terça-feira, 1 de novembro de 2022

O abismo que nos salva

Passaram as eleições. Depois de um quase infinito período de grandes debates nacionais, discussões acima de nossa compreensão, de elegâncias diárias, apontamentos de nobres cavalheiros e peças publicitárias que evidenciaram nossa civilidade exemplar, terminamos com uma sensação de ressaca.

Talvez não aquela ressaca da cerveja barata que eu nem conheço por não apreciar a queridinha do país, nem aquela dor de cabeça que não incomoda depois de umas tantas taças de vinho. Uma ressaca moralmente diferente que se espalha pelo ar e penetra em todos os cômodos da casa.

Para uns uma ressaca de alegria, alívio ou sei lá mais o quê. Para outros uma ressaca de tristeza, emoção ou até mesmo indignação. Outros ainda amargam uma ressaca de indiferentismo que não gosta de se misturar com aquilo que está aí. Mas todos ficam meio descontentes ao constatar que o país sempre está a um passo mal dado do abismo. 

O fato é que passaram as eleições. E passarão outras e outras e outras. E passará também o fim do mundo e o início de um novo mundo. Como Fernando Pessoa, sob o pseudônimo de Alvaro de Campos, expôs em "Tabacaria": "A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, e a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente, continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas".

O melacólico que vive em mim às vezes - quase sempre- não consegue ordenar o pessimismo. É que sou incapaz de validar qualquer coisa que não compreendo. Às vezes não entendo a rapidez com que as coisas mudam nesses tempos voláteis. O que era já não é, o que foi talvez nunca tenha sido. Está tão fácil apagar biografias, limpar o que estava sujo e fingir que nada aconteceu. 

É praticamente impossível encontrar uma ponte sólida quando o rio está cheio. Mas ele sempre volta para o leito normal. O abismo também pode ser uma oportunidade de salvação. Ao olharmos para baixo, podemos nos lembrar da imensidão que está acima. Portanto, nunca percamos a esperança e a confiança, é isso que nos move e nos faz homens. Passam as eleições e ficam os verdadeiros cavalheiros. Passa o tempo e ficam os nobres. Passa a vida e fica a eternidade.

Coragem!

Thailan de Pauli Jaros

1ºNOV2022

Dia de Todos os Santos 

domingo, 18 de setembro de 2022

Hora do mergulho


Já devo ter repetido várias vezes por aqui que o silêncio é a melhor resposta diante do ruído. O silêncio nos permite olharmos para dentro de nossa própria alma para tentar enxergar aquilo porquê fomos criados. É certo que o barulho ensurdecedor pode até fazer sentido na superfície, mas, complexos como somos, não passa de uma casca que esconde os medos, as angústias e a finitude daquilo que poderia (e deveria) ser infinito. 

Nos dias atuais a orla da praia fica lotada de gente durante as festas de fim de ano. Cada guarda-sol armado na areia tem uma caixa de som com uma "música" que se mistura com outra, e com outra, e com outra...

No raso ainda ouvimos o som, mas se mergulharmos para águas mais profundas ele vai desaparecendo e tudo o que ouvimos é o nosso próprio movimento e as ondas no mar quebrando em algum lugar perto dali. Durante aquele momento de silêncio quase podemos ouvir aquilo que os sons externos nos impedem de escutar. 

Se alguém é corajoso o suficiente para abrir os olhos debaixo d'água, vai conseguir enxergar os vultos da areia no fundo do mar e pequenos peixes assustados com a presença humana. A vida marítima acontecendo sem pedir licença, sem fazer questão de acontecer. 

Mas o retorno à superfície se torna inevitável para tomar um ar, um novo fôlego. Um mergulho muitas vezes sufoca, nos mostra que somos reais. E assim, nesse pequeno detalhe, nesse pequeno instante nos damos conta de que a profundidade pode nos levar para Aquilo a que verdadeiramente devemos nos voltar. Somos seres humanos, afinal. 

Nossa humanidade nos faz inteligentes para entendermos que só podemos viver se tivermos uma finalidade. Um ser humano não pode viver sem objetivo, sem algo para servir. Talvez isso possa explicar o crescente número de ansiosos e depressivos, mas não é meu papel diagnosticar os males do século. 

É que nos perdemos em nossas desordens e achamos que somos livres quando na verdade não entendemos nada da vida. Tal qual uma biruta, dançamos conforme o vento e isso nos faz egoístas, nos faz cegos, nos faz intolerantes. 

A vida na superfície é barulhenta, é surda, é fugaz. A hora do mergulho, no entanto, chega para todos e faz com que o silêncio vença, assim como a vida eterna. O mergulho sufoca os que não querem se  aprofundar na ordem da vida, ordena as desordens e nos faz descobrir que há muito mais entre o céu e a terra.  

Calorosos abraços

Thailan de Pauli Jaros

18SET2022


domingo, 31 de julho de 2022

Rosebud

Rosebud foi a última palavra do magnata Charles Foster Kane antes da morte. Enquanto muitos jornais noticiavam o falecimento do controverso protagonista do filme "Cidadão Kane", um grupo de jornalistas decidiu investigar o significado da palavra proferida nos últimos momentos de vida.

Talvez não seja regra, nem mesmo comum, mas a sabedoria popular acredita que as últimas palavras de um homem pode refletir aquilo de mais importante que ele fez em vida. Um homem pode declarar amor a quem ele amou, pedir perdão a quem magoou ou se entregar a quem se entregou por ele. 

É, talvez, por isso que o caso de Kane seja tão emblemático ao longo de duas horas de filme. Mas não é meu objetivo falar da obra em si, considerada por tantos o melhor que o cinema já produziu em muitos anos. 

Quero chamar a atenção à profundidade das relações humanas que tratarei com superficialidade para mostrar a hipocrisia de uma crônica mal escrita. Rosebud pode representar essa profundidade, já que é um segredo que fica escondido ao longo de toda uma vida por um homem solitário e que pretende ser amado sem sequer querer amar.

Quantas vezes nos prendemos em desejos superficiais que passam com o tempo? Quantas vezes não queremos ser amados sem querermos amar? Ah, o amor, tão frágil, esquecido em torno de palavras sentimentalistas, desejos efêmeros e prazeres passageiros.  

O amor não pode ser reduzido a simples sentimentos, prazeres incompletos e objetos insignificantes. O amor é íntegro, é completo, é infinito. O amor preenche e faz com que o homem se entregue completamente ao amado. O amor é sacrifício, é sofrimento, é dor.

Não existe amor onde não há entrega, onde não há dor, onde não há sofrimento. Quando o homem esquece do amor, busca o prazer a qualquer custo e se apaga em um imenso nada, cuja casca é revestida de rancor, tristeza e ódio, torna-se apenas um animal sem alma, incapaz de amar de verdade.

E é por isso que devemos firmar o pé no chão, criar raízes, nos aprofundar. A vida só é bela quando deixamos a superfície e mergulhamos nesse mar profundo que nos faz homens, que nos diferencia dos animais. Não somos feitos apenas de corpo, mas de alma também, sempre e a todo momento devemos nos lembrar disso.

Talvez Rosebud fosse o que Kane tinha de mais profundo, mas não me cabe julgar a vida de um personagem fictício que encontrou na solidão a necessidade de ser amado. Logo eu que não sei o mínimo do que pode ser a justiça. 

Cada um de nós, no silêncio de um quarto, devemos nos perguntar: o que eu tenho de mais profundo? O que eu terei depois da morte? Quais serão as minhas últimas palavras? O que é o meu Rosebud? Será somente um trenó barato ou será uma verdadeira entrega por amor?

Thailan de Pauli Jaros

31JUL2022



quarta-feira, 29 de junho de 2022

O céu de junho


Era uma tarde de sábado, não lembro bem de que ano. Eu devia ter uns sete ou oito anos, andava de bicicleta com meu irmão por algumas poucas ruas da cidade. Ao subirmos uma das ruas nos deparamos com ela interditada, um palco montado e centenas de bandeirinhas coloridas.

Nem preciso dizer ao leitor que era o mês de junho. Foi a primeira vez que vi a preparação para uma festa junina de rua. Hoje me lembro com carinho desse instante e de alguns detalhes da festa que aconteceu naquela fria noite no interior do país. 

Não é que eu seja entusiasta das quadrilhas, danças e da canjica. O que me chama a atenção é a belíssima decoração, as vestimentas, o espetinho, o pinhão e o quentão. 

Quem é que não gosta de se esquentar com um quentão em uma fria noite de junho? Quem é que vai dispensar um espetinho que acabou de sair do fogo? Quem é que vai negar uma paçoca oferecida com carinho?

Mesmo os mais incrédulos insistem em comprar o bolo de Santo Antônio pra ver se arrumam casamento. Mas nunca me esqueço daquela fogueira altíssima queimando naquela noite escura.

Eu olhava as lenhas sendo consumidas pelas chamas que esquentavam os foliões e pensava comigo mesmo que era impossível pular a fogueira, como nos dizia a tradicional canção. E foi naquela noite que eu olhei para o céu estrelado e percebi a imensidão do mundo.

Nós que somos do interior temos o prazer de enxergar muito mais estrelas do que aquelas vistas na cidade. É um jogo de iluminação que atrapalha a luz daquelas que iluminam na completa escuridão. Olhei o céu outras vezes em outros meses, mas o céu de junho me encanta.

Eu olho para o céu e vejo como ele está lindo, olho as estrelas e vejo como elas estão cintilantes, eu olho para mim e vejo como eu posso chegar até lá. Não sei você, mas há algo de diferente no céu de junho que eu não consigo explicar. Talvez seja o frio que nos faz viajar na nossa própria imaginação, talvez seja Deus se fazendo presente nas quermesses das capelas.

Assim passa a metade do ano e o céu de junho continua o mais bonito de todos os meses. Ah, o céu de junho. O céu mais estrelado do ano que mesmo a neblina fica com inveja e quer esconder de todos. 

O céu de junho esquenta o inverno, aquece o coração e nos faz olhar com intensidade para a imensidão da criação. O céu de junho é perfeito e quando a lua passa a clarear o horizonte a certeza é de uma perfeição ainda maior e infinita na nossa verdadeira Pátria. O céu de junho poderia mesmo ser um espelho daquilo que poderemos encontrar no fim de nossa caminhada. 

(*)

Boas vindas ao inverno

Boa sorte ao outono

Até logo a primavera

Vejo em breve o verão

Abraços!

Thailan de Pauli Jaros

29JUN2022

Solenidade de São Pedro e São Paulo


P.S.1. Ainda tenho que escrever sobre os meus balões de dobradura, mas fica para a próxima, talvez ano que vem. 

P.S.2. O bom das festas juninas é que elas continuam no mês de julho, naquilo que se convencionou dizer de festa julina. Vai dizer que o povo brasileiro não é criativo? 

P.S.3. O tal do espetinho conhecido em todas as partes do Brasil é chamado de xixo na minha terra. São as regionalidades que nos fazem brasileiros.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

A neblina do lado de fora


20.06.2022- Escrevo este pequeno rascunho apoiado nas crônicas de Shakespeare que ainda não tive a ousadia de ler. O livro de capa dura em duas línguas foi folheado há poucos minutos em uma tentativa de leitura que não teve sucesso. Mas paciência, a literatura aguarda o tempo passar pela sua simples atemporalidade. O jornal da manhã de hoje já ficou velho, mas a poesia ainda olha para a frente. 

Uma noite mal dormida nos faz refletir sobre um dia mal aproveitado, mas há muito durmo bem e não lembro de nenhuma reflexão nesse sentido. Sorte a minha. Talvez seja sorte mesmo, talvez falta de atenção, ou mesmo privilégio. Quantos são aqueles que não dormem nas frias noites de outono que precedem os dias de inverno.

A neblina já baixa na cidade e faz a noite ficar ainda mais fria e sedutora. O desafio é tentar enxergar a um palmo do próprio nariz. No silêncio da escuridão penso naquele silêncio que deveria ter sido cortado por um ruído e que passou despercebido ao ouvido. Aquele silêncio que muito queria falar, mas que calava por não encontrar a palavra certa. Se é que a palavra certa ainda existe.

Um silêncio frio e ao mesmo tempo tão ensurdecedor que poderia calar os sinos de uma catedral. Um silêncio que mostrou a fatalidade de um momento. Aquele eterno momento que passa e deixa sinais que nunca vão se apagar. Pronto. A quietude foi invadida pelo alto som de um despertador que tinha esquecido de desligar e como em um susto tudo volta à realidade da sala vazia e a neblina do lado de fora. 

Talvez o som abrupto do despertador seja a palavra certa no momento certo. No entanto, alguma frase dita por alguém me parece muito mais certa do que um barulho que nos faz acordar para a realidade. É que às vezes o silêncio fala bem mais.

Pode ser que o inverno não seja tão ruim assim. Pode ser que tudo seja bobagem. Pode ser que ainda tenhamos tudo a descobrir e isso só pode ser fascinante. A neblina baixa, a fumaça branca e a surpresa debaixo daquele poste na rua de madrugada quando nada acontece e os bons estão dormindo. 

O inverno não pode representar a morte daquilo que o verão trazia com alegria. Talvez um descanso para que tudo volte a viver quando a primavera chegar. Uma lareira pode preservar o fogo aceso por um bom tempo e a cigarra já se preparou para que não falte o alimento necessário.

É isso, apesar da confusão ainda é cedo para qualquer conclusão. Ainda é cedo para ligar o aquecedor. As folhas caíram mas nós continuamos tentando nos equilibrar.

Thailan de Pauli Jaros

20JUN2022



sábado, 28 de maio de 2022

De corpo e alma


Os dias já demoram a amanhecer. O sol, assim como este cronista, tem preguiça de levantar cedo. O frio já se manifestou no sul do Brasil e só nos faz esperar por um longo e rigoroso inverno nos próximos meses. Não vou entrar nas intermináveis discussões de preferência das estações. Uns são partidários do inverno, outros do verão e uma galera escolhe a primavera ou o outono.

Eu, que não sei de nada, espero as estações quieto no meu canto reclamando sozinho de cada uma delas. O calor é insuportável, o frio é de rachar, o outono é seco e na primavera florescem as alergias. Certo é o leitor que está achando esse texto pessimista demais.

É que quando comecei a escrever não pensei em um tema específico e o bar da quadra ao lado entoava um pagode que tem sido frequente nas tardes de sábados. Pensei em reclamar da música, mas o clima não saiu da minha cabeça.

Como não tenho uma estação preferida, sigo tentando encontrar pontos positivos em cada uma delas. Já existe partidarismo demais, não é?

Não que eu esteja em cima do muro, é só uma indecisão que me faz refletir a necessidade de um posicionamento nas rodas de conversa ou discussões de bar. Se é que ainda existam discussões de bar porque as músicas intermináveis e ensurdencedoras impedem a sadia conversa entre conhecidos. 

Antes que essa tentativa de crônica comece a ficar confusa tenho que elogiar o belíssimo espetáculo que o sol tem feito todos os dias nessa reta final de outono. Quando chega e quando vai apresenta luzes que nos obrigam a olhar para o alto. Ta aí uma coisa que devemos fazer mais: olhar para o alto, querer as coisas do alto.

Não como um sonho, mas a realidade palpável que foge do horizontal e busca incessantemente o vertical. Afinal, amigos, somos mais alma que corpo. Muitas vezes dizemos que somos de corpo e alma e esquecemos da alma diante do egoísmo do dia-a-dia.

A alma é eterna e deve ser cultivada, cuidada com carinho para que viva. De nada adianta o prazer do corpo se aquilo mata a alma, de nada adianta a saúde do corpo sem a saúde da alma. Ninguém enxerga a lua na escuridão.

A luz que cega os olhos reflete em uma sombra que me segue nas calçadas da cidade, mas até a sombra é boa porque comprova a existência da luz. 

A sombra só existe enquanto ainda há luz. No entanto, para enxergarmos a sombra temos que olhar para traz e assim deixamos de ver a luz. São as nossas escolhas que nos guiam para onde temos que ir. Só depende de nós. 

Que pena, o texto ficou confuso como eu não queria. Talvez da próxima eu consiga esclarecer alguma coisa, enquanto as palavras ainda nos forem permitidas.


Viva a Língua Portuguesa!

Thailan de Pauli Jaros

28MAI2022




sábado, 23 de abril de 2022

Eu vi um unicórnio


O vento batia levemente em meu rosto em uma manhã ensolarada. Eu estava embaixo de uma árvore e formigas das mais variadas espécies caíam em meu braço. Não era uma chuva de insetos como pode ter pensado o nobre leitor, mas algo corriqueiro que acontece quando estamos em contato com a natureza.

Muitas vezes paro para observar os detalhes de algo que passa despercebido durante a vida de muitos. A pintura daquela casa antiga, a luz do outdoor que pisca freneticamente com algum tipo de mau contato ou até mesmo aquele unicórnio que vi passar ao meu lado em uma manhã ensolarada.

Peraí?! Unicórnio? Ok, vou contar a história do começo.

A brisa continuava sensível à minha pele quando virei pacificamente o rosto para o lado esquerdo e vi o que poderia ser um unicórnio. Um cavalo branco majestoso pastava em frente aos meus olhos e o que eu vi era um chifre no meio da cabeça do animal.

Até o final desta crônica o leitor decide se devo ou não me internar em um sanatório. O fato é que pensei muito antes de escrever o texto. Não sabia o que aquela "visão" poderia significar, se a fantasia tinha se tornado realidade ou se era mais um conto para as crianças dormirem.

Pensei em dissertar sobre o crescimento das startups só para mostrar que estou antenado nas novas tecnologias e sei que unicórnio é a empresa que chegou ao faturamento de um bilhão de dólares. Mas isso não seria interessante para o leitor. 

Decidi recorrer à fantasia. Antes de eu continuar a história do animal com um chifre na cabeça vou contar outra anedota. Há meses observo um grande casarão que fica embaixo da janela do meu quarto. A casa é enorme, muito bonita e cuidada. Mas parece que não mora ninguém.

Em alguns dias observo um homem, que pode ser o jardineiro, regando as plantas – lindas flores- e abrindo as janelas para ventilar. Fico inventando desculpas na minha cabeça de algum suposto motivo para que a casa esteja vazia.

Pode ser que os donos não morem na cidade, pode ser que ninguém quer alugar o local porque é assombrado ou – acho que o mais provável- os proprietários trabalham fora e só voltam, curiosamente, quando eu não estou olhando.

Outro dia fiquei observando de minha janela o jardineiro trabalhando incansavelmente até que ele olhou para cima e nossos olhares se cruzaram. Eu virei o rosto e fingi que não o observava. O homem, um senhor de aproximadamente sessenta anos, voltou a trabalhar e ficou por isso mesmo.

Falando em olhar para o lado. Voltemos ao unicórnio. Eu poderia fazer um texto relacionando o animal com a pureza, ou até mesmo com a força. Mas seria muita forçação de barra. Eu vi um cavalo com um chifre na cabeça.

O cavalo era muito bonito, pastava alegremente e estava de lado. Quando ele se virou de frente para mim eu pude concluir que o que eu achava ser um chifre eram, na verdade, as orelhas. Portanto, não havia um unicórnio, era apenas uma miragem.

Não sei se posso ser internado, não sei se devo comprar um óculos. Quantas vezes fazemos algo achando ser uma coisa e na verdade é outra? Muitas, né? No entanto, as coisas são o que são e nossos pontos de vista não interessam muito, afinal.

Nossos olhos ou opiniões nos enganam e a verdade só pode ser absoluta. Bom, o unicórnio não era verdadeiro, mas o cavalo majestoso foi muito simpático. Resolvi ir embora para observar outros detalhes em outro lugar.

(*)

Peço desculpas ao nobre leitor porque faz tempo que não apareço por aqui. A culpa é toda minha, confesso. É que a vida anda tão corrida que escrever acaba ficando para depois. O problema é que esse depois quase nunca chega. Prometo voltar com mais frequência.

Saudosos abraços

Thailan de Pauli Jaros

23ABR2022



domingo, 27 de fevereiro de 2022

Quando o carnaval passar


Fiquei um tempo considerável em frente à tela do computador pensando em como começar esse texto. Muita gente está até agora paralisado em algum lugar pensando em como começar o ano. Enquanto guardávamos a louça do reveillon, o carnaval nos bateu à porta.

(*)

Aqueles que criticam as festas carnavalescas (com alguma razão) aguardam ansiosamente a data para falar que o brasileiro só começa a trabalhar em março. Já os que gostam da festança (com alguma razão) assoviam, nem tão baixinho assim, as marchinhas repetidas há séculos nos bloquinhos inundados de fantasias. 

Sobre a fantasia devo falar em outra crônica. As matinês, já fora de moda, passam com alegria e sorrisos opacos. A marchinha nos fala "tanto riso, oh! quanta alegria, mais de mil palhaços no salão". Afinal, nem sou eu que estou dizendo, são os próprios foliões.

A música também diz que o malandro do Arlequim chora de amor pela Colombina, e que no ano anterior era o tal do Pierrot. A Colombina, coitada, deve ter ficado confusa. Eu também, e certamente o leitor.

Antes de avançarmos no texto, vamos -tentar- explicar os personagens da comédia italiana. Pierrot é o palhaço sentimental, Arlequim o bobo da côrte e a Colombina o epicentro do triângulo amoroso. Como na Quadrilha do Drummont, podemos dizer que Pierrot amava a Colombina, que amava o Arlequim. 

Uma pesquisa mais aprofundada pode fazer-nos concluir quem era o amor do Arlequim, mas a música citada acima afirma que ele chora pelo amor da Colombina, o que faz da tragédia um círculo perfeito.

Não deu pra entender nada, né? Não tem problema, é carnaval. Mas vamos em frente porque o tempo urge e a Sapucaí é grande. O folião mais aplicado não vai nem perder tempo lendo essa crônica, afinal, já está rodando de bloco em bloco nas grandes festas proibidas pelos protocolos de saúde.

Eu passei na frente de uma casa de shows em que uma fila se formava e girava a esquina. Praticamente todas as pessoas usavam alguma fantasia, embora muito curtas para concluírmos que ali havia alguma roupa. Nesse instante eu pensei em como esses sorrisos estariam no dia depois do carnaval. 

Talvez tenha sido um julgamento, talvez uma constatação. O carnaval precede momentos profundos de meditação, retiros e muito silêncio. É um contraste interessante entre as festas da terça-feira e o silêncio da quarta de cinzas. 

A profundidade dos quarenta dias logo após o carnaval encontra a superfície deixada pelos foliões. Já muito banalizado nos últimos anos, o amor apanha em gestos supérfluos, conversas inúteis e atos fúteis. Ah, o amor. Tantas vezes citado, poucas vezes sentido.

O amor definitivamente não vai ser encontrado em uma matinê carnavalesca, para a tristeza dos Arlequins. Ali só se encontram superfícies que transbordam o vazio de algo que não sabem nem o que é. O amor, o verdadeiro, é encontrado no silêncio, no sopro do vento, em uma conversa agradável.

O amor ainda pode ser encontrado nos bosques, nas ruas ou em conversas nos parques onde as horas talvez esqueçam de passar. Para finalizar, antes que eu fale mais bobagens, nossos queridos palhaços mencionados acima ainda têm a chance de dar um sentido para sua vida. 

Nos próximos quarenta dias viveremos tempos que nos possibilitam olharmos para dentro de nós mesmos, não de maneira egoísta. Mas com o único objetivo de sermos melhores, mais humildes, mais humanos. É isso. Felizmente não fomos criados para sermos animais, guiados por instintos primitivos que nos tornam escravos de nossa própria vontade.

Somos capazes de alcançar coisas que nem podemos imaginar, mas para isso temos que ordenar nossas desordens, aperfeiçoar nossas qualidades e arrancar nossos defeitos. Um coração puro é capaz de elevar-se acima de todas as coisas, mas para isso deve fazer-se pequeno aos olhos do mundo.

Por isso, meus grandes amigos, a quem carinhosamente chamo de palhaços, sejamos nós os Arlequins, os Pierrots ou as Colombinas, mas deixemos de nos comportar feito animais. Porque quando o carnaval passar, não é no mundo que vamos encontrar conforto.


Thailan de Pauli Jaros

27FEV2022


P.s. Publico o texto no domingo de forma proposital, porque sei que as festas não acontecem somente na terça. Tudo acaba em samba, é sempre carnaval.