sexta-feira, 29 de março de 2019

Tempo feio hoje, né?





Passos discretos cruzam o calçadão. Desviam-se os olhares, ninguém o vê. O par de meias brancas na altura das canelas aquece  do vento frio, que a bermuda velha já não é capaz de proteger. A caminhada plena é de quem faz o trajeto todos os dias. Do transporte público ao destino incerto, o verdadeiro objetivo ele carrega nas costas.

Diferente do fardo cotidiano do trabalhador comum, o peso da mochila é leve. O tempo é nublado. Previsão de chuva. Nada abala os passos lentos e firmes que atravessam o coração da cidade. Enquanto outros procuram os toldos mais próximos, o homem da mochila segue tranquilo. O guarda-chuva escuro, de hastes enferrujadas, o mantém seguro em relação ao porvir.

Cabeça erguida ao horizonte tal qual a criança recém-matriculada rumo ao primeiro dia de aula. Cabelos suavemente grisalhos que pouco se movem com o vento, não pela rigidez dos fios, mas sim pela experiência adquirida na caminhada. O vento gelado se torna antítese quando bate na fina camisa regata. Ele não precisa fazer sentido. Deve ter ignorado a família, que com certeza o mandou levar a blusa. Confiou na intuição.

Eu não sei quem ele é. Nunca escreverão sobre ele. Muitos sequer o reconhecerão na rua. Ele não se importa. É o maior dos nobres poetas de guarda-chuva, e sequer se dá conta. Está muito ocupado sentindo a vida. Diferente de nós. Produz versos e estrofes muito além dos 280 caracteres, com o peso de realismo necessário.

O sonhos dele eu não sei. Me arrependo de não ter perguntado. Me arrependo de não ter dito aquela frase em vão.

“Tempo feio hoje, né?”

Para ele não importam os livros, as teses, as interrupções. As pautas, os gritos, o ego e o status. Importa o trajeto, o verdadeiro sonho da conquista. O sorriso no rosto de quem realmente ama. Teu sonho ainda cabe na mochila?

*

"Cada dia é uma chance pra ser melhor que ontem
O sol prova isso quando cruza o horizonte
Vira fonte que aquece, ilumina
Faz igualzinho o olhar da minha menina
Outra vez, a esperança na mochila eu ponho
Quanto tempo a gente ainda tem pra realizar o nosso sonho?
...
Sem rosto, na boca o gosto da frustração
To disposto a trazer a cor dessa ilustração
No meu posto, dedico o tempo por fração
Pra no fim não levar comigo interrogação"

Emicida

Allyson Santos 
29MAR19

quinta-feira, 28 de março de 2019

Procura-se ouvintes


Quem nunca ouviu aquela frase da sabedoria oriental que diz que “Deus deu ao homem dois ouvidos, dois olhos e uma boca; para vermos e ouvirmos duas vezes mais do que falamos”?

A sabedoria já sabia. O samba já cantava: “É preciso ouvir!”

O poeta grita - em silêncio  - porque não há quem o ouça.

O humano dotado de plenas capacidades de comunicação, responsável por maior parte de sua rápida evolução, deixou de ouvir.

Ao nos depararmos com diálogos no alvoroço do dia-a-dia precisamos reafirmar que não sabemos ouvir.
Se alguém nos conta que seu filho adoeceu, não medimos esforços para dizer que o nosso filho também adoeceu (e de um mal ainda pior!).
Caso chegue a nossos ouvidos alguma piada, dessas de esquina, antes de rir já estamos pensando em uma ainda melhor para superar o colega.

Num mundo de coisas efêmeras onde não se ouve, onde milhões postagens borbulham em redes sociais a cada segundo; todos gritamos. Gritamos para chamar a atenção. Gritamos para tentar ser diferente. Gritamos para as paredes. Gritamos para nós mesmos. Porque não ter capacidade de ouvir o outro é, também, não ter capacidade de ouvir a si mesmo.

Afinal, não é sobre entender, aceitar, tolerar ou concordar... É sobre ouvir. Nós temos corpos e dentro desses corpos nós temos almas. Corpos podem ter um tamanho limitado. Mas a alma não, a alma é grande demais e às vezes ela transborda. Quando isso acontece, precisamos de alguém para ouvir. E somente ouvir.



 Abraço, tchau e bênção!
Hygor Leonardo dos Santos

terça-feira, 26 de março de 2019

Mas que cabeça a minha!


Putz, esqueci de escrever algo para publicar hoje. Peço que me desculpem pelo inconveniente, mas prometo que na próxima semana a crônica será ótima!

(*)

As vezes me pego falando sozinho, comigo mesmo. Resmungo, xingo e canto. Sintoma de quem tem o que dizer mas não encontra quem ouvir.

(*)
Nota mental para uma próxima vez: lembrar de escrever tudo o que pensa. Lembrar onde botou a caneta e o bloco de anotações.

Mil desculpas e abraços!
26MAR2019

terça-feira, 19 de março de 2019

Águas de março


Na dúvida do que escrever comecei a procurar histórias na minha própria memória, vasculhar emoções e tentar tirar do fundo da mente algo curioso, diferente ou até mesmo normal demais. Mas tudo o que me veio na cabeça foi Elis Regina e Tom Jobim cantando "águas de março". Não sei o motivo, só sei que gostei.

O pau, a pedra e o fim do caminho nos lembram que o verão vai embora e o outono se aproxima abrindo um novo ciclo de um novo ano. Somos obrigados a considerar que um quarto do ano já se passou e nossas metas ainda estão pedalando, né não? Desculpe, caro leitor, mas tenho que lembra-lo dos teus planos no primeiro minuto do dia primeiro do primeiro mês deste ano.

(*)

Uma bailarina na chuva consegue rodopiar como num palco? A maquiagem borra quando a lágrima insiste em cair? O batom continua na boca depois de um beijo molhado? A lapela manchada representa o amor? Uma árvore, ao cair no meio do mato vazio, faz barulho? As águas de março fecham o verão? Para onde vão as andorinhas? Se a estiagem prevalecer e a chuva não chegar o verão não acaba?

Um tenista pode vibrar quando o match point é do adversário? A torcida atrapalha um jogador de vôlei durante o saque? O brasileiro gosta tanto de futebol? Se a terra é redonda onde é o fim do mundo? Se a terra é plana quando cairemos no abismo? Se Tom Jobim perder o tom o Jobim dá conta?

(*)

Você já pensou no mundo sem as palavras? O mundo sem as palavras não seria mundo, as cartas de amor não iriam existir, as cartas não iriam existir. Já imaginou um mundo sem cartas? Nunca saberíamos o que é uma certidão de nascimento, escritores teriam que trocar de profissão, bons leitores não iriam ter livros para ler, livrarias não iriam abrir, não iria existir nenhum livro. Bibliotecas? O que são?

A música diz que um beijo vale mais que mil palavras, mas sem as palavras nem a música poderia existir. O mundo da música também seria afetado. Como compositores iriam escrever? Não, eles não iriam escrever. Nunca saberíamos a utilidade do alfabeto, vogais? 

Não teríamos palavras pra explicar como seria o mundo sem a escrita. As assinaturas seriam o DNA, mas o que seria o DNA? Pois não  existiria nem a letra “D” nem a “N” e nem a “A”. Não existiria nenhuma letra. Confuso, não é?

Desenhos um dia acabariam virando escrita, alguém daria um basta nessa confusão e logo inventaria alguma forma de comunicação. Não teríamos comunicação, não teríamos dinheiro, não sobreviveríamos sem a escrita. Quem iria escrever piadas? Ninguém. Xingamentos talvez não fariam falta, ou fariam. Quando você batesse o dedinho do pé no canto do sofá, o que gritaria?

O mundo sem a escrita seria sem graça, sem graça seria o mundo sem as palavras, sem as regras que fazem a gente odiar a escrita, o mundo sem a escrita não seria mundo, fim de papo...

(Texto escrito no fim do verão de 2015)

(*)

No fim do verão

Estive pensando, quando acordei
Sentado sozinho, assim eu fiquei
Imaginando coisas, que ali eu criei
Só há um caminho, um percurso, uma lei

As folhas secaram, tudo mudou
O frio está próximo e não sei quem eu sou
As blusas chegaram, a moda voou
No percurso encaro: o outono voltou

Onde encontro a luz da manhã?
No escuro uma prece, uma vida, uma dor
O que eu faço depois de amanhã?
Se tudo que tenho é um frasco de amor?

Encontrei você, perdida no espaço
Na solidão eu achei, o teu ponto fraco
Uma vida amarga, um abraço pra sustentar
No fim no espaço, há falta de ar

Eu achei você, bem longe daqui
E em troca, teu coração recebi
Encontrei a lágrima no fim do verão
O pássaro voltando pro teu coração

Estava pensando em levantar
Sair da inércia pra longe andar
O meu coração, só pensa em você
Na solidão, só penso em você

Te encontrei num simples gesto
Te encontrei num pequeno bom dia
Você me chamou, dispensei o resto
Encontrei você, numa ventania.

Viva São José
Thailan de Pauli Jaros
19MAR2019

sexta-feira, 15 de março de 2019

O primeiro a chegar e o último a sair



             A distância entre o portão do estádio e a baliza pode durar alguns segundos ou uma vida toda. Basta um leve sopro de vento ou uma simples garoa fina para que o trajeto dure uma eternidade, ou talvez nunca termine. Afinal, é uma missão ingrata evitar ou provocar aquilo que muda diretamente o rumo de toda uma sociedade.

          Um grande escritor uma vez disse que “quando certo time vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, a vida canta, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes, há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz, está feliz”. Deve ser uma responsabilidade imensa garantir que tal raciocínio se concretize e uma dor insuportável ter de interrompê-lo, ou não ser capaz disso.

          Treinamentos incessantes para se tornar refém do acaso são apenas detalhes perto da solidão que só os frios postes brancos proporcionam. Além da crueldade, é trabalho para um só. Quando ocorrem acidentes de percurso, não há com quem dividir a culpa, não há ombro para chorar. Ser goleiro é viver no contrapé, é espalmar a tragédia, é fazer o possível (e o impossível) para o bem e para o mal.
            Hoje não é dia do goleiro. Aliás, nunca é o dia do goleiro (a não ser que a bola não ultrapasse a última linha). Todo e qualquer movimento deve ser previamente calculado. Por vezes a matemática deve fluir 0.6 segundos antes do fim. Por vezes, ao fixar  os olhos no atacante que acaricia a bola na marca da cal, não há calculadora. Apesar de exercer função tão ingrata, o goleiro tem coração. O maior dos corações, seja para suportar a dor, ou para aguentar a alegria de quem salva o coração de tantos outros.

          O caminho é longo para quem pisa primeiro no gramado. A distância é infinita para aqueles que tem coragem de percorrê-lo até o fim. Dedico este texto a todos os meus amigos da baliza. O dia nunca é de vocês, mas isso somente porque os deuses do esporte lhes proporcionaram a oportunidade (ou a punição) de criar seu próprio destino. E jamais esqueçam que todo grande time começa por um grande goleiro! 

Obrigado @DoRicoAoPobre por continuar alimentando meus sonhos e por me ensinar que o futebol, assim como a vida, não tem divisão!

Publicarei alguma coisa aqui toda vez que quinta virar sexta.

Allyson Santos
15FEV19

terça-feira, 12 de março de 2019

Soar irritante


"Quem nunca errou que atire a primeira pedra!"- e assim a pedreira se aproxima, quebrando os telhados de vidro e -talvez- desviando da prostituta da esquina. Mas podemos evitar a pedreira porque sabemos que já erramos uma vez na vida, né? Mas quando?

Certa vez quebrei a tela do notebook, não de uma maneira convencional (derrubando, jogando na parede, atirando pedras). Quebrei ao apertar a tela. Só. Sem mais. E a tela também não quebrou do jeito convencional (trincou, apagou, foi atingida pela pedra). A tela apenas trincou de um lado, fez um risco e apagou em um pedaço. Meio irritante, não?

As coisas da vida às vezes soam irritante. Uma criança no banco ao lado em um ônibus cheio durante uma viagem de 12 horas pode ser irritante. Quando o gás acaba no meio da produção do almoço pode ser irritante. Por que isso tem que acontecer comigo? (ou será com migo?). Coisas acontecem o tempo todo e com todo mundo. Não somos loucos de pensar que estamos sós nesse mundão velho sem porteira. Mas as coisas acontecem. Coisas boas e coisas ruins. Quando eu escrevo a palavra "coisa" o que você imagina?

 (*)

Nunca sei qual "porque" usar. Ou será "por que, por quê, porquê"? Por isso, para explicar alguma coisa eu uso "pois". A palavra que resume toda essa regra, sem nenhuma -Bah! me fugiu a palavra. Ah! Lembrei- sem nenhuma frescura. Acho estranho- e um tanto irritante- separar os porquês na escrita. No som nada se altera. É a mesma coisa. Será que já não temos regras de mais? (ou demais?). Bom, regras são regras.

Se tiver algum professor de português lendo, que me perdoe, foi só um desabafo. E me perdoe também pelas vírgulas erradas e pontos desnecessários, é complicado tentar escrever certo e continuar insistindo no erro. Eu sei, erros de português são comuns no nosso país, às vezes são erros aceitáveis. Mas a piada diz que é inaceitável colocar pouco bacalhau no bolinho.

Às vezes fico irritado quando alguém dita a palavra "vírgula". Temos que escrever a palavra vírgula ou escrever o sinal de pontuação?

Mas as dúvidas continuam por aqui. Estou em dúvida se esse texto é um texto ou não. Texto é texto, acho que acabou. Me irrito quando não acho um fim pro texto. Não temos o que fazer, coisas da vida. Ah! Agora a palavra "coisa" já tem outro significado, e não sei porque/por que/porquê/por quê.

terça-feira, 5 de março de 2019

Apoteose


(*)

A Solidão pode ser o sentimento de estar sozinho em um mundo com milhões de pessoas sós. A Solidão pode ser o mar quando o inverno chega e a neblina toma conta da praia. A Solidão pode estar no andante com fones, ouvindo sozinho o seu coração.

A Solidão pode ser a praia quando está vazia. Mas também quando está cheia. A Solidão pode ser a chuva quando esperada pelo agricultor, quando odiada pelo trabalhador, quando vira água e volta para lugar nenhum.

A Solidão pode ser a janela do ônibus que já viu muita mágoa e muita dor, mas continua ali, sempre pronta para a  próxima. A Solidão pode estar no momento da festa em que tudo fica em câmera lenta e se faz a pergunta: isso é real?

A Solidão é o pensamento que não chega nos ouvidos de quem se nega a pensar. A Solidão às vezes é necessária, assim, com "S" maiúsculo pra ter tom de importância. Importância no mundo onde palavras são meras palavras.

A Solidão não pode ser coletiva, mas existem vários loucos que não conhecem nem seus próprios amigos. Solidão é o estado pensativo. É a grama do vizinho, sempre a melhor opção...

Há quem diga que a Solidão é o sofrimento. Mas às vezes é o lamento de quem não encontrou a perfeição. A solidão pode ser a decepção, pode ser inesperada, ou só imaginação.

A Solidão é a saudade da partida, é a flor no meio da calçada, é alguém que está perdido porque o mundo a deixou.

A Solidão é qualquer clichê da luz acesa, e quando a luz apaga a solidão não larga mão. Solidão é a espera de quem não volta mais. A espera do amigo que você nunca abraçou.

A Solidão é o folião no carnaval, a passista esquecida e o sambista na multidão.

A solidão é a apoteose da alegria, quando a peça chega ao fim sem falar em solidão...

Bom carnaval!
Thailan de Pauli Jaros
5MAR2019