quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Somos nós que complicamos

Era um dia normal, o sol estava forte, daqueles que derretem o cérebro em alguns minutos. As ruas estavam cheias de carros e gente para todo o lado. Umas iam e outras voltavam. Me perguntava para onde estavam indo e de onde voltavam. Qual era o caminho que faziam e para onde queriam chegar?

No meio do caminho tinha um girassol. Não lembro bem onde ele estava. Nem sequer tenho certeza de que todos o viam. Aquele pequeno girassol acompanhava meus passos ao mesmo tempo em que refletia a luz do sol.

Era uma flor - uns dizem que não- que apontava o caminho. Se a escuridão é a ausência de luz, o dia iluminado é sua plenitude. O girassol me mostrava algo que há tempos eu insistia em não ver. A velha história da luz no fim do túnel, algo que o sol toca nos confins de um oceano, aquilo que pode encontrar alguém que estava perdido.

Posso até tentar ser mais claro, mas a confusão que fiz com as metáforas não pode ser explicada. "Ufa" talvez tenha sido a palavra que resumiu o fim de ano de muitas pessoas. Afinal, esse é o momento de olhar pelo retrovisor e procurar- nem que seja no fundo da alma- algo que possa ter feito sentido durante o ano.

Os anos passam e a história se repete. Sempre esperamos demais de um futuro que não sabemos ao certo se existirá. Mesmo tendo aprendido na oração que o mundo é um vale de lágrimas, procuramos nele nossas consolações. Em vão, é claro.

No fim das contas tanta coisa faz sentido. No entanto, tanta gente está perdida procurando por algo que não sabe bem o que é, tentando completar um vazio que aparece de vez em quando e torna tudo meio insuportável. A cabeça dura impede de ver aquilo que está embaixo do próprio nariz.

Perdemos tempo demais pensando no tal amor próprio, achando que somos completos e que tudo anda bem. A verdade é que estamos à deriva em um mar agitado no meio do nada. Nosso egoísmo disfarçado de amor nos impede de amar. Quantas mentiras não insistimos em acreditar? Quantas verdades nós negamos por capricho?

Precisamos entender que não podemos ser completos quando negamos a simplicidade das coisas. Já ouvimos milhões de vezes que tudo é muito simples, somos nós que complicamos. Somos nós que complicamos. 

A simplicidade é esquecer de nossa vontade, é estar disposto a fazer algo pelos outros, é deixar de reclamar, arrancar as mesquinharias do coração. Isso é tão difícil, né?! É óbvio que não conseguimos sozinhos, precisamos de ajuda.

E na retrospectiva do ano talvez as incertezas sejam tantas, as reclamações infinitas, que nos perdemos nesse emaranhado de confusões, assim como esse rascunho que eu insisto em chamar de crônica. 

O caminho tem curvas, é estreito e fácil de se perder. Mas a bússola sempre pode nos dar o norte para chegarmos à verdade. A vocação dela é nos mostrar o norte, mesmo quando insistimos em ir para o sul. Só há um caminho para a Vida e isso você pode me entender. Não a vida efêmera, líquida, vazia, sem conteúdo. A verdadeira, a eterna, a de alegria.

E assim eu volto ao girassol que me acompanhou durante todo o ano que passou. Muitas vezes eu não consegui enxergá-lo, algumas vezes eu fui o girassol para alguém, em outras ele próprio me mostrou o caminho. O que importa é que nunca nos perderemos se seguirmos a luz, assim como o girassol.

O pequeno girassol que aponta para a luz e nos faz refletir para o que é verdadeiro e eterno. Sejamos esse girassol no dia de alguém, na vida de alguém.


Feliz ano novo e que em 2022 possamos encontrar diariamente o nosso caminho para a Vida Eterna!

Thailan de Pauli Jaros

30DEZ2021

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A ceia de Natal e a virtude da paciência

Para algumas pessoas as festas de Natal começam nos primeiros dias de novembro. As lojas e mercados já decoram os ambientes no fim de outubro. Então são cada vez mais comuns as confraternizações entre amigos, as festas “da firma”, os panetones nos cantos das salas.

Não costumo esconder que sou um exímio amante dessa época natalina, por todos os motivos que não preciso explicar. Por isso tenho a ousadia de contar uma das minhas histórias de Natal.

Era o fim de 2020, primeiro ano da pandemia. Decidi com amigos fazer uma confraternização de fim de ano. Estávamos em três pessoas, sorteamos um amigo secreto para economizar em presentes e decidimos fazer uma janta. À princípio pediríamos uma pizza, como sempre.

Quando nos reunímos, normalmente jogamos os famosos jogos de tabuleiros como Monopoly, War ou Detetive. Enquanto estamos competindo, a pizza chega e tudo parece ficar completo.

Era por volta das oito da noite quando resolvemos ir ao mercado comprar guloseimas. Eis que no fundo de um freezer estava aquele chester que parecia delicioso. Em um momento de bobeira, quando as rápidas decisões certamente são um erro, compramos o chester.

É aí que essa história de Natal começa. Chegamos em casa. Abrimos o chester congelado e fomos ler as instruções para assa-lo. Eu já devo ter mencionado que nunca tínhamos assado um frango.

Acontece que dentro da ave tinha um pacote com os miúdos, aqueles pedaços que o pessoal diz que gosta mas sempre sobram. Como vamos assar com um plástico dentro? 

Agora o leitor deve imaginar aquele episódio em que o Mr Bean perde o relógio dentro do peru de Natal. Foi o que aconteceu. Não, não perdemos o relógio dentro do chester, mas só porque não tínhamos um relógio. Depois de tentativas frustradas, o frango passou por um procedimento cirúrgico e retiramos o material.

Colocamos para assar devia ser quase dez da noite. Sorte a nossa que tínhamos comprado amendoins para “enganar o estômago”.

Foi uma noite tipicamente natalina. Conversamos, rimos e exercitamos a virtude da paciência. A gente até reclama na hora, mas Ariano Suassuna já dizia que tudo o que é ruim de passar é bom de contar. Cá estou eu, compartilhando essa história de imprudência, falta de planejamento e um pouco de irritação.

O fato virou história e decidimos manter a tradição. Não dos atrasos, mas da festa natalina. Nos reunimos novamente neste ano. Dessa vez estávamos em cinco pessoas e planejamos tudo: o amigo secreto, o cardápio e os detalhes decorativos. 

Meus amigos foram ao mercado ainda de manhã, compraram um peru, bebidas e ingredientes para uma tábua de frios. Quando cheguei na festa, a tábua de frios já estava pronta e muito bonita (viu, Dener, coloquei esse detalhe no texto) e o peru já estava no forno há algum tempo.

Acho que era por volta das oito da noite resolvemos revelar o amigo secreto depois de ter comido alguns pedaços de queijo e salame. Após algumas histórias e risadas comuns para esse tipo de evento, fomos ver como estava o peru.

Coloquei aquele ponto final ali só para dar uma pausa dramática. O leitor já deve estar pensando que algo saiu errado, que o peru queimou, etc. Devo dizer que esse achismo está correto. Algumas horas passaram desde o início do assamento quando descobrimos que o forno não tinha sido ligado (sim, era um forno elétrico).

Nosso infortúnio aconteceu pelo segundo ano consecutivo e virou tradição, infelizmente. Mas é isso mesmo. Afinal, isso é a vida acontecendo, a vida real. Nada mais justo do que exercitarmos as virtudes, principalmente nesta época do ano.

Colocamos para assar, fizemos mais uma tábua de frios e jogamos Detetive. Nesse improviso quase comemos a sobremesa - um pavê que rendeu as piadas tradicionais - antes da janta, mas aguentamos a espera. 

Só para finalizar, cito uma frase do Chesterton que me fez pensar na paciência como uma das grandes virtudes nesses tempos voláteis: "Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder". Certamente naquela noite o tempo não foi perdido.

(*)

Talvez eu volte por aqui ainda neste ano com reflexões sobre o ano que passou e as metas para o ano que vem...


Um feliz e Santo Natal para todos nós

Grande abraço!

Thailan de Pauli Jaros

22DEZ2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Agora e a hora da morte


O dicionário on-line me diz que "tragédia" pode ser caracterizada como um acontecimento funesto, terrível, uma desgraça. O dicionário também fala das tragédias teatrais gregas, dos personagens heroicos que têm o objetivo de suscitar o terror e a piedade.

No popular, as tragédias acontecem todos os dias e em todos os lugares. Tragédia é perder um pai após um assalto na esquina. Tragédia pode ser a morte de um filho, contrariando as leis da própria natureza. Tragédia são as enchentes, os temporais e os incêndios que levam destruição onde passam. Tragédia é o avião que cai com o artista do momento, a criança que não chega nem a nascer.

Mas tudo isso é permitido para que saibamos onde estamos e para onde vamos. É permitido para pararmos por um minuto e refletir nossos atos e nossas omissões. Tantas pessoas não chegam ao fim do dia, tantas não acordam para tomar café.

Mas é que temos tantas preocupações, tantos problemas, tantas murmurações. A todo momento estamos preocupados com o que iremos fazer, ocupamos nossas vidas com problemas mesquinhos e passamos dias inteiros reclamando dos imprevistos, de coisas ou de pessoas.

Estamos preocupados com o trabalho, com a saúde, com as contas que temos que pagar. Nos preocupamos com tudo, menos com aquilo que importa verdadeiramente. Simplesmente nos esquecemos que só existem dois momentos na vida: o agora e a hora de nossa morte.

Como estamos vivento neste momento? O que fazemos pelos outros? Estamos preparados para a morte?

Dia após dia vamos vivendo, cheio de preocupações terrenas, prazeres momentâneos, festas extravagantes, com o coração aflito sem nem ao menos saber o motivo. Temos medo de doenças, nos preocupamos com nossa segurança e com nossas carreiras.

Só que esse mundo passa e os problemas terrenos não importarão quando dermos de cara com a morte. Nesse momento- pelo qual todos passaremos- quantos de nós estaremos prontos? Por que temos medo de doenças e não tememos perder o céu? E a salvação de nossa alma não interessa?

No fim das contas não é melhor queimar do que apagar-se aos poucos. É peciso vigilância, é preciso consumir-se por inteiro lentamente no serviço aos outros. É preciso estar atento com as necessidades do próximo. Só quando gastamos todo o nosso tempo pensando em ajudar os outros, esquecemos nossas próprias mesquinharias, nossa própria miséria, nossas próprias tragédias.

Não estamos com essa bola toda para julgar os demais, o que aquele um pensa, o que o outro faz. Nossas faltas só podem ser perdoadas pela misericórdia. Que possamos medir com a mesma régua.

Estejamos vigilantes a todo momento e não deixemos o exame de consciência para a hora de nossa morte. Talvez seja tarde demais! Vamos nos preocupar com Aquele que realmente importa!


Thailan de Pauli Jaros

09NOV2021

sábado, 30 de outubro de 2021

Toda realidade...


Oito horas e trinta e um minutos de uma quinta-feira de setembro, eu atravessava a rua movimentada quando me deparei com um caminhão que levava em cima do para-brisa uma daquelas placas de led com dizeres de auto-ajuda. 

Há tempos que os para-choques dos caminhões receberam uma companheira, a placa de led, que pisca freneticamente nessas madrugadas das rodovias brasileiras. Algumas levam o nome do motorista, outras o apelido, outras vão desenhando palavras com significados afetivos ou frases motivacionais.

Tudo muito bonito não fosse a impossibilidade de leitura com o veículo em movimento. Parei para pensar sobre isso e por um momento tentei fazer as contas da velocidade média dos viajantes, aqueles que deveriam enxergar e tentar ler os dizeres motivacionais.

Não consegui chegar a uma conclusão por conta da minha parca matemática. Mas pelas minhas contas de boteco - aquelas feitas no guardanapo no fim de uma noite sem fim- o motorista do carro na contramão não consegue ler nem duas palavras.  

Ok. Eu consegui ler duas palavras. No caminhão que eu encontrei, a frase navegante dizia "toda realidade...". Pelo menos essas foram as palavras que eu consegui ler e que me despertaram uma curiosidade de pelo menos um mês. É verdade que toda realidade importa, faz sentido e qualquer outra  palavra que possa se encaixar aqui...

O leitor pode não me compreender, mas vamos assumir que a curiosidade em saber o restante da frase é uma realidade para muitas pessoas. Pelo menos para aqueles que tentam prestar atenção na realidade a sua volta.

É que muitas vezes os detalhes da vida passam batido quando caminhamos rumo aos nossos objetivos. Pense bem, fazemos o mesmo caminho todos os dias, mas todos os dias as pessoas que passam por nós são diferentes, a folha da árvore da esquina está levemente inclinada à direita, o vento levou a sujeira para o outro lado da rua e o lixo jogado na noite anterior já foi varrido.

Não é todo dia que eu encontro um caminhão com um led, ou uma ambulância desesperada em chegar logo no hospital, ou um homem ajudando a esposa grávida a subir as escadas, ou alguém na esquina pedindo dinheiro para poder matar a fome.

Também não é todo dia que eu presto atenção nas coisas pequenas que encontro. Me falta a atenção necessária ao olhar para os dois lados quando atravesso a rua, ao pisar desgraçadamente no presente que um cachorro deixou na calçada no dia anterior ou até mesmo ao descer um degrau que eu tinha certeza que não existia.

Toda realidade é um pouco disso e um pouco daquilo. Cada um vivendo sua vida, seu detalhe e sua circunstância. De repente alguém consigue enxergar a frase inteira do led do caminhão quando o trânsito parar porque a cidade é mal planejada.

Mas no horário de pico o motorista não presta muita atenção em frases motivacionais, já que a pressa de chegar em casa é inimiga da calma e do silêncio necessário para apreciar toda realidade que um dia deve ter sido sonhada.

Tomei a liberdade de pesquisar a frase que não saiu da minha cabeça nos últimos dias e concluí que parece ser uma frase comum entre os caminhoneiros. Ela termina de uma maneira que eu não esperava. Toda realidade já foi um sonho. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, mas não esperava outra conclusão.

(*)

Quando era pequeno custei a entender porquê estava ao contrário a palavra "ambulância" na frente das ambulâncias. Não entendia a ideia do espelhamento ser ao contrário. Hoje tantas coisas não entendo, mas sei que com o tempo tudo vai ficando mais claro.

Tudo bem se o leitor for pesquisar uma foto de uma ambulância para ver o que está escrito ao contrário. Portanto, me antecipei e registro aqui que a maioria tem os dizeres "SAMU 192" e a palavra "AMBULÂNCIA" escritos de forma espelhada para facilitar o motorista da frente de enxergar e dar lugar para que os socorristas possam salvar mais vidas.

(*)

Fraternos abraços!

Thailan de Pauli Jaros

30OUT2021

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Falhas na comunicação

A falta de comunicação talvez seja uma das maiores aflições do mundo. As incertezas de que a mensagem pode chegar ou não ao receptor, o meio de levar o recado ao seu destino e quem será atingido pela próxima campanha são discussões quase que intermináveis com inúmeras soluções.

As teorias são muitas. Uns estudam a comunicação de massa, outros direcionam o público-alvo e outros inventam hipóteses das mais variadas somente com o objetivo de alcançar as pessoas. Do conteúdo da mensagem talvez ninguém se lembre. 

No entanto, o problema da falta de comunicação está longe de ser resolvido. Por vezes as falhas estão nos meios, que sendo as mensagens, prejudicam os interlocutores, outras vezes o receptor não quer ouvir e ainda pode ser que a falha seja da tal tecnologia. Mas a falha humana é a principal, não é?

Coincidentemente dia desses uma grande falha deixou fora do ar algumas redes sociais por cerca de seis horas. Foram inúmeras interações humanas que ficaram em modo de espera por aqueles - infinitos - momentos.

O vício torna tudo ainda pior. Uma mistura de desespero e aflição com um respiro aliviado de um tempo forçado de descanso da tecnologia. Sim, os sentimentos se misturam porque nossas vidas estão imersas em telas que nos fazem felizes e tristes ao mesmo tempo, mesmo que não tenha profundidade nesses tempos voláteis. 

Estou enrolando o leitor escrevendo asneiras sobre a tal da falha de comunicação porque quero contar uma história pitoresca, mas não sei nem por onde começar. Quem não tem o domínio da linguagem não consegue ser objetivo e só vai contar a história depois de longas voltas e conversas fiadas. É o meu caso.

Bom. Vamos aos fatos. 

Moro com meu irmão gêmeo em um apartamento no centro da cidade. São nossas responsabilidades a gestão da casa, compra de mantimentos e limpeza. Devido aos aumentos de preços e a inflação galopante decidimos fazer uma única compra mensal com todos os produtos necessários para sobrevivência (e mais algum docinho) em um mês.

Antes dessa pequena reunião dos moradores, costumávamos ir ao mercado praticamente toda semana. A decisão de fazer uma compra grande foi feita mês passado e deu tudo certo. A ideia era repetir agora em outubro.

Até aí tudo nos conformes, vida normal e rotina diária. Os dois trabalham até às 18h e todos os dias nos encontramos para voltar para casa caminhando juntos. Às vezes paramos na panificadora comprar pão para a janta, às vezes meu irmão passa comprar alguma coisinha em um mercado perto de onde ele trabalha.

Decidimos que era hora de voltar ao mercado para a grande compra. Curiosamente nesse dia eu atrasei um pouco no trabalho e não saí às 18h.

Meu irmão decidiu ir adiantando as compras e eu o encontraria lá para terminar e ajudar a carregar as sacolas. Cheguei no mercado depois de uns 10 minutos de caminhada e comecei a procurá-lo. Algum tempo depois decidi ligar e perguntar em que parte do mercado ele estava, já que andei por todo o estabelecimento e não encontrei ninguém.

Nesse momento fiz uma piada falando que eu estava em outro mercado de outro bairro. No que ele responde: "mas eu estou aqui!". Silêncio.

Confesso que fiquei um pouco atordoado com a informação e repeti a pergunta. Ele me disse que estava no corredor dos produtos de limpeza. Fui até lá e não o achei.

Naquele momento percebi que os dois estavam em mercados diferentes. Não sei por qual motivo ele tinha ido em outro lugar mais longe. Ele disse que no mês passado fomos àquele mercado juntos e que era mais barato, mas eu não consigo lembrar desse dia. Talvez seja sequela da Covid-19, talvez seja mera falta de comunicação.

Resumindo: tive que andar mais meia hora a pé - porque não quis pedir um uber de um mercado em direção ao outro - para chegar onde estava o meu irmão. Na hora eu posso ter ficado um pouco irritado, mas essa pequena caminhada me fez rir da situação e ter a certeza de que isso viraria crônica.

Uma pequena falta de comunicação que normalmente se faz desnecessária. Por óbvio deveríamos ter ido ao mercado que é perto do trabalho do meu irmão para evitar gastar sola de sapato. Por outro lado, o mercado mais longe é bem mais barato.

Até agora não consegui concluir de quem foi o erro e deixo para o julgamento do leitor. Meu irmão jura que ele está certo, talvez esteja mesmo. 

Sigamos firmes!

Thailan de Pauli Jaros

06OUT2021

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O café doce e as amarguras das pessoas

 

Nos últimos quarenta dias decidi tomar café sem açúcar. Uma miserável penitência escolhida, entre outras poucas, para não ficar de fora da quaresma de São Miguel Arcanjo. O paladar infantil deste que vos escreve considera de suma importância as cheias colheradas de açúcar em uma caneca cheia de café com leite.

Não sei se posso dizer que era uma penitência ou algo do tipo, mas foi penoso beber o horrível café preto e puro. Confesso que nem vontade de fazer o café eu tinha. Os dias foram passando e eu esperava copiosamente que me acostumasse com o gosto amargo. Por vezes nos acostumamos com as amarguras do dia a dia. Isso não aconteceu. 

Cada dia que passava parece que piorava e eu contando os dias para poder voltar a colocar minhas três ou quatro colheres de açúcar no café. Você sabe, caro leitor, que isso é um drama, como não poderia deixar de ser para um melancólico que espera em silêncio o final de semana.

Não que fosse tão penoso assim, como sugere esse texto. Os dias foram passando e finalmente chegou o fim da quaresma com a grande festa dos Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel. Pronto, não era mais necessária a penitência quaresmal, embora seja sempre bom algum ato de mortificação.

Era de manhã e fui esquentar água para passar o tão esperado café com açúcar, mas para minha surpresa não tinha açúcar em casa. Bom, fiquei em silêncio, desliguei o fogo e entrei em greve contra o café. 

A greve não durou nem um dia. Decidi comprar um pacote de açúcar - o último da panificadora- que custou um valor acima daqueles que a gente compra no mercado, mas aceitei porque entendo um pouco sobre a lei da oferta e demanda.

E cá estou eu tomando meu café doce e com leite. Infelizmente não esquentei a água perfeitamente e ele já esfriou. Só tem uma coisa pior que café frio, é o café sem açúcar. 

Acredito que o mundo só vai melhorar quando o café voltar a ser doce. Talvez esteja faltando algo para adoçar a vida das pessoas. Vamos deixar a amargura para depois, agradecer o café frio, ruim e amargo e valorizar quando o café é quente, bom e doce.

P.s.1. Acho que cada um tem o jeito preferido de tomar café. Eu, por exemplo, gosto de mais café que leite, leite frio e bastante açúcar. Apesar de ser paranaense, esse negócio de leite quente não me atrai.

P.s.2. Quebrei a penitência da quaresma em um dia em que fui almoçar em uma pequena lanchonete no centro da cidade e a senhorinha que me atendeu decidiu colocar açúcar e depois me perguntar se eu queria. Essa é das minhas, foram quatro colheres e uma opinião sobre a amargura da vida de quem toma o café puro.

P.s.3. Meu colega de esquina escreveu sobre o café amargo no último texto deste blog, mas achei o texto muito triste justamente porque o café que ele diz tomar todos os dias é ruim e amargo.


Ânimo, senhores!

Thailan de Pauli Jaros

30SET2021

terça-feira, 31 de agosto de 2021

O café amargo, os prédios e as coisas que eu não prestei atenção


 

Um ritual monótono me acompanha diariamente há cerca de um ano e meio. Antes de começar a fechar as páginas frias do impresso, vou até a cozinha tomar um pequeno copo de café. O movimento diário que adotei para me desligar do mundo real por quinze minutos varia bastante de horário, mas quase sempre é perto das quatro da tarde. Os vinte e dois passos entre a redação e a garrafa térmica preta me afastam das limitações do meu psicológico fraco e dos sonhos que nunca terei coragem de realizar. Jogar uma perna na frente da outra é quase uma confissão para mim mesmo de que não tenho muitas conquistas pela frente... E está tudo bem.

O café está ruim, mas já estou treinado. O segredo é tomar sempre um bom gole amargo logo de cara e fingir que é um daqueles cafés que vendem em algum lugar que você nunca foi, mas imagina ser de qualidade. Conforme o tempo passa, acostuma. Tem algo naquele líquido escurecido (e aparentemente envelhecido) que me ajuda a ficar acordado entre um lead genérico e outro. Acho que é o romantismo da coisa, já que nem o leite e nem o açúcar ajudam muito. Aí já se vão pelo menos uns cinco minutos de desatenção.

Com a bebida quente em mãos, vou até a janela. Durante os momentos que restam, eu aprecio a vista. A araucária à minha esquerda sempre me chama atenção, especialmente nos dias nublados. É quando o verde dos galhos fica mais vivo e contrasta com o cinza do céu e do asfalto. Perto dali, o canto dos pássaros me faz lembrar do mundo. No mesmo terreno, um prédio com ar meio colonial se junta à paisagem. Ele é da mesma cor que o prédio construído à frente da janela. "Deve ser do mesmo dono, e ele deve fazer uma boa grana", penso sempre que olho. No entanto, ontem estavam pintados de cinza com listras brancas e eu não consegui lembrar se sempre foram assim. Ao lado das paredes que ficam no meu campo de visão, ergueram aquelas estrutura de madeira típicas de quem pretende refazer a pintura.

"Mas que droga", disse em voz alta pra mim mesmo (tenho feito isso bastante). "Eu venho todos os dias ao mesmo lugar, no mesmo horário e não me lembro da cor destes malditos prédios. Realmente eu vivo pra me superar nesses fracassos, não é possível". Logo em seguida, solto um riso pra dentro. Um amigo me viu e disse que achou fofo eu olhar pela janela tanto tempo. "Jesus, quanto tempo eu fiquei aqui?", pergunto a mim mesmo. "Ufa, ainda faltam dois minutos", respiro e volto antes. Como se os dois minutos fossem fazer alguma diferença no meu universo previamente definido, que nem sei se é tão definido assim. Não tive tempo pra notar ainda.

Essa eu dedico para mim mesmo, em um tempo no qual eu não fique mais refém do cotidiano café amargo e das coisas que eu não presto atenção. Ou não tenho coragem de prestar.

ALLYSON SANTOS

31 de agosto de 2021

terça-feira, 1 de junho de 2021

Depois da pandemia...

É comum nos tempos em que vivemos a promessa de deixar as coisas "para depois da pandemia". Quantos churrascos já combinamos pra "quando tudo isso passar", quantos encontros foram marcados "assim que der", quantos abraços foram postergados com a velha desculpa "vamos deixar para o futuro".

E a vida vai acontecendo mesmo nesse processo eterno de espera. O desejo da "aglomeração" parece aumentar a cada nova restrição imposta por não sabemos quem, não sabemos por quanto tempo. E justamente nesse caos todas as nossas esperanças se voltam para uma única salvação. Uma tal de ciência aqui, o uso de máscara acolá e a vacina. Santa vacina.

É até justo esse pingo de otimismo e talvez uma pequena gota de coragem em meio ao medo que paralisou o mundo. Mas, como tudo nesse último ano, é preciso cautela para não criar falsas esperanças nas incertezas.

E se a vacina não funcionar? E se não houver o "depois da pandemia"? É claro que ninguém gosta nem de pensar nisso, mas temos que olhar para as possibilidades. Quanto tempo vamos ficar paralisados esperando a salvação? Quanto tempo ficaremos paralisados pelo medo?

Uma hora ou outra o rio deve voltar ao seu leito normal. Não sabemos quando, mas quando ele voltar as consequências serão inevitáveis. A água pode baixar, mas os estragos causados pela enchente se tornarão visíveis. Para nós, pequenos seres humanos, resta esperar e resistir para não afundarmos nas águas sujas da tirania.

Às vezes - e essa hora vai chegar, se é que já não chegou- é necessário remar contra a maré.

(*)

É desumano ser tratado como peça em um jogo interminável de xadrez. O ser humano não existe para ser controlado e sim para viver a sua própria vida para o fim a que foi criado. 

É desumano ficar mais de um ano trancado em casa impossibilitado de ver a própria família, ganhar o próprio dinheiro, viver a própria vida.

É desumano aceitar passivamente regras que surgem do nada com justificativas torpes e que não podem ser entendidas nem contestadas por ninguém. É desumano sucumbir ao medo em nome de um sacrifício para uma proteção que nem sequer é certa.

É desumano tratar o homem como um aglomerado de moléculas sem entender que a vida própria acontece no convívio com os outros homens. 

E isso não é negar a caridade de cuidar daqueles que necessitam de cuidados, ou de proteger os que precisam de proteção. Não é estar insensível ao sofrimento daqueles que perderam amores e amigos. Mas o medo da morte que nos paralisa é o mesmo que nos leva, atônitos, ao penhasco.

A falsa esperança de que somos imortais e por isso viveremos até o fim da novela vai nos deixando egoístas e mesquinhos. Só nos resta julgarmos as atitudes alheias daquele pai que levou o filho ao jogo de futebol, daquela filha que foi visitar a mãe no fim da tarde, daquele neto que quis estar com o avô no leito de morte.

Não sejamos mesquinhos, não sejamos egoístas. Pode ser que a pandemia não tenha fim. Pode ser que a pandemia não termine antes da nossa morte. E aí, tudo isso terá valido a pena?


Coragem!

Thailan de Pauli Jaros

01JUN2021


quarta-feira, 19 de maio de 2021

Uma estrada sob nossos pés


O apito da água quase fervendo me avisou que já estava na hora de arrumar o coador, colocar o papel filtro e as quatro colheres de café. Cada detalhe que compõe a cena não pode ficar para trás e para começar o dia os pensamentos organizam a rotina num derradeiro arrastar de pés rumo ao desconhecido.

A água, é claro, não pode ferver para passar o café. Do contrário queimaríamos o pó e - dizem os especialistas- estragaríamos o aroma desse grão tradicional brasileiro. Mas se o poeta diz que café não costuma 'faiá', religiosamente, dia após dia vamos bebendo e começando nossos afazeres animados, como deve ser.

A rotina é estabelecida a partir de nossos deveres e cada um tem o seu. Acordar cedo, tomar café, sair trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, sair do trabalho, chegar em casa e assim até começar um novo dia. Muitas vezes esperamos o extraordinário, algo que se destaque nessa nossa vida, nessa mesmice que se atualiza cada vez que abrimos os olhos.

Mas estamos olhando de maneira errada. Se olharmos um pouquinho para o lado - para qualquer lado- podemos ver que não só o extraordinário se destaca e talvez nem precisamos desse destaque. Podemos transformar nosso cotidiano em algo especial e prestar atenção naquilo que sempre esteve lá. Jesus não viveu durante 30 anos no anonimato servindo filialmente a José e Maria?

Pronto. Cada ação cotidiana deve ser levada até as últimas consequências. Acordar alegremente naquela manhã fria de inverno, fazer e tomar o melhor café já coado na face da terra, sair trabalhar e fazer o melhor cumprindo os deveres que nos são confiados, almoçar agradecendo pela oportunidade do nosso pão de cada dia e voltar para casa com a felicidade que nos é esperada desde a criação do mundo.

Se estamos inseridos neste mundo, temos obrigação de contemplar cada detalhe. De encontrar algo bonito do meio daquele movimento de pessoas. De olhar para a esquina e perceber aquela flor no meio do muro de concreto. Perceber que há vida lá fora e só a realidade salva do transe que parece nos ameaçar a cada segundo. Afinal, se não contemplarmos a vida acontecendo, vamos contemplar o que?

O ordinário se transforma em extraordinário quando passamos a prestar atenção nos detalhes. O extraordinário se faz quando nos deparamos com a imensidão do mar ou daquele arranha-céu, mas nos damos conta de que há uma estrada sob nossos pés. O extraordinário é aguardar a água ferver, esperar o peixe fisgar na isca, respirar fundo e contar até dez.


Vamos com fé. Boa semana!

Thailan de Pauli Jaros

19MAI2021

terça-feira, 20 de abril de 2021

O fim silencioso de um fone de ouvido

Apenas um fio separava meu fone de ouvido do descarte. A pequena borracha que fica entre o cabo e o conector do celular estava arrebentando aos poucos e o fio que levava as músicas para os meus ouvidos já aparecia. Ele era forte, aquele único fio aguentou dias e mais dias e provavelmente aguentaria mais não fosse a minha pressa em tentar arrumá-lo para não precisar comprar outro equipamento.

Ultimamente não tenho ouvido muita música, ouço alguns podcasts e vejo alguns vídeos nas redes sociais, mas música mesmo só ouço sem o fone e enquanto faço alguma tarefa operacional, como lavar a louça. Se quero me concentrar em algo prefiro o silêncio. Ando preferindo o silêncio para organizar os pensamentos.

Atualmente fone de ouvido é um item essencial, principalmente porque muita gente chama os barulhos atuais de música. No entanto, quem mais precisaria usá-los não os acha necessários e então aguentamos as repetições de silabas, as letras mal lapidadas e um som que ensurdece. Os mais radicais ainda tentam explicar, afirmando que "é bom pra dançar".

Mas o meu papel não é reclamar dos sons atuais ou daquilo que alguns chamam de música popular. Já reclamei demais de muita coisa, hoje só me afasto e fico em silêncio. Ouvir o silêncio é sempre o melhor caminho.

Meu fone foi guerreiro, comprei por um preço bem em conta numa dessas lojas no centro da cidade. Serviu sua vocação até o fim, mas teve sua vida ceifada por mãos humanas, ação inaceitável de todas as maneiras. Era a tarde do domingo, eu achei a super bonder na geladeira e resolvi colar a borracha que encobre o fio e que havia partido. A princípio deu tudo certo, mas o fone não funcionou mais.

Moral da história, passe uma fita adesiva mas nunca tente colar um fone com super bonder. No meu descuido tecnológico esqueci que qualquer intervenção nessas partículas podem comprometer o bom funcionamento da ferramenta. Nem parece que sou da geração que nasceu com as novas tecnologias.

Por fora ele ficou perfeito, parece até novo. Mas por dentro não presta para aquilo a que foi fabricado. Um crime contra a vocação.

Boa semana

20ABR2021

Thailan de Pauli Jaros

terça-feira, 30 de março de 2021

O fardo leve

Esgotaram-se as forças. Chegou o fim do caminho e a luz se apagou no início do túnel. A sensibilidade à flor da pele arranca os nervos e a constante preocupação beira ao desespero. Não só beira ao desespero, mas inunda a consciência em um mar de negatividade onde a luz talvez nunca possa chegar. Talvez.

No entanto, o momento é oportuno, o tempo é favorável e a safra promete. A uva que aguentou a tempestade pode se transformar no mais delicioso vinho. O fruto que madurou durante as adversidades poderá ser colhido e valerá muito mais.

Sem ressentimentos ou rancor, sem inventar problemas totalmente suportáveis. O fardo que carregamos pode não ser nada comparado ao peso do mundo nas costas do esquecido. Mas olhamos pelo ângulo errado e tentamos, muitas vezes, carregar uma cruz pesada demais sozinhos. Esquecemos que não somos nada e nunca suportaremos o pesado fardo antes de aceitarmos ajuda.

Não podemos fingir que o fardo não existe. Ele existe e se tornará cada vez mais pesado se continuarmos com nossos vícios, nossas mesquinharias, nossos problemas. O fardo só se torna leve para aqueles que o aceitam e aceitam companhia.

É quando largamos os vícios, as mesquinharias e os problemas que conseguimos ver a beleza nesse mundo louco em que vivemos. Sim, esgotaram-se as forças mas surpreendentemente a cruz pareceu mais leve porque pedimos auxílio e apreciamos o bom, o belo e o verdadeiro.

Sigamos. Hoje, mais do que nunca, somos chamados aos pequenos sacrifícios, ao desapego do que certamente nos faz mal. Todo o sofrimento humano não se compara com a cruz. Afinal, é buscando a cruz que encontramos o fim do túnel. É assim que a luz entra na escuridão. 

Sigamos

Thailan de Pauli Jaros

30MAR2021


segunda-feira, 15 de março de 2021

Não há razão pra desespero


A borboleta passa tranquila pelas árvores, pousa numa flor e aproveita o dia ensolarado de um domingo. O dia é quente demais, quase insuportável para um ser humano. As nuvens permanecem no mesmo lugar porque não há vento suficiente para fazê-las movimentar. Tudo parece estar parado, como em um processo de stand-by. O único movimento são as asas da borboleta, que batem seguras, na tranquilidade do dia de domingo.

No outro lado da cidade o movimento é frenético. As ambulâncias não param, as sirenes são ouvidas através dos ecos dos arranha-céus. Os ruídos são desesperadores e a ideia do caos faz qualquer um sucumbir ao medo. Medo de um fim que, apesar de esperado, não é conhecido. Medo de uma morte que, por falta de fé, acabaria com a existência. Medo do sofrimento que, pela falta de amor, seria insuportável.

Nesses nossos tempos de caos, de sentimento de guerra, de desolação, não podemos nos entregar ao desespero. A manutenção da esperança é crucial para lidarmos decentemente com os obstáculos da vida. A Vida, com vê maiúsculo, não pode ser negada em nenhuma hipótese e não há contrariedade, por pior que seja, que diminua a importância da realidade na nossa existência.

Portanto, pés no chão e olho na realidade são os pilares para seguirmos em frente, sempre procurando o que é do alto, sempre confiantes. Os tempos não são os melhores, mas ninguém falou que seriam. Talvez nunca tenham sido. Aguentar firme é mostrar força, é mostrar caridade.

O desespero atual só pode ser convertido em serviço. Cuide de quem está a sua volta, ajude o próximo que está sofrendo, esteja disponível para atravessar as tribulações dos outros. Ninguém está sozinho e é extremamente necessário olhar para os outros e ajudar no que for possível. É só quando esquecemos de nossos sofrimentos tentando amenizar o sofrimento de nosso próximo é que nos aproximamos de nosso principal objetivo: servir.

Não há razão pra desespero.

15MAR2021

Thailan de Pauli Jaros

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Gerúndio

Andando pelas ruas da cidade, pensando no que poderia pensar, respirando o ar puro das fumaças dos carros e meditando sobre o dia a dia. Parece que o gerúndio veio mesmo para ficar. Veio chegando, como quem não quer nada, foi se estabelecendo na rotina e acabou ficando para não parar com o movimento.

É isso mesmo. A vida vai passando e não há tempo para parar. As coisas vão acontecendo e não tem como voltar atrás. Aquele segundo gasto lendo o primeiro parágrafo desse texto já passou, que venha o próximo.

O gerúndio é perspicaz, fica conosco assim como Deus com os discipúlos de Emaús e só o reconhecemos depois do partir do pão. O gerúndio é o que está acontecendo entre o agora e a hora de nossa morte.

O gerúndio é o relógio contando as horas para finalizar a volta completa e assim começar outra. O gerúndio é a corda do relógio que o permite funcionar mesmo depois de tanto tempo.

Mas mesmo depois de tanto tempo ainda não aprendemos muitas coisas óbvias. A obviedade parece um obstáculo na frente daqueles que preferem viver de ilusão. O gerúndio não pode viver de ilusão, mas isso depende de nós.

Por enquanto continuamos andando, rindo, estudando, dormindo, correndo, escrevendo e tudo o que precisamos é ouvir. Falar menos e ouvir mais. Ouvindo, ouvindo e ouvindo.


Boa semana!

Thailan de Pauli Jaros

23FEV2020

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O besouro verde

Já era madrugada e eu estava no terceiro sono quando acordei com algo grudado no dedo do pé. Era um besouro. Tranquilamente, mas nem tanto assim, tirei o inseto do meu dedo e percebi sua peculiaridade: era um besouro verde.

Dizem por aí que o besouro é o bicho mais forte do mundo, que pode aguentar mais de mil vezes o seu próprio peso. Mas isso não vem ao caso.

Acordo no outro dia de manhã e vou lavar a louça que deixei suja depois do jantar. Olho na pia cheia de pratos e talheres e lá está ele: o besouro verde. Rapidamente dou um jeito de pegá-lo e levo diretamente para a janela.

Termino de lavar a louça e vejo um ponto brilhante pendurado na janela. É o besouro verde. Com um movimento dos dedos jogo ele para baixo. Problema resolvido.

Mais tarde eu saio pra trabalhar e fico o dia inteiro fora. Chego em casa de tarde, vou pegar um livro pra ler e lá está o besouro na estante de livros. Dessa vez deixo ele lá. Pelo menos tenho um besouro intelectual.

No fim da noite vou rezar e o besouro verde está metido grudado na coroa de Nossa Senhora. Não ligo, pelo menos tenho um besouro religioso.

Mas dessa vez jogo ele pela porta. Nunca mais o vejo. O besouro verde ficou pra fora. 

Não tirei foto e muitos duvidam da veracidade dessa história, mas o mais engraçado é que ela é verdadeira.

P.s. Que tenhamos a força e a determinação do besouro verde. Boa semana, faces!

Abraços!

09FEV2021

Thailan de Pauli Jaros


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O abismo e o equilibrista


A corda está esticada, amarrada de uma ponta a outra. Estou sozinho, concentrado, mas uma plateia insiste em me assistir. Todos querem ver o espetáculo, muito provavelmente torcem para a queda, esperam o erro e se surpreendem quando tudo dá certo. 

O dar certo sempre é incerto e quando subo na corda não tenho como saber se chegarei ao fim com o mesmo equilíbrio e concentração que comecei. Mas a esperança me faz olhar para frente e seguir em frente sem me importar com o espetáculo e com a torcida cada vez mais pessimista.

O ponto de equilíbrio é a linha tênue entre a concentração e o momento de bobeira, entre a firmeza e o nervosismo, entre a confiança e a dúvida. Só é permitido o equilíbrio para os sóbrios, que por algum motivo esquecem de olhar para baixo e deixam de enxergar o grande abismo que espera o descuidado.

O equilibrista tem noção do abismo que existe embaixo da corda, mas escolhe olhar para frente e consegue manter a constância durante todo o percurso. Fácil não é, mas a confiança de que no outro lado existe o paraíso é o consolo e o motivo pelo qual se caminha todos os dias.

Mas quando estou em cima da corda bamba também me é permitido contemplar a vista, enxergar o belo e aprender que não preciso ficar pendurado no limiar da queda quando tenho a força da contemplação, do silêncio e da concentração para uma vida bela.

Sim, pode até ser que o abismo logo abaixo me assuste e que por vezes (muitas vezes) me desequilibro e caio, mas na maioria delas uma mão me puxa para cima e me dá outra chance. Outra chance de equilíbrio é sempre bem vinda e não importa a quantidade de quedas, o que realmente importa são os momentos em que volto ao equilíbrio e finalmente chego no fim do percurso.

Se o leitor me entende, podemos dizer que o fim do percurso é só o início ou a consagração de uma bela performance que, aos poucos e com muitas quedas, o equilibrista proporcionou ao público. A vitória do equilibrista é o triunfo de um caminho corajoso e determinado, concentrado e contemplativo, vivo e com vontade de viver.

Nesse momento já não importa o abismo, a torcida aplaude surpreendida com o sucesso do equilibrista. O equilibrista somos nós e a corda bamba é a vida. A bela vida.


Thailan de Pauli Jaros

02FEV2021

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Senão você dança

 


Hora de ir pra casa. Hoje eu fiz um pouco mais do que devia...Ok, talvez muito mais do que eu devia. Tomei café com muito açúcar. Adiantei algumas coisas do trabalho na parte da manhã. Coloquei uma música com uma batida legal e triste ao mesmo tempo no carro. Não ouvi nenhum um obrigado, muito menos aquele “Eu te amo” (que eu nunca ouvia e ainda fiz questão de perder). Não lembro de absolutamente nada do que eu escrevi. Cheguei cedo e saí atrasado.

No caminho de volta, passei pelo último semáforo antes de casa e avistei um grupo de jazz. Eram pelo menos umas 20 pessoas, todas mais ou menos da mesma idade. Eles ensaiavam uma coreografia no meio de uma viela escura. Naqueles poucos segundos que fiquei olhando, tudo parecia muito sincronizado. Eles sorriam. Quando atravessei com o carro, todos saíram da frente, mas ninguém ficou chateado, eu acho (se você faz parte, fui eu que passei na esquina do Sepam com um Pálio Branco). Pensei em buzinar, mas como eu já tinha atrapalhado, não vi muito clima.

Cheguei em casa e fiquei sentado no escuro da garagem, desta vez mais que o normal. Fui dormir pensando que, de um jeito ou de outro, com segurança ou insegurança, a gente sempre acaba dançando. No fim, a gente só escolhe como e quando. Coragem e força pra você, que ainda tem tempo pra dançar jazz, falar mais "Eu te amo" para as pessoas e colocar menos açúcar no café.

Eu até ia escrever sobre outra coisa, mas que moral eu tenho pra falar de rotina? A propósito, só acho que era jazz porque estava escrito na camisa da instrutora de dança.


ALLYSON SANTOS

27 DE JANEIRO 2021

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Aconteceu em Ponta Grossa

Por Paulo Rogério de Almeida

Há uns vinte anos, aproximadamente, eu estava em minha casa quando recebi a visita de um senhor muito distinto, amigo da minha sogra, que tinha vindo convidá-la para sair.

Conversa vai, conversa vem, não sei como o “papo” chegou ao assunto “viagens” e, por extensão, em seguida, chegou-se à “aviação”. Esse senhor, cuja idade não mencionarei, comentou que ainda usava calças curtas e se lembrava da visita do aviador Alberto Santos Dumont à nossa cidade. E explicou que os ponta-grossenses, da época, quase passaram um tremendo “carão” (uma enorme vergonha), diante de uma pessoa tão ilustre e famosa.

E, diante do interesse geral dos presentes, relatou que, após o memorável feito do brasileiro em terras europeias, Ponta Grossa resolveu homenageá-lo, dando seu nome a uma rua. Escolheram uma das ruas mais centrais e assim ficou. Passou-se certa quantia de tempo e nada do homenageado aparecer. Claro, estava muito ocupado na Europa com outros projetos.

Mais algum tempo depois, aconteceu o falecimento de um ilustre político, o Senador Pinheiro Machado. Como era necessário prestar uma homenagem ao emérito cidadão, pensou-se, naturalmente, em nome de rua. Só que tinha que ser “aquela” rua! Porque justamente “aquela” rua, eu não sei explicar (minha pesquisa não achou o motivo e as pessoas que entrevistei também não souberam me dizer). O fato é que, com o argumento de que Santos Dumont ainda estava vivo e o outro não, retiraram as placas da então Rua Santos Dumont e colocaram-nas na atual Rua Pinheiro Machado (que, na época, tinha outro nome).

Todo mundo feliz até que, em 04 de maio de 1916, finalmente chegou à nossa cidade o famoso aviador Alberto Santos Dumont. Pelos relatos que obtive, foi uma recepção bem calorosa, com uma verdadeira procissão, constituída de carros, bicicletas e carroças, desde a entrada até o centro da cidade. Carroças? Bicicletas? Aí, você acha que eu exagerei, não é mesmo? Bem, vamos esclarecer que, em 1916, os carros não eram propriamente uns bólidos; talvez “corressem” a uns dez ou vinte quilômetros por hora. Poderiam perfeitamente ser acompanhados por bicicletas e carroças.

Segundo eu soube, no dia seguinte, 05 de maio, a convite do deputado Eliseu Campos Melo, foram visitar a Fazenda Modelo. No retorno, o deputado quis fazer uma gentileza, convidou Santos Dumont a conhecer a rua que levava o seu nome (nome do aviador, não do deputado, esclareça-se) e disse para o motorista: “Fulano, por favor, leve-nos à Rua Santos Dumont. Basta subir a Avenida Vicente Machado e dobrar à esquerda”. (Observação: na época, a Avenida tinha duas mãos). Creio que o motorista “sacou” que o deputado não estava a par das mudanças havidas, mas, como ordem é ordem, fez o que foi solicitado e estacionou o carro em frente de uma loja de ferragens chamada “Casa Osternack”.

Todos desceram e, muito orgulhoso, o deputado começou a falar e se engasgou, porque todos puderam ver, em letras bem legíveis: “Rua Senador Pinheiro Machado”.

E agora?

O motorista, muito esperto, percebendo a confusão que o deputado criara sem querer, salvou o dia, dizendo: “Puxa, que distração a minha, senhor deputado! O senhor falou Rua Santos Dumont e eu vim para o lado errado! Desculpe-me! Vamos embarcar novamente! Desta vez, não errarei!”.

Dito isso, todos voltaram a seus carros e se dirigiram para a atual Rua Senador Pinheiro Machado, onde os membros na grande comitiva e o homenageado, é claro, puderam ver, claramente, as placas onde estava escrito: “Rua Santos Dumont”.

Não preciso dizer que, algum tempo depois, quando a “poeira” assentou e não mais se comentava a “gafe”, as placas foram trocadas.

Um adendo: que lástima não termos mantido, em nossas memórias, outros fatos, engraçados ou tristes, que marcaram a história de nossa cidade.

Outro adendo: certa vez, apesar da minha disciplina ser Literatura Brasileira, nos Cursos de Letras, fiz um comentário em sala de aula e, para minha surpresa, uma das minhas alunas, uma senhora, confirmou os fatos relatados. Ela conhecia todos os detalhes, simplesmente por ser neta daquele motorista. Que notável coincidência, não?

(Crônica publicada na Revista DUO [revistaduo.com.br], Ponta Grossa, n. 2, p. 70, outubro/novembro 2012).

Paulo Rogério de Almeida é professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa

(*)

Comentário do blog: Há algum tempo pedi para o professor Paulo, meu professor de português, mandar uma de suas crônicas para publicarmos aqui no blog. Ele, muito simpático e atensioso, aceitou e nos enviou a divertida história da visita de Santos Dumont a Ponta Grossa. Agradeço ao professor e ressalto publicamente que o espaço sempre estará aberto para outras histórias.

Boa semana!
26JAN2021
Thailan de Pauli Jaros

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Mosca

 



Já tem me incomodado faz um tempo. Coisa de alguns meses e poucas horas. Começou numa daquelas noites quentes de verão que, cá entre nós, eu nunca gostei. Foi nesse dia que ela apareceu pela primeira vez. Chegou devagarinho, igual gente tímida que precisa puxar assunto com o motorista do ônibus pra saber onde descer, e veio até o meu ouvido como quem quer contar um segredo. Ela nunca mais foi embora.



A mosca tirou meu sono naquela noite que eu tinha programado de esquecer dos problemas do meu mundo. Era uma noite tão perfeita… Eu tinha tudo sob o meu controle, mas ela não queria saber. Naquele dia, eu me levantei, acendi todas as luzes do quarto pra dar um fim em tudo. Com a luz, ela desapareceu. Bastava eu me deitar, para que aquele zumbido infernal voltasse aos meus ouvidos. Desde então, nesse ritmo frenético de looping, fluem as nossas conversas noite adentro, dias afora.



Quando você tem uma mosca te perturbando sempre, os dias começam a parecer cada vez mais iguais. Os textos que você escreve são os mesmos. As piadas preconceituosas, a procrastinação, os pecados, as infidelidades. Tudo parece estar sempre ali, no seu ouvido. Não tem nada que você possa fazer. Você começa a achar que tudo é uma grande coincidência, uma pegadinha ou só mais um episódio mal escrito da vida idêntica que você insiste em levar, mas fica pior. Comigo, ficou. O problema mesmo começou por volta do terceiro mês.



A mosca começou a aparecer em outros momentos do meu dia. Quando eu comi um pouco a mais no almoço, ela estava na cadeira da frente, esfregando aquelas mãos frias de quem se alimenta de sangue. Quando eu ofendi alguém no trânsito enquanto mexia no celular, ela aparecia no retrovisor. Quando eu respondia àquelas mensagens, ela me torturava de orelha a orelha.



Na última vez que fui à igreja, a mosca também estava lá. Ela pousou em um daqueles fios que as paróquias estão usando pra separar os assentos. A mosca estava bem na minha frente, mas nesse dia, eu não senti ódio dela. Ficamos nos encarando por um tempo, como se tentássemos descobrir o que havia de errado um com o outro. Não brinco, ela ficou ali por pelo menos uns 20 minutos. Eu não senti vontade de matá-la. De alguma forma, queria que ela me desse respostas para tudo que está acontecendo. Uma resposta para as pessoas que eu magoei, para o tempo que eu perdi e para os pecados que cometi.



Ela não me disse nada, mas eu pude ver a dor daqueles grandes olhos e, no fim, descobri que somos iguais. A busca por atenção, o voo sobre os defeitos fétidos dos nossos inimigos, a insignificância, o bater de asas sem rumo e a solidão interna e eterna. Hoje? Hoje ela ainda está aqui. Dentro da insônia dos meus dias, ela está cada vez mais presente. Conforme as pessoas vão embora, mais moscas eu vejo. Deus, estou vendo tantas moscas desde que ela foi embora... Acho que preciso decidir entre ser uma delas de vez… ou não. Talvez eu tenha que tomar mais banhos também.


Allyson Santos

20 JAN 2021


P.S. Não sei mais mexer aqui, mas meus textos vão sair sempre nas quintas pra não encavalar com os do mestre Thailan. O horário depende do nível de tragédias que acontecerem em PG e região. Saudações!

Orgulho e Preconceito


Pobre de nós. Chega a ser engraçado como dificultamos nossas vidas impondo regras desnecessárias, procurando mentiras improvisadas, fingindo ser alguém que nunca existiu e moldando nossa realidade através de achismos e desejos idiotas.

Orgulhosos e vaidosos que somos, não enxergamos além do nosso próprio nariz e acreditamos piamente no que dizem a nosso respeito e a respeito de outros. Na maioria das vezes não acreditamos nem no que os nossos próprios olhos estão vendo.

Tive essa pequena reflexão depois de assistir "Orgulho e Preconceito", filme baseado no romence de Jane Austen que retrata a vida da sociedade no século XIX. Mundo diferente do nosso, mas ao mesmo tempo tão parecido. Os tempos mudam, mas os erros e vícios continuam os mesmos.

Não cabe a mim contar a história do filme, mas escrever sobre impressões que tive em minha aventura cinematográfica. Além, é claro, de uma fotografia interessante, o que mais me chamou a atenção foram os intermináveis diálogos entre as personagens. Diálogos esses que eram recheados de tensão, doçura, competição e afeto.

Nossa, mas como misturar tensão com doçura? Competição e afeto? Não sei, só sei que enriqueceu o enredo e tornou a obra belíssima.

Os interesses pessoais tomam conta das personagens, Uma mãe que quer casar as filhas e filhas que querem achar um marido. Homens em busca de mulheres e os protagonistas difíceis de entender.

Isso nos faz lembrar de nossa própria realidade, quais são os nossos sonhos, o que imaginamos para o futuro e como vivemos o presente. Vejamos, é melhor conhecermos nossos próprios defeitos e nossa realidade antes de apontar o dedo para os outros.

E conhecer nossos vícios é também entender a realidade do próximo antes de julgar a partir de impressões ou até mesmo pela ótica dos outros. Assim que conhecemos outras pessoas e deixamos conhecer sem escaras nos olhos, não temos a necessidade de julgamento.

Mesmo assim, as emoções podem tomar conta e logo concretizamos uma opinião negativa sobre quem acabamos de conhecer, ou vimos na rua, ou ouvimos falar. E sabe o que é pior? Não fazemos nada para mudar essa opinião, agimos como se não fosse possível mudar, olhar por outro ângulo, aproximar a lupa.

A verdade é que muitas vezes somos orgulhosos demais para mudar um preconceito. Essa dificuldade em conhecer a realidade (nossa própria e dos outros) nos impede de viver verdadeiramente. Por isso que eu disse no começo do texto que os intermináveis diálogos do filme eram sensacionais.

Somente a conversa interessada pode mudar nossas opiniões já formadas mas que são rasas e cheias de idiotices. Mostrar interesse é ser interessante, deixar o orgulho de lado é provar que podemos ser chamados de homens.

Os tempos são outros, mas os vícios continuam os mesmos. Atualmente não escutamos as pessoas, não abrimos os olhos para os detalhes e só queremos saber do que é fugaz, do que é instantâneo. Pobre de nós que não conversamos mais.


Boa semana, faces

Thailan de Pauli Jaros

19JAN2021

P.S. A partir da semana que vem os textos serão publicados toda terça-feira às 10h.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O começo da nova década

No começo de 2020, publicações festivas e esperançosas davam boas vindas à nova década que se iniciava. Imediatamente o pessoal mais inteligente e sabido das coisas repreendia e ensinava que, na verdade, a nova década só se iniciaria em 2021.

Pois bem, aos trancos e barrancos o tempo passou e a nova década chegou. O primeiro ano dos próximos dez. Mas o que devemos esperar desse longo período que, ao fim de tudo, nos espera? Sei lá.

Uma pequena pesquisa sem nenhuma base teórica, seja lá o que isso significa, me mostrou que as expectativas estão baixas. Eu, um otimista nato, prefiro acreditar nos meus olhos e continuar em frente. As contrariendades (que são muitas) podem fazer parte do caminho. Sem pedras não há atrito e o atrito muitas vezes nos ajuda a caminhar.

É que muitos esperam resolver todos os problemas da humanidade em um piscar de olhos, em uma manifestação de rua, em uma nota de repúdio. Muitos gritam demais, sabem muito, atrapalham de mais. Para manter a serenidade nesse grande big brother em que vivemos, basta nos colocarmos na nossa própria realidade, largar mão da miopia.

Não precisamos enxergar longe, mas prestar atenção nos detalhes de nossa vida. Quem está por perto, quem podemos ajudar, o que podemos fazer por alguém que conhecemos. Essa briga também é minha? Talvez. Talvez não. 

Temos que entender que a felicidade não é momentânea, isso é uma mentira infeliz na moda dos nossos tempos voláteis. Enquanto não fincarmos os pés no chão e construírmos bases fortes, os momentos serão só momentos e logo voltaremos às preocupações mundanas.

Temos que encontrar a felicidade com muito custo, encontrá-la também nas contrariedades, nos problemas e nas nossas próprias misérias. Encontrar forças sobrenaturais para seguir em frente, fortes com um sorriso no rosto.

A ideia é servir, ajudar, não reclamar dos pequenos desgostos e, acima de tudo, aceitar que não somos o centro do mundo, ninguém nos deve nada.

Na nova década podemos ser mais pacientes, falar menos e mais baixo, estar a serviço do próximo e acabar com nossa mesquinhez. É isso. É só isso.


Thailan de Pauli Jaros

12JAN2021