terça-feira, 24 de setembro de 2019

Aquele cabelo branco


A gatinha não parava de miar, parecia estar com fome. Pulou do sofá e foi direto ao pote de ração. Levantei com certa preguiça e enchi a cumbuca. Ela sente falta do seu companheiro, o gato - não sei o motivo, mas nunca demos nome, sempre foi gato- que sumiu há algumas semanas.

Quando voltei para o sofá, passei em frente ao espelho e vi algo estranho. Aquele bendito cabelo branco. Não é possível que um jovem de 21 anos tenha cabelo branco. Um jovem não pensa em ter cabelos brancos. Não pensa em envelhecer.

"Jovens, envelheçam depressa", foi o conselho dado por Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico. Um conselho contundente e autoexplicativo. Um tapa na cara daqueles que querem mudar o mundo mas não conseguem organizar a própria vida, ou, arrumar a própria cama. Querem dar pitaco em política externa mas ganham mesada dos pais sem, sequer, lavar uma louça.

As pessoas fogem da velhice como o diabo da cruz. São os cremes, as plásticas, as academias em cada esquina e as opiniões infundadas. Ninguém tem o menor interesse em amadurecer pois acreditam que já são maduros o suficiente. Todos já têm opinião. Todos já sabem de tudo. Todos têm certezas. São todos estrelas, parafraseando Raul Seixas, e poucas constelações.

O mesmo jovem que falta aula para discursar sobre o clima e para protestar contra não se sabe o quê sofre com a solidão. Mas não qualquer solidão, aquela mais sofrida, a pior delas. Quando o sujeito é rodeado de pessoas, frequenta festas toda semana, conversa com gente de todos os tipos, finge suportar e aceitar todas as diferenças e quando percebe está sozinho. Solitário no meio de uma festa, no discurso do protesto ou no escuro de um cinema.

É que deixar de ouvir o que os outros têm a dizer e só falar pode nos deixar sozinhos. Deixar de aceitar normas morais, conservar coisas transcedentais e fugir para momentos fugazes que passam num piscar de olhos é pedir para ficar solitário. Acreditar que está no topo do mundo e na crista da onda pode deixar o tombo maior e mais dolorido. O chão é a vida real. Sempre foi a vida real.

E sem conseguir aceitar o sofrimento da solidão, sem suportar a mínima dor, o sujeito recorre à respostas infundadas e explicações rasas de qualquer niilista e/ou correntes de pensamentos tortos e difusos. Também acredita piamente em qualquer "coach" por aí. "Tudo no meu ritmo"- dizem- "que é diferente dos demais". Pode até ser, mas qual é o seu ritmo? Toma cuidado para não destoar da música.

Essa síndrome de Peter Pan já é famosa, mas o que o jovem terá no futuro que realmente valha a pena? Que realmente importará? Qual a vida que vale a pena ser vivida? Onde está o mundo real? Com certeza não nessas bolhas de intolerantes insuportáveis.

Criança precisa de tutela e adulto precisa de responsabilidade. A vida real é assim e sempre será. Nenhuma necessidade de autoafirmação e sensação de pertencimento pode mudar isso.

Pensei nisso por um momento quando encontrei o fio de cabelo branco. Mas o devaneio sumiu quando olhei aquele fio em meio ao barulho da televisão e as luzes acesas. Pensamentos desnecessários pois me dei conta de que aquele fio de cabelo era o que sobrou do pelo branco do gato sumido, que grudou na almofada onde me deitei.

Cresçam, sejam responsáveis
Thailan de Pauli Jaros
24SET2019

Última foto com o gato antes de ele sumir

sábado, 14 de setembro de 2019

A Ilha dos Sonhos

Eu vejo o mar. Eu vejo os movimentos das ondas, e lá no fundo vejo a vida litorânea tão sonhada por muitos. Vejo uma cidade histórica, que viveu desde de muito antes da chegada de Vasco da Gama, passou pela colonização, independência, o Império e a República. Eu vejo uma cidade que muito se tornou o sonho de várias partes, de pessoas de todo o país (inclusive o meu) e nela, o status de ser um dos auges da vida. Mas ao adentrar a fundo na Ilha de Florianópolis, eu vejo outros tipos de sonhos. Eu vi pessoas na beira do mar caminhando, vi pessoas com feições que a vida passava rápido, e logo corriam para alcançar seus destinos. Eu vi sonhos destruídos. Eu vi pessoas que durante o dia, em alguns  pontos da ilha buscavam um recomeço. Seja pela arte da rua, seja pela misericórdia do outro, ou seja no mais profundo que um ser pode chegar. Eu vi pessoas procurando seu sonho em um lixo. 
Sonhos são muito mais que o ato de uma movimentação de imagens enquanto nossos músculos relaxam, e nós dormimos. Sonhos são objetivos. São ascensões na vida, são motivos pelos quais eu, você, e qualquer outro nesta grande bola flutuante no espaço vivemos. Mas sonhos também são a destruição. São o nosso fim. E quando esses sonhos destroem, corroem por dentro, nos resta apenas viver, sobreviver. E a ilustre capital de Santa Catarina que nomeia um marechal vitorioso dos períodos ainda infantis da República, confirma: Ela é, sem dúvida, a Ilha dos sonhos. Lá vivem muitos sonhos. Existe uma sociedade dos sonhos. Sejam eles os motivos de viver, ou os motivos de desistir. Eu vi na Ilha dos sonhos uma multidão desses mesmos. Conheci vários tipos, conversei, senti. Vi o meu próprio se esvair pelas ruas, chegar ao mar, perambular pela cidade flutuante do Atlântico. Talvez o meu sonho, tenha sido abraçado, e ainda esteja lá. Mas ela, a Ilha, seria capaz de amadurecer, crescer e alimentar meu sonho que lá tenha ficado, ou ele apenas agora caminha sem motivo, apenas sobrevivendo? 
Talvez essa questão seja um dos maiores poderes da Ilha dos sonhos.
Florianópolis, SC. Foto: Germano Busato

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pagliacci



- Como tem passado? - Perguntou o médico.

- Estou bem sim. Estou tranquilo... - Respondeu o homem sem qualquer ânimo na voz. Como se nem ele acreditasse no que havia dito. Talvez não fosse capaz.

- Tem conseguido “alargar o pavio” nos últimos dias? – pergunta típica que os doutores fazem para tentar criar um ambiente de informalidade. Quase sempre sem sucesso.

- Bom, eu tento. Mas no meu emprego nem sempre isso é possível.

O tom de voz sugeria uma crise pânico, ansiedade, ira ou depressão. Não pude distinguir bem por traz da cortina que nos separava. Como se tratava de uma sessão de acupuntura, não foi difícil perceber que o homem estava apostando ali, suas últimas fichas.

- Imagino. Deve existir muita má fé no mundo judiciário. – disse o médico, que aparentemente não estava sequer ouvindo.

- Só o que existe é má fé. Todos os dias. – retrucou o paciente - Não me surpreenderia em nada caso um dia descubram que nosso ex-presidente é inocente. Que toda a operação está, de fato, comprometida. Que não podemos confiar em nada. Acreditar em ninguém. É uma das coisas que me tiram o sono.  

- Mas não tem se entregado. Né?

- Tem sido difícil com os problemas em casa. Tenho me sentido sozinho. Muitos pensamentos negativos.

- Mais problemas?

- Acho que a acupuntura tem ajudado com o stress, mas é só a ponta do iceberg. Minha esposa me deixou. Não vejo meus filhos há quase um mês...

Não pude acompanhar o restante da conversa. Meu tempo com as agulhas no rosto havia acabado. A assistente já tinha ligado a música japonesa aleatória, que no fim das contas só me deixa mais nervoso com os choques elétricos. Minutos se passaram. O médico atravessou a cortina que separava as duas camas e veio até mim.

- Os movimentos do rosto voltaram depressa. Você foi o meu paciente que evoluiu mais rápido, sem dúvida! Está se sentindo bem?

- Ah doutor... quer mesmo saber?


“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”
Rorschach
Watchmen – Alan Moore
Allyson Santos
13SET19