terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Vida eterna


O Brasil se comoveu com a morte do grande comunicador Gugu Liberato e o ano carregado no fio da navalha parece que pesou na reta final. O bêbado cambaleando que cai quase na entrada do bar. É fato que ainda não aprendemos a lidar com o inesperado, dizem que a única certeza que temos na vida é a morte, mas nunca nos acostumamos com ela. E os motivos torpes nos deixam ainda mais irritados, como alguém morre por uma razão tão idiota? 

É o freio que falhou, a curva que não pôde ser vencida, o ar condicionado que parou de funcionar. São detalhes tão ridículos que nos fazem acreditar que Deus tem senso de humor. E mesmo com tudo isso sempre nos esquecemos o quão importante é amar. Nos disse Santo Agostinho que a medida de amar é amar sem medida e um duro exercício para lembrarmos de quem verdadeiramente amamos é a tentativa de imaginar uma vida sem eles. Seja um pai, uma mãe, um filho. Seja um amigo, um cônjuge ou um ídolo. Ao imaginar a morte de nossos amores percebemos o quão importante é amar, quanta falta alguém pode fazer em nossas vidas. Pois é, mas essa vida é passageira. E se acreditamos (e de fato eu acredito) em vida eterna, nos resta rezarmos por aqueles que amamos, mas temos que rezar em vida e não só depois da morte.

Enquanto escrevo este texto me recupero de uma forte melancolia que estou sentindo há alguns dias, uma angústia insuportável e ao mesmo tempo consoladora e que pode definir alguns passos e me ajudar em algumas decisões. Como tenho sangue de jornalista normalmente vejo as coberturas especiais na televisão, desde eleições presidenciais, passando por momentos de convulções sociais e morte de pessoas notáveis. Assisti na íntegra ao velório e enterro do Gugu, artista que acompanhei desde minha infância e de quem era admirador. Percebi algumas nuances e refleti muito sobre a vida, a morte, a responsabilidade, o pudor e a caridade. Não achei que isso ia me afetar da maneira como me afetou, mas segui em frente.

(*)

Algumas pesquisas publicadas por alguns jornais dizem que a adolescência nos tempos modernos vai até os 24 anos. Eu arriscaria dizer que pode chegar aos trinta. Partindo do pressuposto de que jovens devem envelhecer para começar a entender a vida esse é um fato muito preocupante. Velhos que se acham jovens, jovens que detestam a responsabilidade e irresponsáveis que esquecem de suas raízes e gritam palavras de ordem aos quatro ventos. A velha síndrome do Peter Pan fica exposta no momento em que adolescentes ingratos lutam pela terra do nunca sem pensar nas consequências e culpam tudo e todos pelas próprias fraquezas.

A verdade é que o novo século está formando pessoas irresponsáveis, reclamonas e desestruturadas que não sabem o que a palavra responsabilidade significa. Por ter essa sensação me surpreendi positivamente ao ver um detalhe durante a cobertura da morte do apresentador Gugu Liberato. Seu filho, João Augusto, de 18 anos, tomando a responsabilidade para si ao ver a fragilidade da mãe e das irmãs. Um exemplo do que se esperar de um homem bem estruturado que tem o único objetivo de proteger a sua família no pior dos dias. 

João Augusto precisava de colo, precisava de um ombro para chorar, mas acima de tudo precisava se manter firme para tomar decisões importantes sobre sua família. A imprensa publicou que foi ele quem ligou para a ambulância na tentativa de salvar Gugu, ele quem teve que assinar o termo para a desligada dos aparelhos do próprio pai, ele quem tratou dos assuntos jurídicos envolvendo o translado do corpo e a viagem de volta ao Brasil. Um menino (?) de 18 anos que se comportou de uma maneira brilhante e afirmou que vai honrar o pai para o resto de seus dias.

No catálogo de coisas incompreensíveis também lamentamos a inversão da roda da vida ao ver uma mãe enterrar o próprio filho aos noventa anos. A fortaleza mostrada por João Augusto com toda certeza vem de sua vó, Dona Maria do Céu, que aguentou horas de angústia e cansaço para se despedir de seu filho.

(*)

Uma fatalidade pode nos dar muitos ensinamentos. Não sabemos quando estaremos na pele dessa família, quando será a nossa vez de mostrar força, mostrar sentimento, mostrar responsabilidade. Se (quando) acontecer em nossa família, seremos capazes de nos manter firmes apesar do coração destroçado? Seremos capazes de permanecer serenos e acreditar nas decisões de Alguém muito maior do que nós? Seremos capazes de entender e aceitar os desígnios de Deus? São questionamentos difíceis, mas totalmente necessários para crescermos, para amadurecermos a nossa fé. 

Todos precisamos de um ombro para chorar quando é necessário, mas mais do que tudo devemos ser o ombro de alguém todos os dias de nossas vidas. Para sermos interessantes precisamos ser interessados.

Grande abraço
Thailan de Pauli Jaros
03DEZ2019

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Fechado pra balanço



Algumas coisas que acontecem nas nossas vidas são difíceis de entender. Muitas coisas são impossíveis. Outras só entendemos depois de muito tempo. E mesmo assim o entendimento é finito, é absurdo. Por vezes contestamos o que não podemos entender, ficamos revoltados ao perceber como as coisas funcionam e a vida vai passando. E o tempo vai passando. Quando paramos para pensar, o mês já terminou.

Ah, o tempo. O senhor da razão, que cura todas as feridas, abre portas e fecha janelas. O tempo sempre está certo, mesmo quando está errado. E durante dias de histeria o tempo nos mostra que a paciência pode ser nossa aliada e a calma consegue nos fazer contar as pedras que estão pelo meio do caminho.

Nessas andanças sobre o pedregulho, carregando nossas cruzes e respirando com atenção, o mundo vai nos mostrando coisas belíssimas e nos apresentando pessoas especiais. Mas o mais importante está muito além do que nossos olhos conseguem enxergar, o fundamental é transcendente, é sobrenatural.

Naturalmente o leitor deve estar pensando de onde vem os devaneios deste jovem (pseudo) cronista. Respondo com a paciência que me é necessária e um leve respiro para encher de ar os pulmões: não sei. Para mim, no momento em que escrevo esta carta, não me interessam as futilidades e as perguntas objetivas. Meu único objetivo é sentir. A verdade é que eu tô fechado pra balanço e não sei quando terminarei de contar. Quem sabe quando as pirâmides desaparecerem ou quando os kamikazes chegarem ao chão. Só o tempo dirá.

O mundo continua girando. Os bares estão abertos, os semáforos mudam freneticamente seus verdes, amarelos e vermelhos globos acima das ruas, as indústrias vomitam fumaças que parecem incendiar uma cidade inteira e o show tem o dever de continuar.

Respira. Tenha Paciência. Longe da histeria do mundo podemos meditar e encontrar respostas para nossas dúvidas, encontrar caminhos nos becos sem saída e saírmos da área de alcance. É necessário nos desligarmos do mundo que nos cerca e conversarmos com Deus. Ao menos tentarmos conversar com Ele.

Não interessa o que digam, não interessa o que pensam. Não se incomode com os outros e os outros não se incomodarão com você. Sirva, faça algo que tenha sentido e procure o que o mundo tem de melhor: a caridade. Afinal, é só isso que importa.

Sem a menor vontade de encontrar de onde chegam meus pensamentos eu finalizo por aqui. O tempo voa e eu continuo fechado pra balanço, espero que por muito tempo.

Thailan de Pauli Jaros
26NOV2019

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O carneiro na sala


Diz a história que um homem foi até o padre reclamar que sua casa era muito pequena, que a sala era miserável e não cabia quase nada. O padre, entendendo as dores do sujeito e procurando uma solução, sugeriu que o homem colocasse um bode no centro da sala e o deixasse lá por alguns dias.

Passado um tempo o homem voltou ao padre ainda mais triste e reclamão, o espaço continuava pequeno e o bode no meio da sala atrapalhava ainda mais. O padre, então, pediu para que o sujeito tirasse o bode da sala, já que a situação havia piorado. E assim foi feito.

Dias depois o homem encontrou o padre novamente e com um sorriso no rosto lhe disse que estava satisfeito com sua casa, que sobrava espaço e a sala era enorme. O espaço continuava o mesmo, mas o bode na sala fez com que o homem valorizasse o espaço antes tido como minúsculo.

Contei essa história porque ela é recorrente no mundo político, normalmente para politicagem, mas na minha situação essa história foi meio que real, só que o personagem não foi um bode e sim um carneiro.

(*)

Não lembro a minha idade, mas esse fato aconteceu anos atrás. Eu desbravava o interior de minha cidade de bicicleta, passeava pelas trilhas, corria no chão de terra e pulava em poças de água da chuva.

Um dia, eu e meu irmão íamos até a chácara de nossos avós e encontramos no meio do caminho um carneiro. O animal aparentava ser pacífico, mas seu dono logo avisou que não poderíamos correr porque certamente iria irritá-lo. Desci calmamente da bicicleta e continuei o caminho bem devagar. Meu irmão ignorou a sugestão do dono do carneiro e, com sua bicicleta, desceu a pequena rua até o nosso destino.

- "Chico" - gritava o homem para o carneiro, que para minha surpresa tinha um nome bem simpático. Eu segurando minha bicicleta de passo em passo tentava despistar o bicho já um pouco desconfiado. Ele me seguia e quanto mais eu apertava o passo, mais ele vinha em minha direção. - "Seja o que Deus quiser" - pensei ao subir na bicicleta e pedalar como se não houvesse amanhã.

Não tinha erro pior. O Chico correu atrás de mim e seu dono ficou para trás. Minha corrida com o carneiro durou uma eternidade. São Silvestre era somente uma miragem nessa altura do campeonato. Até que finalmente eu e minha bicicleta chegamos na casa de meus avós sãos e salvos, pelo menos era o que eu pensava.

Mal recuperei o fôlego ao encontrar meu irmão na cozinha e quando olhamos lá estava o carneiro dentro da sala. O animal entrou na casa e passeou pelos corredores e quartos. Sem reação nos escondemos atrás do sofá e esperamos socorro. - "Ai meu São Silvestre, São Francisco, rogai por nós, cuida desse bicho e de nós".

Quando já não tinha solução uma camionete despontou no horizonte. Era o dono do Chico que viu, na impossibilidade de chamar com carinho, a necessidade de prender o animal na caçamba do carro, para levá-lo a salvo à sua verdadeira casa.

Nós, sempre corajosos, agradecemos a boa vontade do homem e o bom humor do carneiro. Virou piada, virou história.

Até semana que vem
Thailan de Pauli Jaros
19NOV2019


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Tarde demais


Diz a música que as flores de plástico não morrem. Ora, é claro que não morrem, elas também não vivem. As flores de plástico não morrem, mas não há nada mais bonito do que o nascimento de uma nova flor de verdade. Aquele momento em que o botão da rosa se torna um monumento esplêndido, angelical. As flores de plástico não morrem, mas não vivem e não exalam o cheiro do afeto que só a verdade produz.

(*)

Você abraçou quem você ama hoje? O abraço caloroso de afeto, surgindo da força mais bruta e desabrochando em um único lugar de carinho e proteção. Um abrigo que te salva do mundo e te faz viajar no mais belo sentimento que existe nesta terra.

Você beijou quem te ama hoje? Aquele beijo que todos desejavam e que alguém precisava mais do que nunca e que nunca havia pensado. A demonstração da mais simples aliança, demonstração de afeto afetando o coração e causando lindas borboletas no estômago.

Você sorriu para algum amigo? Você sorriu para um desconhecido? Com toda certeza alguém precisou do teu sorriso para continuar em frente, alguém que esperava mais do que podia esperar. Alguém ganhou o dia só de ter a oportunidade de ver uma pequena imperfeição em forma de curva em algum rosto que, por coincidência, era o teu. O sorriso simples e singelo, afetuoso e sincero que muda o dia de qualquer um.

Você elogiou alguém? Cumprimentou alguém que já fez falta? Pode ser que alguém que não consiga demonstrar, que vive sorrindo, que aparenta estar feliz precise muito de um elogio sincero, de um bom dia afetuoso ou de um "oi" quase que sagaz. As aparências não dizem o que o sentimento insiste em mostrar.

(*)

Você já pensou que às vezes pode ser tarde demais? Muitas vezes e para muitas pessoas é tarde demais. Quando a vela apaga, quando a flor de plástico morre não há choro nem vela que possa fazer voltar atrás. O tempo só vai para frente, e o tempo sempre tem razão, mesmo quando erra.

Então faz o seguinte: abrace, beije, elogie, sorria, cumprimente e fale "eu te amo", "eu gosto de você". Faça isso enquanto pode. Reze baixinho, reze alto, reze enquanto pode. Às vezes pode ser tarde demais. A flor é linda, cheirosa, colorida, exala vida, mas quando morre as pétalas caem uma a uma. Às vezes nem o olhar mais sincero é capaz de evitar a queda de uma pétala.

A flor de plástico não morre porque já nasceu seca, fria e sem vida. A flor de plástico não morre porque já nasceu tarde demais.

Sinceros abraços
Thailan de Pauli Jaros
12NOV2019

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Morrer pela causa


Foto: Allyson Santos

Este não é um texto melancólico, muitos menos aqueles panfletos de autoajuda que você joga fora na primeira esquina esburacada que atravessa. Não tem nada a ver com aqueles dizeres anestésicos de rede social que romantizam o fracasso, o sofrimento e a inveja.  A crônica, assim como tudo aquilo que existe, é uma ideia. A ideologia, um amor desperdiçado, um caso perdido, uma mentira qualquer. Por quantas você morreria?

Eu tinha 8 anos quando comecei a lutar judô na escola. Demorei para crescer e meu condicionamento físico era, no mínimo, questionável. Era mais lembrado pelos meus dentes da frente, levemente maiores que os do restante. Não demorou para me apelidarem de “Esquilo”. Mesmo roendo o tatame de vez em sempre, cheguei até a faixa amarela. Essa parte não é mentira, acredite.
               
Depois de mais de uma década, me obriguei a voltar.  Não por vaidade, nem saúde, mas por uma ideia. Uma ideia que me manteve vivo por muito tempo e no próprio tempo se perdeu. Pessoas, egoísmos, interesses e estresses cotidianos. Na tentativa de subir sozinho pela escada, parecia burrice querer encontrar um corrimão. Nada pode ser maior que a ideia.

Me afastei de tudo para colocar a vida em ordem, para me livrar da concorrência desleal, dos gritos por atenção, da falsidade que só um conjunto de egos inflados é capaz de disseminar. Eu precisava de um ponto de apoio, mesmo que pequeno, para reaprender a andar. Eu precisava acreditar em algo de novo. Precisava de uma ideia. Ela veio meio do nada, meio fraca, mas suficiente para me preencher de alguma coisa. Me fez sentir falta de algo que eu já tinha deixado para trás, mas que sempre esteve ali.

Em resumo, tomei uma surra no primeiro treino de judô. Hoje tem de novo. Morrer pela ideia às vezes é necessário. Não por todas, mas por aquelas que vale a pena se viver. Não faça por você. Não faça pelos outros. Não faça por ódio. Não faça por rancor. Faça pela ideia. No fim da passarela é isso que vai importar.

Allyson Santos
07NOV2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Anos-luz



Já era madrugada, não sei ao certo a hora. Eu estava dentro do ônibus voltando de uma longa viagem. As estrelas se misturavam em meio aos aviões e helicópteros que movimentavam o céu de São Paulo, fazendo jus ao títilo de metrópole.

Mas uma estrela em particular me chamou a atenção. Parecia que ela estava me seguindo. Era brilhante, tinha uma luz impressionante. Parecia que estava me olhando. Quando percebi estava conversando com a estrela. Não lembro qual foi o assunto, não lembro se ela respondeu. Provavelmente ela nem existia mais. Possivelmente era um planeta. Parecia que estava girando. Incontáveis anos-luz era a distância entre eu e aquela estrela. Eu tão insignificante, ela tão brilhante.

(*)

Lembrei que a primeira vez que vi uma estrela cadente foi em uma noite de inverno. Eu voltava para casa no sereno após tirar os pontos de um rasgo no braço. Aquele brilho era tão grandioso que por um instante pensei que seríamos extintos, assim como os dinossauros.

Anos depois, quando vi a segunda estrela cadente, descobri que a primeira foi especial. Não era uma estrela caindo no céu, era uma bola de fogo rápida e cadente. Um meteoro que rasgava o horizonte estrelado na fria noite de junho.

Como qualquer criança fiz um pedido tosco que mantive em segredo por todos os dias de minha vida. O segredo continua, mas posso dizer que o desejo se realizou. Hoje, é claro, não acredito mais nisso, tenho outras coisas para acreditar.

(*)

As reflexões causadas pela estrela durante a viagem me fizeram chegar em outros astros. Escrevo sobre aqueles que, talvez por falta de humildade, perdem o equilíbrio e se tornam o centro das atenções. As grandes estrelas mundanas que juram ser brilhantes mas fazem a luz se apagar como num fogo de palha. Uma fagulha que se levanta na imensidão, chama a atenção e logo se apaga no meio do nada. Até as mais belas estrelas podem cair. Algumas conseguem chamar a atenção no precipício, outras causam estragos inimagináveis, mas a maioria não faz o dinossauro perceber que não existe mais.

A chama do que podemos chamar de estrelismo se espalha rapidamente e é aplaudida a cada vírgula, a cada puxada de ar, a cada passo. Os aplausos sinalizam que a coletividade sempre está esperando novos astros, novas caricaturas, novos deuses. E os altares continuam repletos de estrelas, são milhares que quase não cabem em tão pouco espaço. Todos felizes, todos alimentados pelo próprio ego e pela própria destruição.

E o público pede bis, quer a cambalhota, quer o sorriso de canto, o olhar triunfante. Continua querendo até que uma hora cansa. Cansa porque a pedra, o sangue e a gritaria constituem o próximo passo. Se Raul Seixas dizia que "o problema é muita estrela, pra pouca constelação", podemos dizer que nossos telescópios continuam a postos para assistirmos felizes à destruição do que outrora amávamos.

O fogo, a queda, a lágrima, a fé. As estrelas brilham e se apagam e como gran finale nos afastamos delas e procuramos outros astros para amar. De repente alguém insubstituível não é mais importante para nós. A anos-luz de nossos olhos há uma imensidão incapaz de ser tocada, e nós, quando pararemos de amar a nossa estrela atual? Se é que já não a amamos há tempos...

Até a próxima esquina!
Thailan de Pauli Jaros
05NOV2019 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Soneto da Paciência




Nunca fiquei preso nas regras quando escrevo. Sempre escrevo o que tenho vontade. Não sei o que é métrica e a rima é consequência da minha escrita.

Se escrevo sobre liberdade prefiro acreditar que escrevi por vontade própria. Se escrevo sobre prisão prefiro arrebentar as algemas.

Mas há alguns meses tive vontade de escrever um soneto. Passei dias esperando como uma criança espera o Natal. Passei dias pensando, pedindo para que as palavras se encaixassem em poucas estrofes, mas que, no fim de tudo, eu falasse o que queria falar.

Tive medo de me prender em meio às estrofes. Tive medo de cair pelo ridículo e perder as liberdades que o bom português proporciona. Mas tudo que fiz foi esperar.

Até que escrevi. Falei sobre paciência. Falei sobre esperar. No começo não gostei mas dei um tempo para madurar.

Espero que isso faça sentido. Espero pelo próximo soneto.

(*)

Soneto da paciência


Paciente espera para sempre
Ciente sabe que não dá mais
Espera para enfrentar de frente
Enfrenta por esperar demais

Aceita porque quer continuar
Continua por não saber parar
Pára porque precisa de descanso
Descança porque precisa recomeçar

Este ciclo requer paciência
Pedir perdão e resistência
Mas requer amor e atenção

Para que o sentimento floresça
E a fé cada vez mais cresça
É preciso entender um não

Thailan de Pauli Jaros
29OUT2019

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Um estranho na foto de alguém

Foto do compadre Allyson Santos

Eu andava distraído pelos grandes corredores do Santuário de Aparecida quando uma moça me abordou pedindo para eu tirar uma foto de sua família. Ela me entregou o celular já com a câmera aberta e eu, com o maior prazer, procurei o melhor ângulo, a melhor luz e o melhor momento. Mais tarde, eu já estava em outro lugar, um cara me pediu a mesma coisa, que fiz com a mesma vontade.

Coisa louca os dois confiarem seus celulares a um estranho em tempos de roubos e furtos a qualquer momento. Costumam dizer que não se deve confiar em ninguém, mas eles confiaram em mim. Tanto para entregar-me o celular, quanto para registrar um momento, talvez, importante de suas vidas. 

Mas não era isso que eu queria falar. Quando estamos em lugares públicos, com grande número de pessoas, é normal vermos as câmeras ou os celulares em pleno funcionamento. Todos querem eternizar aquele momento para sempre. É o primeiro banho de mar do filho, o passeio no parque com a família, a visita ao Santuário para agradecer o ano que passou.

Em nossas fotos sempre aparece algum estranho que estava no mesmo lugar, ao fundo, rindo, chorando, fazendo careta. Quase sempre o estranho se sai melhor na foto do que a gente mesmo. E como o mundo é pequeno você pode ter a chance de encontrar aquela pessoa anos mais tarde. Você pode casar com aquela pessoa sem nem lembrar. Que importância nós damos para os estranhos nas nossas fotos?

E nem deveríamos. A prioridade da fotografia é o teu filho tomando o primeiro banho de mar e não o surfista caindo da prancha na praia, é teu par envolto ao abraço de amor no parque e não a criança comprando sorvete, é o teu rosto parado na esquina mostrando a igreja do outro lado da rua numa cuidadosa sélfie e não o cara que aparece caminhando na calçada. As prioridades são tantas e tantas são as possibilidades.

Mas o leitor deve concordar que não temos escolha e não temos motivos para escolher. Nossos filhos sempre serão mais importantes, nossos pares sempre serão o centro das fotos e não há com o que se importar a não ser nesses detalhes.

Temos que aprender quais são nossas prioridades. Não adianta tentar agarrar o mundo e esquecer de abraçar quem se importa com você. Ao tentar se importar com todo mundo nos tornamos o estranho na nossa própria foto. E ninguém quer ser coadjuvante de sua própria vida.

É hora de amadurecermos e só assim seremos capazes de descartar coisas não importantes. Coisa louca ao pensar que sempre seremos o estranho na foto de alguém.

(*)

P.s. Ao lançar um novo disco de inéditas, Humberto Gessinger nos brindou com a seguinte frase: "Mas o sonho de mudar o mundo, ao menos muda o sonhador".

Abraços!
Thailan de Pauli Jaros
15OUT2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O boleiro que nunca fui



Nunca gostei de futebol. Já devo ter escrito algo sobre isso em tempos de Copa do Mundo, não lembro muito bem. A verdade é que nunca me interessei em assistir aos jogos e sou um tremendo perna de pau. Abro uma exceção a cada quatro anos, é claro, quando nossa Seleção Canarinho entra em campo.

Por essa razão nunca torci para time nenhum e quando perguntavam - com aquela malícia infantil -qual time era o meu, não entendia a piada e seguia em frente. Meu pai também nunca deixou claro qual era a torcida dele, algo entre o bairrista Paraná Clube e o Grande São Paulo. Nunca torci para nenhum desses times.

Ao longo da vida fui aprendendo detalhes e costumes de meus amigos que são torcedores -quase que- fanáticos. Comecei a acompanhar resultados do Palmeiras e Santos para conversar com amigos palmeirenses e santistas. Aprendi inclusive as piadas com a torcida da terceira idade do time da Vila. Mas sem Neymar? Nah!

Aprendi, também, piadas que o politicamente incorreto não me permite escrever nos dias atuais. Piadas sobre o São Paulo. Quase apanhei de um Palmeirense no ano passado quando falei mal do Felipão, ainda doído do sete a um. O tempo me fez estar certo sobre o técnico, minado pelo time após derrotas.

Talvez por preconceito, talvez por falta de opção, não consigo gostar do Corinthians e já odiei o Atletiba. Sempre tentei entender o famoso impedimento. Sempre sem sucesso. Não entendo o gol anulado pelo apito de um homem na lateral do campo. Sou contra o VAR - muito discutido nos dias de hoje- por acabar com discussões eternas nas mesas do bar.

Sei, por convivência, que o Flamengo é líder. Vivem me pedindo para segui-lo. Não basta a torcida organizada que se encontra toda quarta-feira do lado de casa. A TV deles tem um delay, o que me permite saber primeiro se o gol foi consumado ou se o jogador chutou para a torcida.

O futebol, assim como a política, aflora o que há de mais irracional no homem. O fanatismo da torcida na defesa de seu "time do coração" motiva milhões de pessoas a seguir em frente. Não fosse os jogos de domingo o que conversaríamos na segunda de manhã?

Dia desses li que quem não torce para nenhum time tem sorte de não sofrer toda semana. Ledo engano, caro amigo, ledo engano. O sofrimento pode até fazer parte, mas o que move uma torcida é um gol aos quarenta e seis minutos do segundo tempo. O que move uma cidade é o final do campeonato nacional. O que para uma guerra, como fez o Santos com Pelé, é justamente a torcida fanática pelo futebol, um grande espetáculo. 

O torcedor sofre, mas quando o jogador faz um gol decisivo nos pênaltis eu sempre ouço fogos de artifício por toda a parte. Sorte a minha que não sofro com isso. Azar o meu que não sofro com isso. Depois do sofrimento sempre vem a felicidade. Depois da tempestade sempre vem a bonança.

Escrevi esse texto porque voltava da missa no sábado passado e o rádio do uber sintonizava um jogo do Operário Ferroviário, que perdia de um a zero. Quando entrei no carro o pênalti foi marcado a favor do fantasma. Jogo empatado. Tudo igual. Sou pé-quente, afinal, quando desci do carro e desliguei do restante do jogo, o time adversário completou três a um.

Não sou torcedor, mas sou pé-quente e ainda me emociono com um chá de menta e um pôr de sol.

Calorosos abraços
Thailan de Pauli Jaros
01OUT2019

P.S. Posso não saber de nada, mas a pergunta em toda esquina é: hoje tem gol do Gabigol?

P.S.2. Gabigol é um nome que define o jogador de futebol brasileiro. O famoso Gabriel que faz gol e faz jus ao apelido, me dizem os jornalistas esportivos.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Aquele cabelo branco


A gatinha não parava de miar, parecia estar com fome. Pulou do sofá e foi direto ao pote de ração. Levantei com certa preguiça e enchi a cumbuca. Ela sente falta do seu companheiro, o gato - não sei o motivo, mas nunca demos nome, sempre foi gato- que sumiu há algumas semanas.

Quando voltei para o sofá, passei em frente ao espelho e vi algo estranho. Aquele bendito cabelo branco. Não é possível que um jovem de 21 anos tenha cabelo branco. Um jovem não pensa em ter cabelos brancos. Não pensa em envelhecer.

"Jovens, envelheçam depressa", foi o conselho dado por Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico. Um conselho contundente e autoexplicativo. Um tapa na cara daqueles que querem mudar o mundo mas não conseguem organizar a própria vida, ou, arrumar a própria cama. Querem dar pitaco em política externa mas ganham mesada dos pais sem, sequer, lavar uma louça.

As pessoas fogem da velhice como o diabo da cruz. São os cremes, as plásticas, as academias em cada esquina e as opiniões infundadas. Ninguém tem o menor interesse em amadurecer pois acreditam que já são maduros o suficiente. Todos já têm opinião. Todos já sabem de tudo. Todos têm certezas. São todos estrelas, parafraseando Raul Seixas, e poucas constelações.

O mesmo jovem que falta aula para discursar sobre o clima e para protestar contra não se sabe o quê sofre com a solidão. Mas não qualquer solidão, aquela mais sofrida, a pior delas. Quando o sujeito é rodeado de pessoas, frequenta festas toda semana, conversa com gente de todos os tipos, finge suportar e aceitar todas as diferenças e quando percebe está sozinho. Solitário no meio de uma festa, no discurso do protesto ou no escuro de um cinema.

É que deixar de ouvir o que os outros têm a dizer e só falar pode nos deixar sozinhos. Deixar de aceitar normas morais, conservar coisas transcedentais e fugir para momentos fugazes que passam num piscar de olhos é pedir para ficar solitário. Acreditar que está no topo do mundo e na crista da onda pode deixar o tombo maior e mais dolorido. O chão é a vida real. Sempre foi a vida real.

E sem conseguir aceitar o sofrimento da solidão, sem suportar a mínima dor, o sujeito recorre à respostas infundadas e explicações rasas de qualquer niilista e/ou correntes de pensamentos tortos e difusos. Também acredita piamente em qualquer "coach" por aí. "Tudo no meu ritmo"- dizem- "que é diferente dos demais". Pode até ser, mas qual é o seu ritmo? Toma cuidado para não destoar da música.

Essa síndrome de Peter Pan já é famosa, mas o que o jovem terá no futuro que realmente valha a pena? Que realmente importará? Qual a vida que vale a pena ser vivida? Onde está o mundo real? Com certeza não nessas bolhas de intolerantes insuportáveis.

Criança precisa de tutela e adulto precisa de responsabilidade. A vida real é assim e sempre será. Nenhuma necessidade de autoafirmação e sensação de pertencimento pode mudar isso.

Pensei nisso por um momento quando encontrei o fio de cabelo branco. Mas o devaneio sumiu quando olhei aquele fio em meio ao barulho da televisão e as luzes acesas. Pensamentos desnecessários pois me dei conta de que aquele fio de cabelo era o que sobrou do pelo branco do gato sumido, que grudou na almofada onde me deitei.

Cresçam, sejam responsáveis
Thailan de Pauli Jaros
24SET2019

Última foto com o gato antes de ele sumir

sábado, 14 de setembro de 2019

A Ilha dos Sonhos

Eu vejo o mar. Eu vejo os movimentos das ondas, e lá no fundo vejo a vida litorânea tão sonhada por muitos. Vejo uma cidade histórica, que viveu desde de muito antes da chegada de Vasco da Gama, passou pela colonização, independência, o Império e a República. Eu vejo uma cidade que muito se tornou o sonho de várias partes, de pessoas de todo o país (inclusive o meu) e nela, o status de ser um dos auges da vida. Mas ao adentrar a fundo na Ilha de Florianópolis, eu vejo outros tipos de sonhos. Eu vi pessoas na beira do mar caminhando, vi pessoas com feições que a vida passava rápido, e logo corriam para alcançar seus destinos. Eu vi sonhos destruídos. Eu vi pessoas que durante o dia, em alguns  pontos da ilha buscavam um recomeço. Seja pela arte da rua, seja pela misericórdia do outro, ou seja no mais profundo que um ser pode chegar. Eu vi pessoas procurando seu sonho em um lixo. 
Sonhos são muito mais que o ato de uma movimentação de imagens enquanto nossos músculos relaxam, e nós dormimos. Sonhos são objetivos. São ascensões na vida, são motivos pelos quais eu, você, e qualquer outro nesta grande bola flutuante no espaço vivemos. Mas sonhos também são a destruição. São o nosso fim. E quando esses sonhos destroem, corroem por dentro, nos resta apenas viver, sobreviver. E a ilustre capital de Santa Catarina que nomeia um marechal vitorioso dos períodos ainda infantis da República, confirma: Ela é, sem dúvida, a Ilha dos sonhos. Lá vivem muitos sonhos. Existe uma sociedade dos sonhos. Sejam eles os motivos de viver, ou os motivos de desistir. Eu vi na Ilha dos sonhos uma multidão desses mesmos. Conheci vários tipos, conversei, senti. Vi o meu próprio se esvair pelas ruas, chegar ao mar, perambular pela cidade flutuante do Atlântico. Talvez o meu sonho, tenha sido abraçado, e ainda esteja lá. Mas ela, a Ilha, seria capaz de amadurecer, crescer e alimentar meu sonho que lá tenha ficado, ou ele apenas agora caminha sem motivo, apenas sobrevivendo? 
Talvez essa questão seja um dos maiores poderes da Ilha dos sonhos.
Florianópolis, SC. Foto: Germano Busato

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pagliacci



- Como tem passado? - Perguntou o médico.

- Estou bem sim. Estou tranquilo... - Respondeu o homem sem qualquer ânimo na voz. Como se nem ele acreditasse no que havia dito. Talvez não fosse capaz.

- Tem conseguido “alargar o pavio” nos últimos dias? – pergunta típica que os doutores fazem para tentar criar um ambiente de informalidade. Quase sempre sem sucesso.

- Bom, eu tento. Mas no meu emprego nem sempre isso é possível.

O tom de voz sugeria uma crise pânico, ansiedade, ira ou depressão. Não pude distinguir bem por traz da cortina que nos separava. Como se tratava de uma sessão de acupuntura, não foi difícil perceber que o homem estava apostando ali, suas últimas fichas.

- Imagino. Deve existir muita má fé no mundo judiciário. – disse o médico, que aparentemente não estava sequer ouvindo.

- Só o que existe é má fé. Todos os dias. – retrucou o paciente - Não me surpreenderia em nada caso um dia descubram que nosso ex-presidente é inocente. Que toda a operação está, de fato, comprometida. Que não podemos confiar em nada. Acreditar em ninguém. É uma das coisas que me tiram o sono.  

- Mas não tem se entregado. Né?

- Tem sido difícil com os problemas em casa. Tenho me sentido sozinho. Muitos pensamentos negativos.

- Mais problemas?

- Acho que a acupuntura tem ajudado com o stress, mas é só a ponta do iceberg. Minha esposa me deixou. Não vejo meus filhos há quase um mês...

Não pude acompanhar o restante da conversa. Meu tempo com as agulhas no rosto havia acabado. A assistente já tinha ligado a música japonesa aleatória, que no fim das contas só me deixa mais nervoso com os choques elétricos. Minutos se passaram. O médico atravessou a cortina que separava as duas camas e veio até mim.

- Os movimentos do rosto voltaram depressa. Você foi o meu paciente que evoluiu mais rápido, sem dúvida! Está se sentindo bem?

- Ah doutor... quer mesmo saber?


“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”
Rorschach
Watchmen – Alan Moore
Allyson Santos
13SET19

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Envelheço na cidade



            Antigamente eu olhava para os dois lados antes de atravessar a rua. Observava melhor as estrelas. Admirava uma boa foto. Parava e conversava com um amigo de longa data que há tempos havia perdido contato. Tinha mais ânimo para escrever as coisas. Abraçava as pessoas que amo. Falava olhando nos olhos. Era menos orgulhoso, menos vaidoso, menos rancoroso. Conseguia me planejar melhor. Eu já me importei mais com o dia 16 de agosto.

            Antes de começar a escrever este texto, olhava para o arquivo em branco e notava que havia muito de mim ali dentro. Há tempos deixei de controlar as teclas. Com todas as suas incógnitas, costumes, desigualdades, solidões, propagandas, leis e injustiças, é a cidade que me molda. Em algum momento me deixei levar por ela. Perdi o controle. Ela escreve o que quer. Faz de mim o que quer. Fez de mim o que sou.

Tudo foi se tornando cada vez mais vazio. Os erros que eu perdoava, as falsidades que eu tolerava, os medos que eu cultivava, as ideias que eu defendia. É como se hoje, tudo estivesse no piloto automático. No percurso, deixei de ser aquele garoto que sonhava e que mantinha fé nas coisas e nas pessoas.

            Vinte anos se passaram. A cidade mudou muita gente que eu conhecia. Trouxe gente nova e criou novos paradigmas. Convivo diariamente com a tristeza das escolhas que não fiz, tentando recuperar meu próprio controle. O caos do cotidiano nas esquinas não tem concerto. O que posso fazer é encontrar meios, não de sobreviver, e sim de viver nele.

Se antes eu admirava as minhas incertezas, hoje elas me tiram o sono e me paralisam a face. Pequenos efeitos colaterais de quem vive com medo do amanhã. Não preciso da folha inteira, só de alguns parágrafos de volta para admirar as pequenas coisas dentro da série de outras que sou obrigado a defender sem motivo. Uma pena a gente só pensar nessas coisas uma vez a cada 12 meses. Mais um ano que se passa e eu não sei o que fazer. Feliz aniversário!

Mais um ano que se passa

Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade

Essa vida é jogo rápido

Para mim ou pra você
Mais um ano que se passa
Eu não sei o que fazer

Juventude se abraça

Faz de tudo pra esquecer
Um feliz aniversário
Para mim ou pra você

Feliz aniversário

Envelheço na cidade!

Ira!
Allyson Santos
16AGO19

terça-feira, 30 de julho de 2019

Milonga inacabada


Milonga inacabada

Ninguém sabe de nada
é tudo pré fabricado
Ninguém sabe de nada
não tem significado

A crônica é a mais bela
Mas não faz mais diferença
Uma canção à capela
e o mundo só ouve aparência (sofrência)

O mundo não acabou
Mas não encontro a milonga
Procuro o que sobrou
Não faz sentido essa conta

(...)

Me vi escrevendo uma milonga, mas não sabia o que a milonga teria para me dizer. Me vi escrevendo mas não consegui escrever. Me vi escrevendo e nem sabia o que seria uma milonga. Lembrei que o mestre Luiz Carlos Borges teve um encontro com a Milonga depois que ouvio que ela "estava morta". Tanta coisa já passou, tantas têm que passar e a milonga lá, batendo na nossa porta quase todos os dias, quase todos os anos. Se algo acabou, não foi a milonga.

Me vi escrevendo uma crônica, mas não compreendia o que a crônica estava tentando me dizer. Já não faz diferença a relação entre o objeto e o observador, tudo já foi feito, mas há tanto para fazer...

Me vi inundado de pensamentos, mas não sabia se esses pensamentos faziam sentido. Deviam fazer. No momento em que todos sabem de tudo, todos falam sobre tudo e debates se tornam repetição de velhas fórmulas feitas, eu não sabia o que dizer. Pré-fabricados transformam o mundo em cool, todos sabemos, todos devemos saber.
Um grita daqui, outro grita dali e eu continuo acompanhado da minha solidão silenciosa. Silêncio. Silêncio, por favor.

E minha milonga ficou incompleta, assim como minha crônica que acaba por aqui por não saber o que dizer. Não saber o que dizer às vezes faz sentido num mundo onde todos sabem de tudo. Ou pensam que sabem.

(Texto escrito em janeiro de 2019)

Thailan de Pauli Jaros
30JUL2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Tebetê


Não lembro o ano, não lembro se era verão ou inverno. Mas lembro que estava na varanda de casa com um gibi na mão. Depois de tanto folhear e ver as imagens do livro comecei a juntar as sílabas e ler. Lembro muito bem do dia que aprendi a ler com o gibi do Rei Leão, uma adaptação literária do segundo filme.

Dizem que nossa memória nos engana e às vezes lembramos o que queremos e como queremos. Acho impossível alguém aprender a ler de uma hora para outra, mas foi assim que aprendi. Que eu me lembre.

Tenho o gibi até hoje e, numa das peças que a memória prega, acreditava que se tratava do primeiro filme. Foi quando achei, no meio das bagunças da infância, que vi a capa "Rei Leão II, o reino de Simba". 

Ainda não assisti ao filme novo. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade.

Lendo as críticas sobre a nova (?) obra, percebi a aflição que algumas pessoas têm a respeito da chamada "live action". Muitos escreveram sobre a emoção que o desenho proporcionou no século passado e a ausência dela nos dias atuais. Eu não tenho essa aflição e estou ansioso para ir ao cinema.

Mas fiquei pensativo ao ler essas críticas e confesso que refleti sobre a falta de emoção ou a expectativa que criamos sobre certas coisas. Para o leitor não pensar que, mais uma vez, viajei na maionese, posso explicar meu confuso raciocínio.

Por vezes criamos muita expectativa em coisas que podem não se materializar tão épicas quanto imaginamos. É só lembrar daquela viagem que você fez no passado e de que gostou muito e imaginar voltar para o mesmo local só que nos dias atuais.

Sim, será épico, memorável. Mas você imaginou o mesmo lugar que visitou no passado e se esqueceu que tudo pode ter mudado, o que existia antes pode não existir mais. Pode ser frustrante.

Eu era fã do Mickey quando pequeno e sempre assistia à um filme que ele se vestia de mago, o mais clássico da Disney. Escolhi não ver nos dias atuais para não apagar a boa memória que tenho dessa obra. Por puro medo prefiro não lembrar da história e enredo e preservar a boa lembrança do protagonista do mundo mágico da Disney.

Devemos aceitar que só a mudança é permanente. Não é uma mudança repentina como um soco no estômago. E sim algo leve e sutil que nem percebemos. Se temos os pés no chão e consciência de nossas raízes, a mudança é só um detalhe que passa batido no cotidiano.

Assim como velhos amigos que mudam mas esperam que o outro sempre continue igual, para manter a amizade e a leveza do passado. 

A criança que assistia ao desenho na fita k-7 verde criou expectativa sobre o novo Rei Leão e pode sair frustrada.  Sinto dizer, mas a culpa pode não ser da produtora do filme. Entretanto o novo não é tão cruel. Algum detalhe pode nos surpreender e fazer com que aproveitemos duas horas em frente à tela do cinema.

(*)

Como o dia é de tebetê devo contar que achei uma caixa com escritos antigos. Poemas nunca publicados e cartas que nunca enviei se tornaram inéditos para mim, o próprio autor.


Pedaço do manuscrito que pode ser tema para outro texto

É como se um vácuo tivesse se perdido no tempo e todas essas cartas que já tinha esquecido voltassem. Minha memória me pegou, disso eu não lembrava. Não criei expectativa e foi épico.

Grande abraço
Thailan de Pauli Jaros
25JUL2019





terça-feira, 16 de julho de 2019

Musa inspiradora


Fiquei pensando em como poderia começar esse texto. "Era uma vez" já enjoou e "naquele tempo" remete ao que é religioso. Sem querer comecei com o horrível "fiquei pensando".

Costumo assistir aos tutoriais na internet para fazer coisas que tenho dúvidas. Contas matemáticas, como trocar a resistência do chuveiro, como editar vídeos e salvar arquivos corrompidos, como tirar o maldito vírus que se instalou no meu pendrive. Mas não há um tutorial sobre como começar uma crônica. Melhor assim. Vamos sair do tecnicismo.

Tenho pensado muito em como as coisas são criadas, como os textos são escritos, como as músicas são tocadas. Será que eu escrevo como os outros escritores? Há uma técnica, um manual ou um tutorial? Deus nos livre.

Cada um tem que ter o seu jeito, sua maneira de se expressar. O bom português cuida do resto. Não é que seja uma Torre de Babel, mas os motivos que nos levam a escrever são diversos e não há muitas pistas sobre o que move um escritor.

Uns escrevem para Deus, outros escrevem sobre Deus. Uns para amores, outros sobre amores. Uns escrevem sobre coisas, outros das coisas. Uns escrevem sobre si mesmos, outros falam de outros. Uns falam sobre coisas boas, outros nos levam ao inferno.

Ainda na busca por sentidos e motivos da escrita, lembro de grandes artistas e suas musas. Alguns escrevem sobre mulheres, outros para mulheres. As curvas da mulher brasileira (sempre elas) são populares em canções de amor, obras arquitetônicas e/ou devaneios de bares.

Poetas, atletas e cantores falam de suas musas. Fazem por suas musas. Poetas são filhos delas e escrevem rimas para elas, atletas quebram recordes e cantores criam belíssimas melodias para amores não correspondidos e companheiras inseparáveis. Musas inspiram e nos fazem respirar.

Eu que não sou poeta, não sou atleta e muito menos sei cantar faço pouco caso e escrevo sobre todas.

As musas são importantes para a humanidade. São inspirações e salvam as pessoas em várias esquinas. Muitas mulheres tornaram-se letras de música. Roberto Carlos, por exemplo, eternizou sua mãe em Lady Laura. No esporte, Roger Federer insiste que só vai parar de jogar Tênis quando sua esposa mandar e Gabriel Jesus liga para a mãe cada vez que faz um gol.

As musas entram para a história e ficam mais conhecidas que seu criador. Afinal, foi quando Monalisa piscou para da Vinci que Gioconda tornou-se eterna. Trata-se de criador e criatura. Depois que Eva traiu Deus ao comer o fruto proibido Ele escolheu a Virgem Maria para ser a rainha dos Céus e da Terra. Ela salva todos.

Bom, continuo minha investigação. Mas uma descoberta importante é que não são só os artistas que são movidos pelos amores. Todos são.

O leitor deve estar se perguntando o que move esse pseudo cronista e quem é sua musa inspiradora. Digo ao leitor que ainda não sei. Talvez a indecisão, talvez a ingenuidade, talvez nenhuma das duas.

Calorosos abraços!
Thailan de Pauli Jaros
16JUL2019

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Medo do escuro



A primeira sensação real de medo é inesquecível. Eu tinha seis anos quando meus pais me levaram para o centro da cidade comprar um colchão novo. “Mas, ué? Você tem medo de colchão?”. Aposto que minha namorada gostaria que eu tivesse, pela minha quantidade imensurável de horas dormidas. Mas não, o medo vem um pouco mais adiante. Havia acabado de beber um refrigerante no caminho até a loja e, ao chegar lá, bateu aquela vontade de ir ao banheiro.

A atendente me levou até o recinto. A porta branca nos fundos do estabelecimento levava a um corredor escuro que, por sua vez, levava ao banheiro. A moça me guiou até o fim e perguntou: 

-Você tem medo do escuro?

No auge da bravura de um garoto de seis anos de idade, olhei a minha volta e calculei que a luz do banheiro me levaria até a porta de saída. Dito e feito. Fiz minha parte na história, lavei minhas mãos. Saí caminhando rapidamente pelo breu que preenchia o corredor. A porta do banheiro, minha única fonte de iluminação, se fecha sem explicação. Naquele momento, todos os meus pesadelos de infância me perseguiram e o caminho que parecia simples havia se transformado em labirinto.
            
Apalpando as paredes desesperadamente, encontro a maçaneta. O pequeno detalhe é que a vendedora não havia me ensinado corretamente como girar aquela maçaneta. Não sei explicar até hoje, mas a porta só abriria se você seguisse o procedimento correto. Qualquer deslize e eu ficaria confinado lá dentro por horas.

Aos prantos, lágrimas e todo tipo de oração que sabia naquela altura da vida, aclamava por ajuda. Os cinco minutos que passei lá dentro foram suficientes para que eu visse todo tipo de assassino, bicho papão, espírito, lenda urbana e demônio. Não me lembro de ter chorado tanto em outra época da infância. Consegui me libertar daquele inferno momentâneo. Nunca mais pisei na loja.

Há poucos dias, acordei no meio da noite com vontade de tomar água. O relógio batia 3h da manhã. Meu celular estava sem bateria. Sem pensar muito, levanto. Percorro o escuro total, bebo água e volto dormir. Foi assustador como aquilo não surtiu qualquer impacto emocional. Havia se tornado mecânico há tempos. Eu não tive tempo de perceber ou sequer lembrar do que eu sentia medo quando criança. Naquela noite troquei uma ideia com os demônios que antes me perseguiam. Era como se eu, de alguma forma, os entendesse. Todas as dores, a solidão, as angústias, as responsabilidades, as falsidades. O medo pode enfraquecer, mas a falta dele, por vezes é mais preocupante. Coragem ou excesso de realidade? Você decide.


Allyson Santos
15JUL19