terça-feira, 25 de junho de 2019

Do sucesso ao fracasso e vice-versa


Dias atrás algumas pessoas ficaram comovidas com um cantor sertanejo que se apresentou para um público de somente três pessoas: seus pais e sua namorada. O episódio ganhou as manchetes e logo o cantor recebeu o apoio de diversos sertanejos. Pessoal do ramo que já passou pelo mesmo perrengue. 

Isso me incomodou porque algo muito parecido aconteceu comigo anos atrás. Fui um dos criadores e capitão (como chamávamos) de uma trupe de palhaços que começou em 2008 e terminou em 2013 sem nenhuma elegância. No auge cerca de 20 pessoas faziam parte do grupo, que se apresentava em escolas, congressos e aniversários de crianças. O espetáculo variava entre textos próprios, escritos por mim e meu irmão, e famosos números circenses do Brasil.

Para coroar nossa trajetória, no dia do palhaço decidimos organizar o primeiro festival "Funday". A data era 10 de dezembro de 2011. Reservamos a quadra de esportes da cidade, distribuímos convites para todas as pessoas que fizeram parte da nossa história e ensaiamos incansavelmente para que o espetáculo ficasse perfeito. Na manhã daquele sábado tudo deu errado, mas conseguimos resolver com um sorriso no rosto. Deixamos tudo pronto para a tarde que prometia ser mágica.

Maquiagem feita, roupa vestida, sapato amarrado e pancake branco no rosto, coloquei a bola vermelha no nariz e resolvi que o espetáculo deveria começar. Com exceção da família (sempre ela), um casal de convidados e um antigo professor com sua filha, não apareceu mais ninguém. Naquele momento tudo o que importava era o espetáculo, não a plateia. Poderia dizer que aquele show foi um fracasso, mas mentiria ao leitor. Não fomos derrotados, não perdemos nada. Quem perdeu foi quem não assistiu.

Hoje eu digo que aquela tarde de sábado pode ter sido um divisor de águas em minha vida. Foi quando percebi que algo pode ter muita importância para nós, mas não ser importante para os outros. Entendi que o mundo gira e a vida continua apesar dos fracassos e derrotas. No mesmo dia um eclipse lunar total pôde ser visto em parte do mundo. Noutra parte, não. 

Algumas decepções nos deixam mais fortes. No fim das contas os tropeços nos fazem correr para não cairmos. No dia que o sertanejo cantou para os pais, não imaginava que em uma semana seria conhecido por todo um país. 

Quando o artista espera que a plateia participe e não chega ninguém para assistir é fracasso. Quando o artista prepara seu espetáculo e uma única pessoa senta na primeira fileira, com brilho nos olhos, é sucesso. É que Fracasso e sucesso andam lado a lado. Há uma linha extremamente tênue que separa o 'sold out' das cadeiras vazias. Seria ridículo e poderia soar um pouco hipócrita se eu afirmasse que casa vazia é sinônimo de sucesso. Não é. Do mesmo modo não é o fim do mundo um espetáculo com uma plateia seleta. Se aquela única pessoa assistindo é quem importa, tá valendo.


(*)

Ok, viajei na maionese. É interessante pensar que, apesar de nossa vida não ser um espetáculo, sempre queremos ficar rodeados de gente em nossa volta. Adoramos ter plateia quando pensamos que somos os protagonistas em um planeta de milhões de habitantes. E não somos?

Nossa vida é um espetáculo, não de uma maneira ruim e caricata, mas de um modo brilhante e digno de aplausos. Mas ao mesmo tempo que a plateia pode aplaudir, ela pode vaiar. E as vaias são muito mais dolorosas do que um teatro vazio com luzes apagadas. O abandono do que antes era admiração se torna um gosto amargo na boca e uma ferida escancarada na alma. Mais uma vez o fracasso e o sucesso se encontram e nos ensinam que não vale a pena ficar parado.

É. Viajei.

(*) 

A fogueira já anunciou que o dia de São João passou em plena segunda-feira. Aproveitem as festas e bençãos dessa época do ano.

Abração
Thailan de Pauli Jaros
25JUN2019



terça-feira, 18 de junho de 2019

Folhas em branco



Numa folha em branco ele escreveu tudo o que não queria;
Tudo que um dia o fez feliz;
Numa folha em branco ele escreveu que não mais podia;
Ele não podia escrever com giz.

Numa folha em branco ele escreveu que um dia
Tudo que ele fez valeria;
Numa folha em branco ele escreveu poesias;
Poesias que com o tempo apagaria.

Nas folhas de sua vida ele escreveu não mais que palavras;
Não mais que desejos, salvações e mancadas;
Nas folhas em branco, aos poucos escreveu sua estrada;
Com os pés no chão e rimas quebradas;

O poeta procurou o sentido da vida;
Ficou contente porque chegou perto;
Até então uma figura perdida;
Perdida num vasto e imenso deserto.

Numa folha em branco fez da sua vida
Um enorme rombo dentro de suas feridas;
Numa folha em branco tentou ver a vida;
Não achou o sentido nas leis proferidas.

Numa folha em branco o coração avulso;
O sentido inverso foi pra outro mundo;
Numa folha em branco marcas de um pulso;
Mergulhado em sangue, coração imundo.

E na folha em branco nada mais escreve;
Não faz mais sentido procurar abrigo;
Tanto faz o gato ser uma lebre;
Não faz mal, não quer mais antídotos.

(Poema escrito no verão de 2014)

18JUN2019
Thailan de Pauli Jaros

terça-feira, 11 de junho de 2019

Alceu dispor


Coisas que antes me deixavam chocado, hoje me fazem sentir indiferente. Ouço no rádio do carro que algumas mulheres espancaram outra mulher. Outra rádio pedia aos ouvintes que prestigiassem os comércios que deixavam a rádio no ar, através de patrocínios. Na outra - a mais legal- o cara fazia piada dos ouvintes que ligavam pra mandar abraços pra família. Ou em outra rádio o povo "botando a boca no trombone" pra reclamar de buracos nas ruas e sistemas de esgotos que não existem.

Reclamar de tudo parece ter virado moda, não me espanta todos acharem isso normal. Tão normal quanto ouvir quatro ou cinco estações de rádio em uma única viagem. Afinal cada uma funciona em um pedaço da pista. Entre todas predomina a rádio cachoeira, se é que me entendem.

Enquanto escrevo sobre rádios, no meu fone de ouvido toca Zé Ramalho. Não tem como ficar indiferente ouvindo músicas como essas. Pequenos nuances provocam grandes reflexões, talvez o preço que se paga por buscar o sentido de tudo, toda tarde acaba em melancolia.

Qualquer reflexo, qualquer movimento deve ter alguma explicação, às vezes a gente faz coisas sem pensar, coisas do inconsciente... Freud explica? Nah!

Em tempos de discursos politicamente corretos começo a dar valor ao riso, às coisas engraçadas. Discursos de humoristas começam a fazer mais sentido nessa terra bagunçada.

(*)

Ok, depois de voar no mundo da lua botei os pés no chão com Alceu Valença. Gosto de passear pelos vários ritmos musicais brasileiros, e longas canções estrangeiras, fico horas escutando a mesma música para poder entender cada frase, cada vírgula, tudo em vão, é claro.

Também gosto de ouvir músicas da época. Estou meio na vibe da festa junina e as músicas de São João não saem da minha cabeça. Com a sua licença, encerro o texto por aqui para dançar uma quadrilha!

Abraços juninos
Thailan de Pauli Jaros
11JUN2019

terça-feira, 4 de junho de 2019

A palavra final



A palavra final

Haverá um poema de amor
Mesmo quando tudo acabar
Haverá quem saiba dançar
Mesmo quando lhe faltar o ar

Haverá onda no mesmo mar
Mesmo quando a oração terminar
Haverá quem consiga conversar
Mesmo quando o assunto acabar

Haverá quem cante canções de amor
Mesmo quando a guerra começar
Haverá um sino avisando o fim
Mesmo sem ninguém ali para escutar

Há de haver um segundo pra mim
Mesmo quando ninguém me olhar
Há de haver o mesmo fim
Mesmo sem você para me vigiar

Haverá um raio no campo secreto
Mesmo que não caia no mesmo lugar
E há chuva caindo no deserto
Mesmo sem a areia molhar

Haverá no semblante um sorriso
Mesmo naquele momento de tensão
E no riso um cançaso natural
De quem assina uma canção

Haverá um amor lhe esperando
Mesmo que seja secreto
Haverá um beijo de despedida
Mesmo sem ninguém ir embora

Haverá para sempre uma esquina
Mesmo que as crônicas acabem
Haverá sempre o mesmo poeta
Esperando a palavra final

(*)

Esse poema (?) foi feito na madrugada de domingo. Acordei com ele pronto e escrevi no bloco de notas do celular. Não sei se finalizei ou se ainda há mudanças a serem feitas. Mas resolvi publicar cru e sem revisão pois foi feito apesar de mim.

Thailan de Pauli Jaros
04JUN2019