Rosebud foi a última palavra do magnata Charles Foster Kane antes da morte. Enquanto muitos jornais noticiavam o falecimento do controverso protagonista do filme "Cidadão Kane", um grupo de jornalistas decidiu investigar o significado da palavra proferida nos últimos momentos de vida.
Talvez não seja regra, nem mesmo comum, mas a sabedoria popular acredita que as últimas palavras de um homem pode refletir aquilo de mais importante que ele fez em vida. Um homem pode declarar amor a quem ele amou, pedir perdão a quem magoou ou se entregar a quem se entregou por ele.
É, talvez, por isso que o caso de Kane seja tão emblemático ao longo de duas horas de filme. Mas não é meu objetivo falar da obra em si, considerada por tantos o melhor que o cinema já produziu em muitos anos.
Quero chamar a atenção à profundidade das relações humanas que tratarei com superficialidade para mostrar a hipocrisia de uma crônica mal escrita. Rosebud pode representar essa profundidade, já que é um segredo que fica escondido ao longo de toda uma vida por um homem solitário e que pretende ser amado sem sequer querer amar.
Quantas vezes nos prendemos em desejos superficiais que passam com o tempo? Quantas vezes não queremos ser amados sem querermos amar? Ah, o amor, tão frágil, esquecido em torno de palavras sentimentalistas, desejos efêmeros e prazeres passageiros.
O amor não pode ser reduzido a simples sentimentos, prazeres incompletos e objetos insignificantes. O amor é íntegro, é completo, é infinito. O amor preenche e faz com que o homem se entregue completamente ao amado. O amor é sacrifício, é sofrimento, é dor.
Não existe amor onde não há entrega, onde não há dor, onde não há sofrimento. Quando o homem esquece do amor, busca o prazer a qualquer custo e se apaga em um imenso nada, cuja casca é revestida de rancor, tristeza e ódio, torna-se apenas um animal sem alma, incapaz de amar de verdade.
E é por isso que devemos firmar o pé no chão, criar raízes, nos aprofundar. A vida só é bela quando deixamos a superfície e mergulhamos nesse mar profundo que nos faz homens, que nos diferencia dos animais. Não somos feitos apenas de corpo, mas de alma também, sempre e a todo momento devemos nos lembrar disso.
Talvez Rosebud fosse o que Kane tinha de mais profundo, mas não me cabe julgar a vida de um personagem fictício que encontrou na solidão a necessidade de ser amado. Logo eu que não sei o mínimo do que pode ser a justiça.
Cada um de nós, no silêncio de um quarto, devemos nos perguntar: o que eu tenho de mais profundo? O que eu terei depois da morte? Quais serão as minhas últimas palavras? O que é o meu Rosebud? Será somente um trenó barato ou será uma verdadeira entrega por amor?
Thailan de Pauli Jaros
31JUL2022