quinta-feira, 30 de maio de 2019

O herói que se junta a Esquina



Manhã fria de uma terça-feira comum, daquele fatídico ano de 2017. O clima, as nuvens negras e tristes pareciam refletir meu astral. Levanto cedo, por volta das 7h da manhã, vou para a academia para tentar manter um ritmo e esforço físico para não transparecer o furacão que estava atuando dentro do meu corpo. Chego em casa, almoço, preparo meu material e vou rumo à rodoviária de uma pacata cidadezinha do interior paulista, rumo ao centro maior mais próximo para continuar uma rotina de estudos, para conseguir entrar em uma universidade. No ônibus, onde as angústias e as dúvidas tendem a bater, olho para o meu caderno e uma caneta, e penso: Eu posso escrever? Ah... escrever. Essa palavra de oito letras tem um poder...


Escrevi qualquer coisa. Mas não qualquer palavra aleatória. Escrevi o que minha mente, contatava juntamente as mãos para guiar muito mais que palavras em um papel. Guiava para fora do meu organismo, como uma agua transbordando de um recipiente totalmente cheio, para fora, trazendo um alívio. E isso se repetiu por vários dias daquela cansativa e muitas vezes decepcionante rotina. Haviam dias que eram desabafos, haviam dias que eram histórias inspiradas em quadrinhos que eu tentava montar ao meu gosto. Haviam vezes que eram apenas palavras. Mas palavras são apenas palavras? 

Acredito que não. Palavras tem um poder que só nós, humanos, temos a façanha de poder usar, como um  poder que tanto pode mudar um dia, como também pode estragar. E eu passei a escrever para fugir. Fugir da angústia, da pressão, de toda a confusão na cabeça que aquele 2017, fatídico pelo motivo de, exatos 305 dias, a minha rotina de academia, ônibus, estudar, estudar, ônibus e casa se repetir. E o grande herói deste ano? Foi sem dúvida, a palavra. Não só uma palavra escrita como se reprisou nas viagens de uma hora de ida e uma hora de volta para casa, mas palavras ditas ou ouvidas de minha companheira que na época já estava longe desbravando o Vale do Itajaí, para minha mãe e meu pai que tanto olhavam e pensavam como minha cabeça estava confusa, para minha irmãs que já estavam longe em duas grandes capitais. As palavras salvaram. Salvaram de mim mesmo. Salvaram de dentro para fora.


E venho botar em ação este herói que estava sumido por uns tempos para mim, mas estava sempre por ali. Hora em becos, hora em altos de prédios. Apenas observando quando voltar a ação. E agora ele volta e não volta sozinho. Ele se junta, a outros "salvadores", a outros personagens de muitas história e grandes relatos. Ele se junta aos heróis de Thailan de Paulo Jairos, Higor Leonardo, Allyson Santos e Cícero Goytacaz, em uma nova liga de heróis:


Esquina das Crônicas.


Germano Busato
30MAI19

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Caiu a ficha




O placar final, a linha de chegada, um desafio qualquer. Tantas fichas que já joguei fora, tanto tempo que já perdi. Eu aposto que você também já se sentiu assim. Conforme a gente cresce, perdemos a fé e as razões que antes moviam nossa luta diária. As probabilidades estão contra. Você percebe que foi tudo em vão. Ego, falsidade e soberba. Lutar apenas para ser eternizado na memória daqueles que, na verdade, não gostam de você. Cruéis fichas que a gente perde em jogos de azar e nem se dá conta.
            
Diferente dos números aleatórios sorteados na televisão, algumas coisas a gente consegue controlar. Gosto de pensar que o mundo não me fez perder a essência, só me deixou um pouco mais esperto. Talvez eu esteja errado. Talvez seja normal, em uma sociedade doente, não encontrar motivos para levantar da cama de vez em quando. Tem acontecido com frequência. Certo ou errado acho que estou aprendendo a apostar.
            
Aposto que você está achando que o texto é triste. É aí que você se engana. Nunca é fácil abordar o amadurecimento. Nunca foi tão bom estar à margem de tudo aquilo que antes me angustiava. Também é meio que um desabafo de alguém que agora começa a lutar por si mesmo, pelo menos por enquanto. É hora de fazer as pazes comigo mesmo. Cansado de apostar nos outros. De fazer de tudo pelos outros. Vai ver eu estou sendo meio egoísta. Espero que sim.

Se você ouvisse as vozes que ouço a noite, acharia tudo que eu faço natural. [...] Se você sofresse tanto quanto eu sofro com a solidão, se você soubesse o quanto eu preciso da solidão. Não me pediria para repetir revoltas banais das quais eu já me esqueci.

Respeito, dinheiro, fama, glória, paz interior. Nunca fui de desistir fácil das coisas (nunca serei), mas aprendi que não é feio admitir que, muitas vezes, não vale a pena. Cada um é cada um. Resta saber em qual "um" me encaixo melhor. E você,está apostando suas fichas em que?

Já desisti de ser uma pessoa só
Já desisti de ser uma multidão
Já não tenho todas as fichas na mesa
Agora... jogo algumas no chão.
[...]
Às vezes de bem com a vida
Às vezes de mau humor
Às vezes sem saída
Às vezes seja onde for
Não é sempre
Não é sempre
Como tudo na vida... Nunca é sempre
Engenheiros do Hawaii

Allyson Santos
29MAI19

terça-feira, 28 de maio de 2019

Boa música sempre

Da esquerda para direita: Nando Peters, Paulinho Goulart, Humberto Gessinger, Rafa Bisogno e Felipe Rotta | Foto: divulgação

"Bons fones, se possível. Boa música, sempre!", escreveu Humberto Gessinger em seu blog lá pelos idos de 2011. Oito anos depois eu, simples mortal, tenho um fone de ouvido bom, mas que já está quase arrebentando. Não vou dar o braço a torcer e já providenciei fita adesiva (vulgo durex) para dar uma sobrevida ao frágil objeto. O fone é uma boa metáfora para vida: frágil e importante. Não podemos remendar o fone depois que ele arrebenta, por isso temos que cuidar para que isso não aconteça. A vida é mais ou menos assim. Frágil e importante. Delicada e fugaz.

E é por essa delicadeza que não podemos nos dar ao luxo de a desrespeitarmos. Estamos em uma cristaleira, afinal. Os cristais são frágeis, mas lindos.

Quanto tempo dura um sopro? Um, dois segundos? Talvez menos, né?

Quanto tempo dura uma vida? Um, dois sopros? Talvez menos, né?

Talvez a vida seja muito curta para encontrarmos as respostas de todas as nossas dúvidas. O certo é que o cristal só quebra quando alguém o derruba. O que fazemos com nossos cristais? Como cuidamos deles?

(*)

Há tempos Gessinger já faz a boa música. Compositor, multi-instrumentista e vocalista dos Engenheiros do Hawaii que atualmente faz voo solo esteve em Curitiba com seus dois trios.

Acompanho as músicas do alemão há algum tempo e decorei todas durante todos esses anos. No último sábado estive na capital do Paraná para, mais uma vez, sentir e cantar algumas das mais belas canções do Brasil. Não canso de repetir: "Deus abençoe o País que tem Humberto Gessinger". Desde o início da viagem até Curitiba pensei em escrever algo sobre a cidade, sua organização, problemas e mazelas. Mas durante o show só pensei em enaltecer esse gênio da música brasileira.

O espetáculo foi dividido em duas partes: um trio acústico com viola, baixo e acordeon que me trouxe paz e reflexão. E o power trio que já faz parte da história de Gessinger, unindo o baixo, a guitarra e a bateria. Roquenrou de verdade. Boa música.

Curitiba é introspectiva e por isso gosto muito da cidade. Humberto Gessinger sabe disso e, visivelmente, aproveita o momento para sentir suas próprias canções. O teatro lotado e todos sentados representa um povo que sente, aproveita e conhece a si mesmo. Todos ali estão aproveitando o momento, cantando junto e apreciando a arte. É uma sensação estranha, mas muito bonita. Mais do que as melodias, Gessinger traz reflexões e durante duas horas nos faz pensar sobre a vida, presente, futuro e passado. Poucos fazem isso hoje em dia.


(*)

Eu não gosto de sertanejo universitário e suas adjacências. Tenho muitas críticas ao gênero, aliás. Mas sempre fico meio comovido com acontecimentos como o do dia de hoje. Imagino como deve ser para um fã perder seu ídolo e para uma família perder seu ente. Que Deus receba Gabriel Diniz e os outros mortos no acidente de avião.

Thailan de Pauli Jaros
28MAI2019



quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os mistérios da chave 55



Um bolso furado. As maiores tragédias da humanidade devem ter começado assim. Não encontrava a chave do novo apartamento. Na verdade, está mais para uma quitinete, mas não por humildade ou opção. As finanças haviam apertado depois do divórcio. O que deu para comprar foi um cubículo próximo a Rua XV. Bom lugar para quem quer se esconder da cidade e de si mesmo. Uma escrivaninha, um colchão velho e um guarda-roupa o acompanhavam nas primeiras semanas, além das dívidas e da melancolia. Agora não tinha nem isso. Todas as portas haviam se fechado para aqueles cabelos grisalhos. Ninguém se importava com sua pele fria e seu emprego inútil. Estava sozinho. Ainda teve de gastar com um chaveiro.

Um momento de inocência. As pequenas coisas, os lampejos de alegria são os que nos mantém vivos. Ela voltava da faculdade a pé. Alguém uma vez disse que era bom gastar a sola do sapato para que o mundo não gastasse a alma. Na batida da música independente que tocava em seus fones de ouvido, jogava o molho de chaves de uma mão para outra. Com os olhos fechados, sonhava com uma mentira repetida nos outdoors. Ela sabia disso. Estava feliz. A revolução era em seu coração jovem, com imenso potencial para decepção. Em um dos arremessos, uma das chaves se soltou caprichosamente e encontrou a calçada de uma esquina qualquer. Quando percebeu, era tarde demais para procurá-la. Cedo demais para abrir qualquer porta. Momento exato para rir da própria falta de atenção.

O fato é que não sei como essa chave veio parar comigo. Eu te enrolei tanto nos primeiros parágrafos para não revelar quem é o dono da chave? Sim e não. Mas pense comigo, a chave 55 apareceu nas minhas coisas há algumas semanas e ninguém dos meus amigos sabe de quem é. Sinceramente, eu não sei se quero solucionar o mistério. Imagino uma história diferente do possível dono da chave toda a vez que olho para ela. Chega a ser algo mágico. Às vezes triste, às vezes feliz, mas sempre mágico. As chaves dizem muito sobre as pessoas. Por vezes, tudo.

Por muito tempo eu quis solucionar os mistérios que existem dentro de mim. Os picos de estresse, a necessidade de sumir de vez em quando, o fato de eu não falar muito sobre mim, o rancor que aprendi a guardar com o passar dos anos. São as portas trancadas que fazem de mim quem eu sou. A minha própria chave 55 é que mantém minhas possibilidades infinitas para ser quem eu quiser e não aquilo que os outros esperam.

Mas enfim, se você perdeu uma chave com uma etiqueta “55”, me procure! Estou sempre por aí. Sempre distante, mas sempre por aí.

Allyson Santos
23MAI19

terça-feira, 21 de maio de 2019

Vamo que dá


Tenho a impressão desde sempre de que as redes sociais são meio tóxicas. Parece que todos ali estão de baixo astral e sedentos por um bate boca. Sempre tentei dar mais leveza na minha existência na internet. Por vezes (quase sempre) falho miseravelmente. O negócio é compartilhar imagens de gatinhos, memes engraçados e figurinhas de "bom dia".

Na última semana, entre manifestações políticas, debates sobre o fim de uma série e as decepções do último capítulo da novela das nove, a bola da vez foi a versão brasileira da música de uma grande cantora internacional. A canção, inclusive, foi trilha de um grande filme que foi parar no Oscar. Acabei ouvindo a versão e achei meio tosca, como a unanimidade. Mas para abrir divergência disse que gostei. Não gostei. A onda agora é outra.

Mas os facebutekos da vida não são de todo ruins, acho até que algumas pessoas são legais. Na verdade eu é que estou meio ranzinza nos últimos dias. Cada um com seus problemas. A onda agora é outra. Se Martinho da Vila diz que não aguenta mais cantar que "a vida vai melhorar", eu ainda continuo esperançoso e acrescento: Vamo que dá!

Sempre que você se sentir meio pra baixo, achar que nada faz sentido e que o mundo não te ouve, repita o mantra. Sempre que acreditar que ninguém se importa e que o problema não se resolverá, repita o mantra. Sempre que o mar estiver de ressaca e você não aguentar mais beber, repita o mantra. Sempre que sentir que todos estão surdos no meio da gritaria, grite o mantra. Sempre que ninguém te der atenção e você não encontrar um caminho para o que procura, grite mais alto o mantra.

Quando parecer que o mundo está diferente, quando você sentir que o natal mudou e que você também não é o mesmo, repita o mantra. Às vezes é necessário passar pelas pedras no meio do caminho, afinal, só há esse caminho e não há nada que possamos fazer.

Vamo que dá!
Thailan de Pauli Jaros
21MAI2019

(*)

"Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo." - Ariano Suassuna

(*)

Canta Canta, Minha Gente

Canta Canta, minha Gente.
Deixa a tristeza pra lá.
Canta forte, canta alto,
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.

Cantem o samba de roda,
O samba-canção e o samba rasgado.
Cantem o samba de breque,
O samba moderno e o samba quadrado.

Cantem ciranda, o frevo,
O coco, maxixe, baião e xaxado,
Mas não cantem essa moça bonita,
Porque ela está com o marido do lado.

Canta Canta, minha gente.
Deixa a tristeza pra lá.
Canta forte, canta alto,
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Mas a vida vai melhorar.
A vida vai melhorar.

Quem canta seus males espanta
Lá em cima do morro
Ou sambando no asfalto.
Eu canto o samba-enredo,
Um sambinha lento e um partido alto.

Há muito tempo não ouço
O tal do samba sincopado.
Só não dá pra cantar mesmo
É vendo o sol nascer quadrado.

Canta Canta, minha gente.
Deixa a tristeza pra lá.
Canta forte, canta alto,
Que a vida vai melhorar.

Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Mas eu disse: Que vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Ora se vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.
Mas será que vai melhorar?
Que a vida vai melhorar.
Eu já vou é me mandar.
Que a vida vai melhorar.
Que a vida vai melhorar.

Martinho da Vila

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Efeito Borboleta

Foto: Vinícius Santos
           

              Era um fim de tarde mais conturbado que o normal, se é que existem tardes normais. Eu tinha dois treinos de futsal. O primeiro às 18h e o segundo as 21h30. Se quiserem pensar que sou um bom atleta, ótimo. Eu evitaria o adjetivo, afinal, fazer algo várias vezes não te torna necessariamente bom. Saí de casa com pressa. O relógio me atrasava.

            Estacionei o carro duas quadras para baixo do ginásio. Durante a caminhada, lembrei que precisava ligar para o pai, já que não tinha avisado ninguém dos meus compromissos com a várzea. Tentativa e erro. Vasculhei a mala e os bolsos. Nada do celular. E olha que, assim como você, nunca saio de casa sem o aparelho, seja por vício ou necessidade. Segue o baile.

Ao fim do primeiro treino, tive que mudar a ideia original. Voltar para casa não estava nos planos, já que poderia muito bem ter participado da resenha esportiva enquanto o tempo passava. Mesmo exausto, mantive fixa a ideia de marcar presença no segundo treino. No período em que comia uma pizza requintada, encontrei o celular e prometi carona para cinco sujeitos. Como caberia no carro?  Pergunta que faço até hoje.

Enquanto recuperava as energias, começou uma chuva torrencial. O mundo caía justamente naquele horário, após um dia nublado e seco. O relógio na parede batia 21h, aproximadamente. Quando abro a porta do carro, sinto uma agonia, um aperto incomum próximo ao lado esquerdo do peito. Já havia dirigido incontáveis vezes com o tempo ruim, no entanto, algo estava errado naquela noite.

Comecei a abrir o portão eletrônico. Segundos depois, ouço da janela gritos desesperados de minha irmã e imediatamente paro o carro e travo o controle. Olho pelo retrovisor e vejo meu cachorro preso entre as barras de ferro do portão. Sempre que chove, ele se assusta com as trovoadas e se esconde. Dessa vez, ele tentava escapar do perigo por entre as grades. Saio do carro, deixando a porta aberta na chuva, e corro em direção a ela para resgatá-lo.

Depois de cerca de trinta minutos de exaustão, ele próprio se contorceu (de um jeito que só o cachorro conseguiria) e voltou correndo para a casinha. Eu estava encharcado e havia perdido o horário do treino, sem mencionar a imensa justificativa ao pessoal da carona, que teve de apelar para o Uber.

O bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? Foi o que um meteorologista se questionou, ao estudar aspectos da teoria do caos. Basicamente, a análise de Edward Lorenz consistia em observar como as pequenas mudanças podem afetar diretamente as consequências e o destino dos grandes sistemas. Mais ou menos o que aconteceu na semana passada.

Se eu tivesse saído um pouco antes rumo ao primeiro treino. Se eu lembrasse de pegar o celular. Se não chovesse naquele exato instante. Se eu não hesitasse ao entrar no carro. Se meu cachorro não ficasse preso. Se eu me atrasasse um pouco para voltar para casa. Tudo seria diferente. No fim das contas, o bater de asas de uma borboleta foi além do acaso.

Allyson Santos
13MAI19

terça-feira, 7 de maio de 2019

Aquele do cartão de crédito


Eu voltava pra casa conversando com o motorista do uber sobre a facilidade que os aplicativos de serviço nos trouxeram. É fato que ficamos mal acostumados com todos esses privilégios que somos obrigados - por nós mesmos- a consumir. Por dez reais a menos compramos uma pizza no dia em que comeríamos pão com queijo, e assim vamos gastando nosso pouco dinheiro. Mas não era essa a história que queria contar.

Em 2016 fui ao show do Oswaldo Montenegro com minha madrinha, seu filho e meu irmão. A apresentação era em Curitiba e morávamos a duas horas da capital. Combinamos de começar a viagem bem cedo, parar tomar café no caminho e chegar em Curitiba ainda antes do almoço.

Tudo saiu conforme o combinado, exceto pela exposição de carros antigos que acontecia na cidade onde paramos para o café. Como tínhamos tempo aproveitamos para voltar ao passado com as kombis e os passates em exposição. Finalmente chegamos em Curitiba e fomos direto até o local do show para traçarmos uma rota, já que voltaríamos mais tarde.

Entre um papo e outro fomos almoçar no shopping, afinal ninguém é de ferro. Minha tia entrou numa dessas lojas de departamento para fazer algumas compras e as horas foram passando, passando, passando. Nosso roteiro atrasou porque ela caiu no papo do vendedor e resolveu fazer o cartão da loja. "É rapidinho", disse sorridente o funcionário. Aquele sorriso de quem sabe que está enganando mais um cliente. No final das contas conseguimos chegar a tempo no teatro e assistimos ao belíssimo show do artista.

Mas eu lembrei dessa história quando, três anos depois, fui ao shopping comprar o presente de aniversário de meu pai. Resolvi fazer o cartão da loja, que prometia dez porcento de desconto na primeira compra. Eu, na minha ingenuidade, achei que era um cartão de fidelidade e fui submetido a milhões de perguntas.

- "Você tem filho?"- "Não", - "Estado civil?" - "Solteiro", - "Escolaridade?" - "Superior incompleto", - "Trabalha com o quê?" - "Não trabalho, estudo", - "Ah! Então vou colocar que você é autônomo" - "Oi?". Nesse momento percebi que não era um cartão fidelidade e já queria voltar atrás, mas decidi continuar para ver onde aquilo ia chegar. - "Vou colocar que você trabalha com vendas há dois anos". Aceitei com a consciência pesada, algo estava errado, mas a moça era simpática. Então ela tirou uma foto do meu rosto, digitalizou meus documentos e pediu para eu esperar porque o pessoal da sede da empresa iria me ligar.

Atendi a ligação e uma mulher com sotaque nordestino avisou que estava entrando em contato para confirmar alguns dados. Percebi que era o padrão da loja. Confirmei meu nome, idade, estado civil, escolaridade. Foi então que ela perguntou qual era o meu trabalho. Hesitei e respondi: "autônomo". E ela: "tudo bem, mas trabalha com quê?". Pensei muito mas respondi novamente: "Com vendas". Quando eu achava que o interrogatório tinha terminado ela me vem com essa: "Que tipo de vendas?", a vendedora na minha frente gesticulava algo na camiseta, rapidamente respondi: "Vendo roupas, essas coisas". A mulher era insistente no telefone: "há quanto tempo você vende roupas?", a moça na minha frente fazia o número dois com os dedos e eu reticente na resposta: "uns dois anos". A moça desligou e pediu para eu aguardar na loja.

Depois de alguns instantes de agonia a atendente da loja me avisou que tinham negado o meu cartão. Perdi o desconto mas ganhei a minha dignidade com um leve sorriso de alívio que saiu do meu rosto outrora preocupado. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria uma coisa dessas.

Mas, entretanto, todavia, voltei ao shopping na semana passada para comprar outro presente em outra loja e o vendedor veio todo feliz explicando as promoções e vantagens que eu teria caso fizesse o cartão de fidelidade. Cá estou eu com o cartão de uma loja de calçado que, provavelmente, nunca mais irei voltar.

Thailan de Pauli Jaros
07MAI2019