengue.
Isso me incomodou porque algo muito parecido aconteceu comigo anos atrás. Fui um dos criadores e capitão (como chamávamos) de uma trupe de palhaços que começou em 2008 e terminou em 2013 sem nenhuma elegância. No auge cerca de 20 pessoas faziam parte do grupo, que se apresentava em escolas, congressos e aniversários de crianças. O espetáculo variava entre textos próprios, escritos por mim e meu irmão, e famosos números circenses do Brasil.
Para coroar nossa trajetória, no dia do palhaço decidimos organizar o primeiro festival "Funday". A data era 10 de dezembro de 2011. Reservamos a quadra de esportes da cidade, distribuímos convites para todas as pessoas que fizeram parte da nossa história e ensaiamos incansavelmente para que o espetáculo ficasse perfeito. Na manhã daquele sábado tudo deu errado, mas conseguimos resolver com um sorriso no rosto. Deixamos tudo pronto para a tarde que prometia ser mágica.
Maquiagem feita, roupa vestida, sapato amarrado e pancake branco no rosto, coloquei a bola vermelha no nariz e resolvi que o espetáculo deveria começar. Com exceção da família (sempre ela), um casal de convidados e um antigo professor com sua filha, não apareceu mais ninguém. Naquele momento tudo o que importava era o espetáculo, não a plateia. Poderia dizer que aquele show foi um fracasso, mas mentiria ao leitor. Não fomos derrotados, não perdemos nada. Quem perdeu foi quem não assistiu.
Hoje eu digo que aquela tarde de sábado pode ter sido um divisor de águas em minha vida. Foi quando percebi que algo pode ter muita importância para nós, mas não ser importante para os outros. Entendi que o mundo gira e a vida continua apesar dos fracassos e derrotas. No mesmo dia um eclipse lunar total pôde ser visto em parte do mundo. Noutra parte, não.
Algumas decepções nos deixam mais fortes. No fim das contas os tropeços nos fazem correr para não cairmos. No dia que o sertanejo cantou para os pais, não imaginava que em uma semana seria conhecido por todo um país.
Quando o artista espera que a plateia participe e não chega ninguém para assistir é fracasso. Quando o artista prepara seu espetáculo e uma única pessoa senta na primeira fileira, com brilho nos olhos, é sucesso. É que Fracasso e sucesso andam lado a lado. Há uma linha extremamente tênue que separa o 'sold out' das cadeiras vazias. Seria ridículo e poderia soar um pouco hipócrita se eu afirmasse que casa vazia é sinônimo de sucesso. Não é. Do mesmo modo não é o fim do mundo um espetáculo com uma plateia seleta. Se aquela única pessoa assistindo é quem importa, tá valendo.
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Ok, viajei na maionese. É interessante pensar que, apesar de nossa vida não ser um espetáculo, sempre queremos ficar rodeados de gente em nossa volta. Adoramos ter plateia quando pensamos que somos os protagonistas em um planeta de milhões de habitantes. E não somos?
Nossa vida é um espetáculo, não de uma maneira ruim e caricata, mas de um modo brilhante e digno de aplausos. Mas ao mesmo tempo que a plateia pode aplaudir, ela pode vaiar. E as vaias são muito mais dolorosas do que um teatro vazio com luzes apagadas. O abandono do que antes era admiração se torna um gosto amargo na boca e uma ferida escancarada na alma. Mais uma vez o fracasso e o sucesso se encontram e nos ensinam que não vale a pena ficar parado.
É. Viajei.
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A fogueira já anunciou que o dia de São João passou em plena segunda-feira. Aproveitem as festas e bençãos dessa época do ano.
Abração
Thailan de Pauli Jaros
25JUN2019


