Passaram as eleições. Depois de um quase infinito período de grandes debates nacionais, discussões acima de nossa compreensão, de elegâncias diárias, apontamentos de nobres cavalheiros e peças publicitárias que evidenciaram nossa civilidade exemplar, terminamos com uma sensação de ressaca.
Talvez não aquela ressaca da cerveja barata que eu nem conheço por não apreciar a queridinha do país, nem aquela dor de cabeça que não incomoda depois de umas tantas taças de vinho. Uma ressaca moralmente diferente que se espalha pelo ar e penetra em todos os cômodos da casa.
Para uns uma ressaca de alegria, alívio ou sei lá mais o quê. Para outros uma ressaca de tristeza, emoção ou até mesmo indignação. Outros ainda amargam uma ressaca de indiferentismo que não gosta de se misturar com aquilo que está aí. Mas todos ficam meio descontentes ao constatar que o país sempre está a um passo mal dado do abismo.
O fato é que passaram as eleições. E passarão outras e outras e outras. E passará também o fim do mundo e o início de um novo mundo. Como Fernando Pessoa, sob o pseudônimo de Alvaro de Campos, expôs em "Tabacaria": "A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, e a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente, continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas".
O melacólico que vive em mim às vezes - quase sempre- não consegue ordenar o pessimismo. É que sou incapaz de validar qualquer coisa que não compreendo. Às vezes não entendo a rapidez com que as coisas mudam nesses tempos voláteis. O que era já não é, o que foi talvez nunca tenha sido. Está tão fácil apagar biografias, limpar o que estava sujo e fingir que nada aconteceu.
É praticamente impossível encontrar uma ponte sólida quando o rio está cheio. Mas ele sempre volta para o leito normal. O abismo também pode ser uma oportunidade de salvação. Ao olharmos para baixo, podemos nos lembrar da imensidão que está acima. Portanto, nunca percamos a esperança e a confiança, é isso que nos move e nos faz homens. Passam as eleições e ficam os verdadeiros cavalheiros. Passa o tempo e ficam os nobres. Passa a vida e fica a eternidade.
Coragem!
Thailan de Pauli Jaros
1ºNOV2022
Dia de Todos os Santos