sábado, 30 de outubro de 2021

Toda realidade...


Oito horas e trinta e um minutos de uma quinta-feira de setembro, eu atravessava a rua movimentada quando me deparei com um caminhão que levava em cima do para-brisa uma daquelas placas de led com dizeres de auto-ajuda. 

Há tempos que os para-choques dos caminhões receberam uma companheira, a placa de led, que pisca freneticamente nessas madrugadas das rodovias brasileiras. Algumas levam o nome do motorista, outras o apelido, outras vão desenhando palavras com significados afetivos ou frases motivacionais.

Tudo muito bonito não fosse a impossibilidade de leitura com o veículo em movimento. Parei para pensar sobre isso e por um momento tentei fazer as contas da velocidade média dos viajantes, aqueles que deveriam enxergar e tentar ler os dizeres motivacionais.

Não consegui chegar a uma conclusão por conta da minha parca matemática. Mas pelas minhas contas de boteco - aquelas feitas no guardanapo no fim de uma noite sem fim- o motorista do carro na contramão não consegue ler nem duas palavras.  

Ok. Eu consegui ler duas palavras. No caminhão que eu encontrei, a frase navegante dizia "toda realidade...". Pelo menos essas foram as palavras que eu consegui ler e que me despertaram uma curiosidade de pelo menos um mês. É verdade que toda realidade importa, faz sentido e qualquer outra  palavra que possa se encaixar aqui...

O leitor pode não me compreender, mas vamos assumir que a curiosidade em saber o restante da frase é uma realidade para muitas pessoas. Pelo menos para aqueles que tentam prestar atenção na realidade a sua volta.

É que muitas vezes os detalhes da vida passam batido quando caminhamos rumo aos nossos objetivos. Pense bem, fazemos o mesmo caminho todos os dias, mas todos os dias as pessoas que passam por nós são diferentes, a folha da árvore da esquina está levemente inclinada à direita, o vento levou a sujeira para o outro lado da rua e o lixo jogado na noite anterior já foi varrido.

Não é todo dia que eu encontro um caminhão com um led, ou uma ambulância desesperada em chegar logo no hospital, ou um homem ajudando a esposa grávida a subir as escadas, ou alguém na esquina pedindo dinheiro para poder matar a fome.

Também não é todo dia que eu presto atenção nas coisas pequenas que encontro. Me falta a atenção necessária ao olhar para os dois lados quando atravesso a rua, ao pisar desgraçadamente no presente que um cachorro deixou na calçada no dia anterior ou até mesmo ao descer um degrau que eu tinha certeza que não existia.

Toda realidade é um pouco disso e um pouco daquilo. Cada um vivendo sua vida, seu detalhe e sua circunstância. De repente alguém consigue enxergar a frase inteira do led do caminhão quando o trânsito parar porque a cidade é mal planejada.

Mas no horário de pico o motorista não presta muita atenção em frases motivacionais, já que a pressa de chegar em casa é inimiga da calma e do silêncio necessário para apreciar toda realidade que um dia deve ter sido sonhada.

Tomei a liberdade de pesquisar a frase que não saiu da minha cabeça nos últimos dias e concluí que parece ser uma frase comum entre os caminhoneiros. Ela termina de uma maneira que eu não esperava. Toda realidade já foi um sonho. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, mas não esperava outra conclusão.

(*)

Quando era pequeno custei a entender porquê estava ao contrário a palavra "ambulância" na frente das ambulâncias. Não entendia a ideia do espelhamento ser ao contrário. Hoje tantas coisas não entendo, mas sei que com o tempo tudo vai ficando mais claro.

Tudo bem se o leitor for pesquisar uma foto de uma ambulância para ver o que está escrito ao contrário. Portanto, me antecipei e registro aqui que a maioria tem os dizeres "SAMU 192" e a palavra "AMBULÂNCIA" escritos de forma espelhada para facilitar o motorista da frente de enxergar e dar lugar para que os socorristas possam salvar mais vidas.

(*)

Fraternos abraços!

Thailan de Pauli Jaros

30OUT2021

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Falhas na comunicação

A falta de comunicação talvez seja uma das maiores aflições do mundo. As incertezas de que a mensagem pode chegar ou não ao receptor, o meio de levar o recado ao seu destino e quem será atingido pela próxima campanha são discussões quase que intermináveis com inúmeras soluções.

As teorias são muitas. Uns estudam a comunicação de massa, outros direcionam o público-alvo e outros inventam hipóteses das mais variadas somente com o objetivo de alcançar as pessoas. Do conteúdo da mensagem talvez ninguém se lembre. 

No entanto, o problema da falta de comunicação está longe de ser resolvido. Por vezes as falhas estão nos meios, que sendo as mensagens, prejudicam os interlocutores, outras vezes o receptor não quer ouvir e ainda pode ser que a falha seja da tal tecnologia. Mas a falha humana é a principal, não é?

Coincidentemente dia desses uma grande falha deixou fora do ar algumas redes sociais por cerca de seis horas. Foram inúmeras interações humanas que ficaram em modo de espera por aqueles - infinitos - momentos.

O vício torna tudo ainda pior. Uma mistura de desespero e aflição com um respiro aliviado de um tempo forçado de descanso da tecnologia. Sim, os sentimentos se misturam porque nossas vidas estão imersas em telas que nos fazem felizes e tristes ao mesmo tempo, mesmo que não tenha profundidade nesses tempos voláteis. 

Estou enrolando o leitor escrevendo asneiras sobre a tal da falha de comunicação porque quero contar uma história pitoresca, mas não sei nem por onde começar. Quem não tem o domínio da linguagem não consegue ser objetivo e só vai contar a história depois de longas voltas e conversas fiadas. É o meu caso.

Bom. Vamos aos fatos. 

Moro com meu irmão gêmeo em um apartamento no centro da cidade. São nossas responsabilidades a gestão da casa, compra de mantimentos e limpeza. Devido aos aumentos de preços e a inflação galopante decidimos fazer uma única compra mensal com todos os produtos necessários para sobrevivência (e mais algum docinho) em um mês.

Antes dessa pequena reunião dos moradores, costumávamos ir ao mercado praticamente toda semana. A decisão de fazer uma compra grande foi feita mês passado e deu tudo certo. A ideia era repetir agora em outubro.

Até aí tudo nos conformes, vida normal e rotina diária. Os dois trabalham até às 18h e todos os dias nos encontramos para voltar para casa caminhando juntos. Às vezes paramos na panificadora comprar pão para a janta, às vezes meu irmão passa comprar alguma coisinha em um mercado perto de onde ele trabalha.

Decidimos que era hora de voltar ao mercado para a grande compra. Curiosamente nesse dia eu atrasei um pouco no trabalho e não saí às 18h.

Meu irmão decidiu ir adiantando as compras e eu o encontraria lá para terminar e ajudar a carregar as sacolas. Cheguei no mercado depois de uns 10 minutos de caminhada e comecei a procurá-lo. Algum tempo depois decidi ligar e perguntar em que parte do mercado ele estava, já que andei por todo o estabelecimento e não encontrei ninguém.

Nesse momento fiz uma piada falando que eu estava em outro mercado de outro bairro. No que ele responde: "mas eu estou aqui!". Silêncio.

Confesso que fiquei um pouco atordoado com a informação e repeti a pergunta. Ele me disse que estava no corredor dos produtos de limpeza. Fui até lá e não o achei.

Naquele momento percebi que os dois estavam em mercados diferentes. Não sei por qual motivo ele tinha ido em outro lugar mais longe. Ele disse que no mês passado fomos àquele mercado juntos e que era mais barato, mas eu não consigo lembrar desse dia. Talvez seja sequela da Covid-19, talvez seja mera falta de comunicação.

Resumindo: tive que andar mais meia hora a pé - porque não quis pedir um uber de um mercado em direção ao outro - para chegar onde estava o meu irmão. Na hora eu posso ter ficado um pouco irritado, mas essa pequena caminhada me fez rir da situação e ter a certeza de que isso viraria crônica.

Uma pequena falta de comunicação que normalmente se faz desnecessária. Por óbvio deveríamos ter ido ao mercado que é perto do trabalho do meu irmão para evitar gastar sola de sapato. Por outro lado, o mercado mais longe é bem mais barato.

Até agora não consegui concluir de quem foi o erro e deixo para o julgamento do leitor. Meu irmão jura que ele está certo, talvez esteja mesmo. 

Sigamos firmes!

Thailan de Pauli Jaros

06OUT2021