terça-feira, 1 de junho de 2021

Depois da pandemia...

É comum nos tempos em que vivemos a promessa de deixar as coisas "para depois da pandemia". Quantos churrascos já combinamos pra "quando tudo isso passar", quantos encontros foram marcados "assim que der", quantos abraços foram postergados com a velha desculpa "vamos deixar para o futuro".

E a vida vai acontecendo mesmo nesse processo eterno de espera. O desejo da "aglomeração" parece aumentar a cada nova restrição imposta por não sabemos quem, não sabemos por quanto tempo. E justamente nesse caos todas as nossas esperanças se voltam para uma única salvação. Uma tal de ciência aqui, o uso de máscara acolá e a vacina. Santa vacina.

É até justo esse pingo de otimismo e talvez uma pequena gota de coragem em meio ao medo que paralisou o mundo. Mas, como tudo nesse último ano, é preciso cautela para não criar falsas esperanças nas incertezas.

E se a vacina não funcionar? E se não houver o "depois da pandemia"? É claro que ninguém gosta nem de pensar nisso, mas temos que olhar para as possibilidades. Quanto tempo vamos ficar paralisados esperando a salvação? Quanto tempo ficaremos paralisados pelo medo?

Uma hora ou outra o rio deve voltar ao seu leito normal. Não sabemos quando, mas quando ele voltar as consequências serão inevitáveis. A água pode baixar, mas os estragos causados pela enchente se tornarão visíveis. Para nós, pequenos seres humanos, resta esperar e resistir para não afundarmos nas águas sujas da tirania.

Às vezes - e essa hora vai chegar, se é que já não chegou- é necessário remar contra a maré.

(*)

É desumano ser tratado como peça em um jogo interminável de xadrez. O ser humano não existe para ser controlado e sim para viver a sua própria vida para o fim a que foi criado. 

É desumano ficar mais de um ano trancado em casa impossibilitado de ver a própria família, ganhar o próprio dinheiro, viver a própria vida.

É desumano aceitar passivamente regras que surgem do nada com justificativas torpes e que não podem ser entendidas nem contestadas por ninguém. É desumano sucumbir ao medo em nome de um sacrifício para uma proteção que nem sequer é certa.

É desumano tratar o homem como um aglomerado de moléculas sem entender que a vida própria acontece no convívio com os outros homens. 

E isso não é negar a caridade de cuidar daqueles que necessitam de cuidados, ou de proteger os que precisam de proteção. Não é estar insensível ao sofrimento daqueles que perderam amores e amigos. Mas o medo da morte que nos paralisa é o mesmo que nos leva, atônitos, ao penhasco.

A falsa esperança de que somos imortais e por isso viveremos até o fim da novela vai nos deixando egoístas e mesquinhos. Só nos resta julgarmos as atitudes alheias daquele pai que levou o filho ao jogo de futebol, daquela filha que foi visitar a mãe no fim da tarde, daquele neto que quis estar com o avô no leito de morte.

Não sejamos mesquinhos, não sejamos egoístas. Pode ser que a pandemia não tenha fim. Pode ser que a pandemia não termine antes da nossa morte. E aí, tudo isso terá valido a pena?


Coragem!

Thailan de Pauli Jaros

01JUN2021