Fiquei um tempo considerável em frente à tela do computador pensando em como começar esse texto. Muita gente está até agora paralisado em algum lugar pensando em como começar o ano. Enquanto guardávamos a louça do reveillon, o carnaval nos bateu à porta.
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Aqueles que criticam as festas carnavalescas (com alguma razão) aguardam ansiosamente a data para falar que o brasileiro só começa a trabalhar em março. Já os que gostam da festança (com alguma razão) assoviam, nem tão baixinho assim, as marchinhas repetidas há séculos nos bloquinhos inundados de fantasias.
Sobre a fantasia devo falar em outra crônica. As matinês, já fora de moda, passam com alegria e sorrisos opacos. A marchinha nos fala "tanto riso, oh! quanta alegria, mais de mil palhaços no salão". Afinal, nem sou eu que estou dizendo, são os próprios foliões.
A música também diz que o malandro do Arlequim chora de amor pela Colombina, e que no ano anterior era o tal do Pierrot. A Colombina, coitada, deve ter ficado confusa. Eu também, e certamente o leitor.
Antes de avançarmos no texto, vamos -tentar- explicar os personagens da comédia italiana. Pierrot é o palhaço sentimental, Arlequim o bobo da côrte e a Colombina o epicentro do triângulo amoroso. Como na Quadrilha do Drummont, podemos dizer que Pierrot amava a Colombina, que amava o Arlequim.
Uma pesquisa mais aprofundada pode fazer-nos concluir quem era o amor do Arlequim, mas a música citada acima afirma que ele chora pelo amor da Colombina, o que faz da tragédia um círculo perfeito.
Não deu pra entender nada, né? Não tem problema, é carnaval. Mas vamos em frente porque o tempo urge e a Sapucaí é grande. O folião mais aplicado não vai nem perder tempo lendo essa crônica, afinal, já está rodando de bloco em bloco nas grandes festas proibidas pelos protocolos de saúde.
Eu passei na frente de uma casa de shows em que uma fila se formava e girava a esquina. Praticamente todas as pessoas usavam alguma fantasia, embora muito curtas para concluírmos que ali havia alguma roupa. Nesse instante eu pensei em como esses sorrisos estariam no dia depois do carnaval.
Talvez tenha sido um julgamento, talvez uma constatação. O carnaval precede momentos profundos de meditação, retiros e muito silêncio. É um contraste interessante entre as festas da terça-feira e o silêncio da quarta de cinzas.
A profundidade dos quarenta dias logo após o carnaval encontra a superfície deixada pelos foliões. Já muito banalizado nos últimos anos, o amor apanha em gestos supérfluos, conversas inúteis e atos fúteis. Ah, o amor. Tantas vezes citado, poucas vezes sentido.
O amor definitivamente não vai ser encontrado em uma matinê carnavalesca, para a tristeza dos Arlequins. Ali só se encontram superfícies que transbordam o vazio de algo que não sabem nem o que é. O amor, o verdadeiro, é encontrado no silêncio, no sopro do vento, em uma conversa agradável.
O amor ainda pode ser encontrado nos bosques, nas ruas ou em conversas nos parques onde as horas talvez esqueçam de passar. Para finalizar, antes que eu fale mais bobagens, nossos queridos palhaços mencionados acima ainda têm a chance de dar um sentido para sua vida.
Nos próximos quarenta dias viveremos tempos que nos possibilitam olharmos para dentro de nós mesmos, não de maneira egoísta. Mas com o único objetivo de sermos melhores, mais humildes, mais humanos. É isso. Felizmente não fomos criados para sermos animais, guiados por instintos primitivos que nos tornam escravos de nossa própria vontade.
Somos capazes de alcançar coisas que nem podemos imaginar, mas para isso temos que ordenar nossas desordens, aperfeiçoar nossas qualidades e arrancar nossos defeitos. Um coração puro é capaz de elevar-se acima de todas as coisas, mas para isso deve fazer-se pequeno aos olhos do mundo.
Por isso, meus grandes amigos, a quem carinhosamente chamo de palhaços, sejamos nós os Arlequins, os Pierrots ou as Colombinas, mas deixemos de nos comportar feito animais. Porque quando o carnaval passar, não é no mundo que vamos encontrar conforto.
Thailan de Pauli Jaros
27FEV2022
P.s. Publico o texto no domingo de forma proposital, porque sei que as festas não acontecem somente na terça. Tudo acaba em samba, é sempre carnaval.