Vou tirar as fantasias empoeiradas do armário. Com a máscara
de sempre, estarei cima do trio elétrico só para ver as outras caírem. Desta
vez eu chego na hora. Quero ver as avenidas se fechando, as escolas aquecendo e
as bandeiras tremulando no ar. Vou sentir o cheiro da alegria adiada enquanto
passeio vagarosamente pela multidão abafada só para te ver desfilar.
Quando o carnaval chegar eu quero estar pronto. Quero dançar
tudo que eu nunca dancei, cantar o que nunca cantei, chorar como nunca chorei. É
por isso que eu tenho me guardado em comodismo durante todo esse tempo. Nada
vai importar como antes e a cadência do batuque deve afagar esses batimentos
cardíacos antes tão acelerados. Com a beleza do teu desfile, para sempre eu não
poderei estar. Em algum momento terei de ir embora... outro que tome meu lugar.
Assim que a luz apagar e o povo sumir, juntarei os meus retalhos
de cetim espalhados pela avenida. Aos poucos o samba vai se calar e eu vou
esquecer de todos os olhares que passaram tão próximos dos meus, como se não fossem nada. Conforme a solidão dos meus dias regresse, também não vou lembrar
do beijo molhado de maracujá. Teu desfile não passará de uma vaga lembrança nos
furos da minha máscara. Talvez ela reapareça de vez em quando, ou quando o
carnaval chegar. Nos meses mais frios, estarei me guardando. Você sabe onde me
encontrar.
