terça-feira, 30 de julho de 2019

Milonga inacabada


Milonga inacabada

Ninguém sabe de nada
é tudo pré fabricado
Ninguém sabe de nada
não tem significado

A crônica é a mais bela
Mas não faz mais diferença
Uma canção à capela
e o mundo só ouve aparência (sofrência)

O mundo não acabou
Mas não encontro a milonga
Procuro o que sobrou
Não faz sentido essa conta

(...)

Me vi escrevendo uma milonga, mas não sabia o que a milonga teria para me dizer. Me vi escrevendo mas não consegui escrever. Me vi escrevendo e nem sabia o que seria uma milonga. Lembrei que o mestre Luiz Carlos Borges teve um encontro com a Milonga depois que ouvio que ela "estava morta". Tanta coisa já passou, tantas têm que passar e a milonga lá, batendo na nossa porta quase todos os dias, quase todos os anos. Se algo acabou, não foi a milonga.

Me vi escrevendo uma crônica, mas não compreendia o que a crônica estava tentando me dizer. Já não faz diferença a relação entre o objeto e o observador, tudo já foi feito, mas há tanto para fazer...

Me vi inundado de pensamentos, mas não sabia se esses pensamentos faziam sentido. Deviam fazer. No momento em que todos sabem de tudo, todos falam sobre tudo e debates se tornam repetição de velhas fórmulas feitas, eu não sabia o que dizer. Pré-fabricados transformam o mundo em cool, todos sabemos, todos devemos saber.
Um grita daqui, outro grita dali e eu continuo acompanhado da minha solidão silenciosa. Silêncio. Silêncio, por favor.

E minha milonga ficou incompleta, assim como minha crônica que acaba por aqui por não saber o que dizer. Não saber o que dizer às vezes faz sentido num mundo onde todos sabem de tudo. Ou pensam que sabem.

(Texto escrito em janeiro de 2019)

Thailan de Pauli Jaros
30JUL2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Tebetê


Não lembro o ano, não lembro se era verão ou inverno. Mas lembro que estava na varanda de casa com um gibi na mão. Depois de tanto folhear e ver as imagens do livro comecei a juntar as sílabas e ler. Lembro muito bem do dia que aprendi a ler com o gibi do Rei Leão, uma adaptação literária do segundo filme.

Dizem que nossa memória nos engana e às vezes lembramos o que queremos e como queremos. Acho impossível alguém aprender a ler de uma hora para outra, mas foi assim que aprendi. Que eu me lembre.

Tenho o gibi até hoje e, numa das peças que a memória prega, acreditava que se tratava do primeiro filme. Foi quando achei, no meio das bagunças da infância, que vi a capa "Rei Leão II, o reino de Simba". 

Ainda não assisti ao filme novo. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade.

Lendo as críticas sobre a nova (?) obra, percebi a aflição que algumas pessoas têm a respeito da chamada "live action". Muitos escreveram sobre a emoção que o desenho proporcionou no século passado e a ausência dela nos dias atuais. Eu não tenho essa aflição e estou ansioso para ir ao cinema.

Mas fiquei pensativo ao ler essas críticas e confesso que refleti sobre a falta de emoção ou a expectativa que criamos sobre certas coisas. Para o leitor não pensar que, mais uma vez, viajei na maionese, posso explicar meu confuso raciocínio.

Por vezes criamos muita expectativa em coisas que podem não se materializar tão épicas quanto imaginamos. É só lembrar daquela viagem que você fez no passado e de que gostou muito e imaginar voltar para o mesmo local só que nos dias atuais.

Sim, será épico, memorável. Mas você imaginou o mesmo lugar que visitou no passado e se esqueceu que tudo pode ter mudado, o que existia antes pode não existir mais. Pode ser frustrante.

Eu era fã do Mickey quando pequeno e sempre assistia à um filme que ele se vestia de mago, o mais clássico da Disney. Escolhi não ver nos dias atuais para não apagar a boa memória que tenho dessa obra. Por puro medo prefiro não lembrar da história e enredo e preservar a boa lembrança do protagonista do mundo mágico da Disney.

Devemos aceitar que só a mudança é permanente. Não é uma mudança repentina como um soco no estômago. E sim algo leve e sutil que nem percebemos. Se temos os pés no chão e consciência de nossas raízes, a mudança é só um detalhe que passa batido no cotidiano.

Assim como velhos amigos que mudam mas esperam que o outro sempre continue igual, para manter a amizade e a leveza do passado. 

A criança que assistia ao desenho na fita k-7 verde criou expectativa sobre o novo Rei Leão e pode sair frustrada.  Sinto dizer, mas a culpa pode não ser da produtora do filme. Entretanto o novo não é tão cruel. Algum detalhe pode nos surpreender e fazer com que aproveitemos duas horas em frente à tela do cinema.

(*)

Como o dia é de tebetê devo contar que achei uma caixa com escritos antigos. Poemas nunca publicados e cartas que nunca enviei se tornaram inéditos para mim, o próprio autor.


Pedaço do manuscrito que pode ser tema para outro texto

É como se um vácuo tivesse se perdido no tempo e todas essas cartas que já tinha esquecido voltassem. Minha memória me pegou, disso eu não lembrava. Não criei expectativa e foi épico.

Grande abraço
Thailan de Pauli Jaros
25JUL2019





terça-feira, 16 de julho de 2019

Musa inspiradora


Fiquei pensando em como poderia começar esse texto. "Era uma vez" já enjoou e "naquele tempo" remete ao que é religioso. Sem querer comecei com o horrível "fiquei pensando".

Costumo assistir aos tutoriais na internet para fazer coisas que tenho dúvidas. Contas matemáticas, como trocar a resistência do chuveiro, como editar vídeos e salvar arquivos corrompidos, como tirar o maldito vírus que se instalou no meu pendrive. Mas não há um tutorial sobre como começar uma crônica. Melhor assim. Vamos sair do tecnicismo.

Tenho pensado muito em como as coisas são criadas, como os textos são escritos, como as músicas são tocadas. Será que eu escrevo como os outros escritores? Há uma técnica, um manual ou um tutorial? Deus nos livre.

Cada um tem que ter o seu jeito, sua maneira de se expressar. O bom português cuida do resto. Não é que seja uma Torre de Babel, mas os motivos que nos levam a escrever são diversos e não há muitas pistas sobre o que move um escritor.

Uns escrevem para Deus, outros escrevem sobre Deus. Uns para amores, outros sobre amores. Uns escrevem sobre coisas, outros das coisas. Uns escrevem sobre si mesmos, outros falam de outros. Uns falam sobre coisas boas, outros nos levam ao inferno.

Ainda na busca por sentidos e motivos da escrita, lembro de grandes artistas e suas musas. Alguns escrevem sobre mulheres, outros para mulheres. As curvas da mulher brasileira (sempre elas) são populares em canções de amor, obras arquitetônicas e/ou devaneios de bares.

Poetas, atletas e cantores falam de suas musas. Fazem por suas musas. Poetas são filhos delas e escrevem rimas para elas, atletas quebram recordes e cantores criam belíssimas melodias para amores não correspondidos e companheiras inseparáveis. Musas inspiram e nos fazem respirar.

Eu que não sou poeta, não sou atleta e muito menos sei cantar faço pouco caso e escrevo sobre todas.

As musas são importantes para a humanidade. São inspirações e salvam as pessoas em várias esquinas. Muitas mulheres tornaram-se letras de música. Roberto Carlos, por exemplo, eternizou sua mãe em Lady Laura. No esporte, Roger Federer insiste que só vai parar de jogar Tênis quando sua esposa mandar e Gabriel Jesus liga para a mãe cada vez que faz um gol.

As musas entram para a história e ficam mais conhecidas que seu criador. Afinal, foi quando Monalisa piscou para da Vinci que Gioconda tornou-se eterna. Trata-se de criador e criatura. Depois que Eva traiu Deus ao comer o fruto proibido Ele escolheu a Virgem Maria para ser a rainha dos Céus e da Terra. Ela salva todos.

Bom, continuo minha investigação. Mas uma descoberta importante é que não são só os artistas que são movidos pelos amores. Todos são.

O leitor deve estar se perguntando o que move esse pseudo cronista e quem é sua musa inspiradora. Digo ao leitor que ainda não sei. Talvez a indecisão, talvez a ingenuidade, talvez nenhuma das duas.

Calorosos abraços!
Thailan de Pauli Jaros
16JUL2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Medo do escuro



A primeira sensação real de medo é inesquecível. Eu tinha seis anos quando meus pais me levaram para o centro da cidade comprar um colchão novo. “Mas, ué? Você tem medo de colchão?”. Aposto que minha namorada gostaria que eu tivesse, pela minha quantidade imensurável de horas dormidas. Mas não, o medo vem um pouco mais adiante. Havia acabado de beber um refrigerante no caminho até a loja e, ao chegar lá, bateu aquela vontade de ir ao banheiro.

A atendente me levou até o recinto. A porta branca nos fundos do estabelecimento levava a um corredor escuro que, por sua vez, levava ao banheiro. A moça me guiou até o fim e perguntou: 

-Você tem medo do escuro?

No auge da bravura de um garoto de seis anos de idade, olhei a minha volta e calculei que a luz do banheiro me levaria até a porta de saída. Dito e feito. Fiz minha parte na história, lavei minhas mãos. Saí caminhando rapidamente pelo breu que preenchia o corredor. A porta do banheiro, minha única fonte de iluminação, se fecha sem explicação. Naquele momento, todos os meus pesadelos de infância me perseguiram e o caminho que parecia simples havia se transformado em labirinto.
            
Apalpando as paredes desesperadamente, encontro a maçaneta. O pequeno detalhe é que a vendedora não havia me ensinado corretamente como girar aquela maçaneta. Não sei explicar até hoje, mas a porta só abriria se você seguisse o procedimento correto. Qualquer deslize e eu ficaria confinado lá dentro por horas.

Aos prantos, lágrimas e todo tipo de oração que sabia naquela altura da vida, aclamava por ajuda. Os cinco minutos que passei lá dentro foram suficientes para que eu visse todo tipo de assassino, bicho papão, espírito, lenda urbana e demônio. Não me lembro de ter chorado tanto em outra época da infância. Consegui me libertar daquele inferno momentâneo. Nunca mais pisei na loja.

Há poucos dias, acordei no meio da noite com vontade de tomar água. O relógio batia 3h da manhã. Meu celular estava sem bateria. Sem pensar muito, levanto. Percorro o escuro total, bebo água e volto dormir. Foi assustador como aquilo não surtiu qualquer impacto emocional. Havia se tornado mecânico há tempos. Eu não tive tempo de perceber ou sequer lembrar do que eu sentia medo quando criança. Naquela noite troquei uma ideia com os demônios que antes me perseguiam. Era como se eu, de alguma forma, os entendesse. Todas as dores, a solidão, as angústias, as responsabilidades, as falsidades. O medo pode enfraquecer, mas a falta dele, por vezes é mais preocupante. Coragem ou excesso de realidade? Você decide.


Allyson Santos
15JUL19

terça-feira, 9 de julho de 2019

Sussurros


Acordei no meio da madrugada, o barulho da buzina era ensurdecedor. Fui o último a levantar, era cinco e meia da manhã e fazia três graus negativos. A geada já tinha chegado.

A buzina disparou no meio da noite, devia ser o frio ou sei lá. Os vizinhos também acordaram, o carro era deles. Voltei a dormir.

O inverno finalmente chegou e não gostei nada disso. Antigamente adorava o frio, hoje ando meio irritado. Acho que o meio termo é melhor. Nem tanto ao céu, nem tanto a terra.

Acho que sou eu que ando reclamão e irritado. Não tenho muita paciência com retalhos, coisa mal feita e gritaria. Volume muito alto é chato. Ok, eu sou chato.

(*)

Mas na noite fria e isone as vozes falam na cabeça. Às vezes dá uma grande discussão, às vezes pensamentos ridículos, às vezes nada além de palavras soltas.

As vozes mandam e eu obedeço. O soneto acaba na primeira estrofe, a rima sai mal feita e o projeto de escrita não passa das primeiras palavras. No fim das contas as vozes sou eu.

Atualmente acho que os sussurros falam mais alto do que a gritaria. Pelo menos algo se aproveita nos sussurros, sensação estranha. Arrepia.

E sussurro combina com Bossa Nova. No século em que nada tem significado parece meio piegas se atentar aos detalhes. Cada curva nas paredes (ou na mulher brasileira), cada nota tocada, cada respiro insuficiente e cada arranhada no violão são suficientes para manter a calma e seguir em frente.


O sussurro de um João, a nota de um certo Tom e a poesia de um Vinicius trazem paz para o coração e um respiro para a alma. As vozes dizem o que queremos ouvir, mas quando precisamos elas calam. Só nos restam o tango argentino, o jazz americano e a Bossa Nova brasileira.

(*)

Sol de inverno não esquenta, GPS não encontra a esquina, palavras voam no vento e o mundo continua girando.


Até semana que vem
Thailan de Pauli Jaros
9JUL2019

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Um rabisco qualquer




Volte no tempo. Imagine um dia ensolarado. Uma terça-feira, para ser mais preciso. Você provavelmente estava em casa esperando o sorveteiro passar, jogando bola na esquina ou simplesmente colocando um giz de cera no nariz. Bom, eram três da tarde e eu estava na escola. No “jardim dois”, como chamavam (ou ainda chamam) o segundo ano do primário. Falecido uniforme azul e branco do Colégio São José. 

Eu não fiz o “jardim um”. Acho que passei um ano da minha vida criando coragem. Valeu a Pena. No primeiro dia de aula, minha mãe ficou do lado de fora esperando que eu chorasse, como uma criança normal. As lágrimas não vieram, a adrenalina era alta demais. Assim como você, assisti várias vezes “Procurando o Nemo”. Saudades do Allyson no auge dos cinco anos. Era menos estressado, eu acho. Mas voltemos àquela terça-feira. Três horas da tarde.

Aproximava-se a hora do recreio. A professora havia dado a seguinte atividade: pintar o desenho de um palhaço. Parecia simples. Tão simples que naquele momento tudo parecia mais importante. Conversa vai, conversa vem. O tempo passou e a tia soltou o recado: “Só sai da sala, quem terminar a tarefinha”. Por algum motivo, todos os meus amigos que estavam fazendo zona comigo, encerraram e saíram.

Eu já estava sozinho na sala, até a professora tinha me abandonado. Bateu um enorme desespero. Peguei todos os lápis de cor que estavam na mesa com a mão direita. Segurei firme e utilizei todos ao mesmo tempo, criando uma obra de arte única, que só eu era capaz de explicar. Com o fim do expediente, fui aproveitar os quinze minutos de glória, que só o intervalo era capaz de proporcionar.

No dia seguinte, meus pais foram chamados na escola. Até hoje não sei bem o conteúdo da conversa, mas era algo do tipo “precisamos falar sobre o Allyson”. Na certa acharam que eu era louco. Hoje faço jornalismo. Enfim, foi meu primeiro ato de rebeldia na escola. Alguns dizem que eu desrespeitei as regras. Outros dizem que eu questionei o sistema. Só o tempo dirá quem está certo. Como você leu até aqui, vou te ajudar com a moral da história.

Se for dar o migué, não tenha pressa. Seja criativo (só fui aprender isso depois).

Allyson Santos
04MAI19

terça-feira, 2 de julho de 2019

Palavras em greve




Tão grave é a greve
Que nem se escreve mais

Da ignorância do grito
ao ego grifado
 Os traços que antes
Entrelaçavam, sofrem
Maus tratos no fundo
Dos frascos vazios
Dos xaropes para tosse
Que chamamos coração

No vício de atrair
Atenção, palavras
Se esgotam primeiro
Para trazer ao pó
O próximo que
Se abraça nas esquinas
Nos encontros
Durante as coletivas

Se descreve
A mentira de uma vida
Perfeita para os outros
Por medo de escancarar
A fraqueza da solidão
Do futuro que nos cerca
Ao passado que nos assombra

Lágrimas instantâneas
Perdidas na madrugada
Palavras que agora
São verdades precisas
Que se espalham aos quatro ventos
Ninguém presta contas
Dos erros que se comete
Escrita adentro
Conversa afora

Sigo escrevendo
Mesmo quando
As palavras estão em greve
Por Tempo indeterminado
Por conta de uma mentira
Por tantos repetida
Por Justa causa
Licença poética
Causa perdida

Allyson Santos
02JUL19