terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Gerúndio

Andando pelas ruas da cidade, pensando no que poderia pensar, respirando o ar puro das fumaças dos carros e meditando sobre o dia a dia. Parece que o gerúndio veio mesmo para ficar. Veio chegando, como quem não quer nada, foi se estabelecendo na rotina e acabou ficando para não parar com o movimento.

É isso mesmo. A vida vai passando e não há tempo para parar. As coisas vão acontecendo e não tem como voltar atrás. Aquele segundo gasto lendo o primeiro parágrafo desse texto já passou, que venha o próximo.

O gerúndio é perspicaz, fica conosco assim como Deus com os discipúlos de Emaús e só o reconhecemos depois do partir do pão. O gerúndio é o que está acontecendo entre o agora e a hora de nossa morte.

O gerúndio é o relógio contando as horas para finalizar a volta completa e assim começar outra. O gerúndio é a corda do relógio que o permite funcionar mesmo depois de tanto tempo.

Mas mesmo depois de tanto tempo ainda não aprendemos muitas coisas óbvias. A obviedade parece um obstáculo na frente daqueles que preferem viver de ilusão. O gerúndio não pode viver de ilusão, mas isso depende de nós.

Por enquanto continuamos andando, rindo, estudando, dormindo, correndo, escrevendo e tudo o que precisamos é ouvir. Falar menos e ouvir mais. Ouvindo, ouvindo e ouvindo.


Boa semana!

Thailan de Pauli Jaros

23FEV2020

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O besouro verde

Já era madrugada e eu estava no terceiro sono quando acordei com algo grudado no dedo do pé. Era um besouro. Tranquilamente, mas nem tanto assim, tirei o inseto do meu dedo e percebi sua peculiaridade: era um besouro verde.

Dizem por aí que o besouro é o bicho mais forte do mundo, que pode aguentar mais de mil vezes o seu próprio peso. Mas isso não vem ao caso.

Acordo no outro dia de manhã e vou lavar a louça que deixei suja depois do jantar. Olho na pia cheia de pratos e talheres e lá está ele: o besouro verde. Rapidamente dou um jeito de pegá-lo e levo diretamente para a janela.

Termino de lavar a louça e vejo um ponto brilhante pendurado na janela. É o besouro verde. Com um movimento dos dedos jogo ele para baixo. Problema resolvido.

Mais tarde eu saio pra trabalhar e fico o dia inteiro fora. Chego em casa de tarde, vou pegar um livro pra ler e lá está o besouro na estante de livros. Dessa vez deixo ele lá. Pelo menos tenho um besouro intelectual.

No fim da noite vou rezar e o besouro verde está metido grudado na coroa de Nossa Senhora. Não ligo, pelo menos tenho um besouro religioso.

Mas dessa vez jogo ele pela porta. Nunca mais o vejo. O besouro verde ficou pra fora. 

Não tirei foto e muitos duvidam da veracidade dessa história, mas o mais engraçado é que ela é verdadeira.

P.s. Que tenhamos a força e a determinação do besouro verde. Boa semana, faces!

Abraços!

09FEV2021

Thailan de Pauli Jaros


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O abismo e o equilibrista


A corda está esticada, amarrada de uma ponta a outra. Estou sozinho, concentrado, mas uma plateia insiste em me assistir. Todos querem ver o espetáculo, muito provavelmente torcem para a queda, esperam o erro e se surpreendem quando tudo dá certo. 

O dar certo sempre é incerto e quando subo na corda não tenho como saber se chegarei ao fim com o mesmo equilíbrio e concentração que comecei. Mas a esperança me faz olhar para frente e seguir em frente sem me importar com o espetáculo e com a torcida cada vez mais pessimista.

O ponto de equilíbrio é a linha tênue entre a concentração e o momento de bobeira, entre a firmeza e o nervosismo, entre a confiança e a dúvida. Só é permitido o equilíbrio para os sóbrios, que por algum motivo esquecem de olhar para baixo e deixam de enxergar o grande abismo que espera o descuidado.

O equilibrista tem noção do abismo que existe embaixo da corda, mas escolhe olhar para frente e consegue manter a constância durante todo o percurso. Fácil não é, mas a confiança de que no outro lado existe o paraíso é o consolo e o motivo pelo qual se caminha todos os dias.

Mas quando estou em cima da corda bamba também me é permitido contemplar a vista, enxergar o belo e aprender que não preciso ficar pendurado no limiar da queda quando tenho a força da contemplação, do silêncio e da concentração para uma vida bela.

Sim, pode até ser que o abismo logo abaixo me assuste e que por vezes (muitas vezes) me desequilibro e caio, mas na maioria delas uma mão me puxa para cima e me dá outra chance. Outra chance de equilíbrio é sempre bem vinda e não importa a quantidade de quedas, o que realmente importa são os momentos em que volto ao equilíbrio e finalmente chego no fim do percurso.

Se o leitor me entende, podemos dizer que o fim do percurso é só o início ou a consagração de uma bela performance que, aos poucos e com muitas quedas, o equilibrista proporcionou ao público. A vitória do equilibrista é o triunfo de um caminho corajoso e determinado, concentrado e contemplativo, vivo e com vontade de viver.

Nesse momento já não importa o abismo, a torcida aplaude surpreendida com o sucesso do equilibrista. O equilibrista somos nós e a corda bamba é a vida. A bela vida.


Thailan de Pauli Jaros

02FEV2021