quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Somos nós que complicamos

Era um dia normal, o sol estava forte, daqueles que derretem o cérebro em alguns minutos. As ruas estavam cheias de carros e gente para todo o lado. Umas iam e outras voltavam. Me perguntava para onde estavam indo e de onde voltavam. Qual era o caminho que faziam e para onde queriam chegar?

No meio do caminho tinha um girassol. Não lembro bem onde ele estava. Nem sequer tenho certeza de que todos o viam. Aquele pequeno girassol acompanhava meus passos ao mesmo tempo em que refletia a luz do sol.

Era uma flor - uns dizem que não- que apontava o caminho. Se a escuridão é a ausência de luz, o dia iluminado é sua plenitude. O girassol me mostrava algo que há tempos eu insistia em não ver. A velha história da luz no fim do túnel, algo que o sol toca nos confins de um oceano, aquilo que pode encontrar alguém que estava perdido.

Posso até tentar ser mais claro, mas a confusão que fiz com as metáforas não pode ser explicada. "Ufa" talvez tenha sido a palavra que resumiu o fim de ano de muitas pessoas. Afinal, esse é o momento de olhar pelo retrovisor e procurar- nem que seja no fundo da alma- algo que possa ter feito sentido durante o ano.

Os anos passam e a história se repete. Sempre esperamos demais de um futuro que não sabemos ao certo se existirá. Mesmo tendo aprendido na oração que o mundo é um vale de lágrimas, procuramos nele nossas consolações. Em vão, é claro.

No fim das contas tanta coisa faz sentido. No entanto, tanta gente está perdida procurando por algo que não sabe bem o que é, tentando completar um vazio que aparece de vez em quando e torna tudo meio insuportável. A cabeça dura impede de ver aquilo que está embaixo do próprio nariz.

Perdemos tempo demais pensando no tal amor próprio, achando que somos completos e que tudo anda bem. A verdade é que estamos à deriva em um mar agitado no meio do nada. Nosso egoísmo disfarçado de amor nos impede de amar. Quantas mentiras não insistimos em acreditar? Quantas verdades nós negamos por capricho?

Precisamos entender que não podemos ser completos quando negamos a simplicidade das coisas. Já ouvimos milhões de vezes que tudo é muito simples, somos nós que complicamos. Somos nós que complicamos. 

A simplicidade é esquecer de nossa vontade, é estar disposto a fazer algo pelos outros, é deixar de reclamar, arrancar as mesquinharias do coração. Isso é tão difícil, né?! É óbvio que não conseguimos sozinhos, precisamos de ajuda.

E na retrospectiva do ano talvez as incertezas sejam tantas, as reclamações infinitas, que nos perdemos nesse emaranhado de confusões, assim como esse rascunho que eu insisto em chamar de crônica. 

O caminho tem curvas, é estreito e fácil de se perder. Mas a bússola sempre pode nos dar o norte para chegarmos à verdade. A vocação dela é nos mostrar o norte, mesmo quando insistimos em ir para o sul. Só há um caminho para a Vida e isso você pode me entender. Não a vida efêmera, líquida, vazia, sem conteúdo. A verdadeira, a eterna, a de alegria.

E assim eu volto ao girassol que me acompanhou durante todo o ano que passou. Muitas vezes eu não consegui enxergá-lo, algumas vezes eu fui o girassol para alguém, em outras ele próprio me mostrou o caminho. O que importa é que nunca nos perderemos se seguirmos a luz, assim como o girassol.

O pequeno girassol que aponta para a luz e nos faz refletir para o que é verdadeiro e eterno. Sejamos esse girassol no dia de alguém, na vida de alguém.


Feliz ano novo e que em 2022 possamos encontrar diariamente o nosso caminho para a Vida Eterna!

Thailan de Pauli Jaros

30DEZ2021

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A ceia de Natal e a virtude da paciência

Para algumas pessoas as festas de Natal começam nos primeiros dias de novembro. As lojas e mercados já decoram os ambientes no fim de outubro. Então são cada vez mais comuns as confraternizações entre amigos, as festas “da firma”, os panetones nos cantos das salas.

Não costumo esconder que sou um exímio amante dessa época natalina, por todos os motivos que não preciso explicar. Por isso tenho a ousadia de contar uma das minhas histórias de Natal.

Era o fim de 2020, primeiro ano da pandemia. Decidi com amigos fazer uma confraternização de fim de ano. Estávamos em três pessoas, sorteamos um amigo secreto para economizar em presentes e decidimos fazer uma janta. À princípio pediríamos uma pizza, como sempre.

Quando nos reunímos, normalmente jogamos os famosos jogos de tabuleiros como Monopoly, War ou Detetive. Enquanto estamos competindo, a pizza chega e tudo parece ficar completo.

Era por volta das oito da noite quando resolvemos ir ao mercado comprar guloseimas. Eis que no fundo de um freezer estava aquele chester que parecia delicioso. Em um momento de bobeira, quando as rápidas decisões certamente são um erro, compramos o chester.

É aí que essa história de Natal começa. Chegamos em casa. Abrimos o chester congelado e fomos ler as instruções para assa-lo. Eu já devo ter mencionado que nunca tínhamos assado um frango.

Acontece que dentro da ave tinha um pacote com os miúdos, aqueles pedaços que o pessoal diz que gosta mas sempre sobram. Como vamos assar com um plástico dentro? 

Agora o leitor deve imaginar aquele episódio em que o Mr Bean perde o relógio dentro do peru de Natal. Foi o que aconteceu. Não, não perdemos o relógio dentro do chester, mas só porque não tínhamos um relógio. Depois de tentativas frustradas, o frango passou por um procedimento cirúrgico e retiramos o material.

Colocamos para assar devia ser quase dez da noite. Sorte a nossa que tínhamos comprado amendoins para “enganar o estômago”.

Foi uma noite tipicamente natalina. Conversamos, rimos e exercitamos a virtude da paciência. A gente até reclama na hora, mas Ariano Suassuna já dizia que tudo o que é ruim de passar é bom de contar. Cá estou eu, compartilhando essa história de imprudência, falta de planejamento e um pouco de irritação.

O fato virou história e decidimos manter a tradição. Não dos atrasos, mas da festa natalina. Nos reunimos novamente neste ano. Dessa vez estávamos em cinco pessoas e planejamos tudo: o amigo secreto, o cardápio e os detalhes decorativos. 

Meus amigos foram ao mercado ainda de manhã, compraram um peru, bebidas e ingredientes para uma tábua de frios. Quando cheguei na festa, a tábua de frios já estava pronta e muito bonita (viu, Dener, coloquei esse detalhe no texto) e o peru já estava no forno há algum tempo.

Acho que era por volta das oito da noite resolvemos revelar o amigo secreto depois de ter comido alguns pedaços de queijo e salame. Após algumas histórias e risadas comuns para esse tipo de evento, fomos ver como estava o peru.

Coloquei aquele ponto final ali só para dar uma pausa dramática. O leitor já deve estar pensando que algo saiu errado, que o peru queimou, etc. Devo dizer que esse achismo está correto. Algumas horas passaram desde o início do assamento quando descobrimos que o forno não tinha sido ligado (sim, era um forno elétrico).

Nosso infortúnio aconteceu pelo segundo ano consecutivo e virou tradição, infelizmente. Mas é isso mesmo. Afinal, isso é a vida acontecendo, a vida real. Nada mais justo do que exercitarmos as virtudes, principalmente nesta época do ano.

Colocamos para assar, fizemos mais uma tábua de frios e jogamos Detetive. Nesse improviso quase comemos a sobremesa - um pavê que rendeu as piadas tradicionais - antes da janta, mas aguentamos a espera. 

Só para finalizar, cito uma frase do Chesterton que me fez pensar na paciência como uma das grandes virtudes nesses tempos voláteis: "Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder". Certamente naquela noite o tempo não foi perdido.

(*)

Talvez eu volte por aqui ainda neste ano com reflexões sobre o ano que passou e as metas para o ano que vem...


Um feliz e Santo Natal para todos nós

Grande abraço!

Thailan de Pauli Jaros

22DEZ2021