quarta-feira, 19 de maio de 2021

Uma estrada sob nossos pés


O apito da água quase fervendo me avisou que já estava na hora de arrumar o coador, colocar o papel filtro e as quatro colheres de café. Cada detalhe que compõe a cena não pode ficar para trás e para começar o dia os pensamentos organizam a rotina num derradeiro arrastar de pés rumo ao desconhecido.

A água, é claro, não pode ferver para passar o café. Do contrário queimaríamos o pó e - dizem os especialistas- estragaríamos o aroma desse grão tradicional brasileiro. Mas se o poeta diz que café não costuma 'faiá', religiosamente, dia após dia vamos bebendo e começando nossos afazeres animados, como deve ser.

A rotina é estabelecida a partir de nossos deveres e cada um tem o seu. Acordar cedo, tomar café, sair trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, sair do trabalho, chegar em casa e assim até começar um novo dia. Muitas vezes esperamos o extraordinário, algo que se destaque nessa nossa vida, nessa mesmice que se atualiza cada vez que abrimos os olhos.

Mas estamos olhando de maneira errada. Se olharmos um pouquinho para o lado - para qualquer lado- podemos ver que não só o extraordinário se destaca e talvez nem precisamos desse destaque. Podemos transformar nosso cotidiano em algo especial e prestar atenção naquilo que sempre esteve lá. Jesus não viveu durante 30 anos no anonimato servindo filialmente a José e Maria?

Pronto. Cada ação cotidiana deve ser levada até as últimas consequências. Acordar alegremente naquela manhã fria de inverno, fazer e tomar o melhor café já coado na face da terra, sair trabalhar e fazer o melhor cumprindo os deveres que nos são confiados, almoçar agradecendo pela oportunidade do nosso pão de cada dia e voltar para casa com a felicidade que nos é esperada desde a criação do mundo.

Se estamos inseridos neste mundo, temos obrigação de contemplar cada detalhe. De encontrar algo bonito do meio daquele movimento de pessoas. De olhar para a esquina e perceber aquela flor no meio do muro de concreto. Perceber que há vida lá fora e só a realidade salva do transe que parece nos ameaçar a cada segundo. Afinal, se não contemplarmos a vida acontecendo, vamos contemplar o que?

O ordinário se transforma em extraordinário quando passamos a prestar atenção nos detalhes. O extraordinário se faz quando nos deparamos com a imensidão do mar ou daquele arranha-céu, mas nos damos conta de que há uma estrada sob nossos pés. O extraordinário é aguardar a água ferver, esperar o peixe fisgar na isca, respirar fundo e contar até dez.


Vamos com fé. Boa semana!

Thailan de Pauli Jaros

19MAI2021