segunda-feira, 13 de julho de 2020

Problemas sempre existiram/ão


Dia desses fui ao mercado para comprar algumas coisas para passar a semana. Casualmente vi que o ketchup de um quilo estava em promoção. Valia mais a pena comprar um quilo, do que pagar dois ou três reais mais barato para levar o de duzentas ou trezentas gramas. Mas o resto da história você verá ao longo do texto. E fará mais sentido.

Sempre tive um pouco de agonia de quem comprava - sem querer- o refrigerante zero porque não via o rótulo cinza. Sempre impliquei com quem comprava - sem querer- algum produto estilizado sem prestar atenção que ao lado estava o tradicional. Sempre reclamei de quem - sem querer- abria o pacote de ponta cabeça. Sempre duvidei do caráter de quem- sem prestar atenção na tampa verde- levava para casa o ketchup picante no lugar do ketchup normal. Eu levei o ketchup picante.

Alguns momentos da nossa vida deixamos de prestar atenção em detalhes que não podem passar despercebidos. Temos que zelar pelas pequenas coisas, por uma rotina, um cuidado especial para aquilo que fazemos sempre. De modo algum podemos viver a vida sem prestar atenção no que estamos vivendo.

Vamos lá. Quando começamos a prestar atenção nas contrariedades do dia-a-dia é que percebemos que reclamamos demais de coisas poucas. Só fui ver que tinha comprado o ketchup errado dois dias depois, quando abri a geladeira e vi a tampa verde. Se o Raul Seixas - pra ficar no exemplo mais popular- diz que é de batalhas que se vive a vida, devemos aceitar nossas contrariedades diárias sempre com um sorriso no rosto.

Ninguém suporta os fracos. Sobretudo aqueles que não fazem nada para se fortalecer. Vamos primeiro arrumar a casa, limpar a alma para depois enfrentarmos o inimigo nessa guerra infinita que chamamos de vida. Enfrentar nossas próprias fraquezas não é fácil, mas tudo que vem fácil - normalmente- não vale a pena.

Todo santo dia temos algo que dá errado. Faça o teste. Você acorda de manhã e pensa em tudo o que deve fazer durante o dia. De noite, quando voltar a dormir, pense em tudo que deveria mas deixou de fazer porque não conseguiu. Pense em tudo que saiu diferente do que você imaginava.

É o chuveiro que queimou no dia mais frio do ano, o único prato que quebrou em um pequeno momento de bobeira, o pão que seria teu jantar e não tinha no mercado, o gás que acabou no meio da produção do almoço, a tempestade que veio e destruiu os postes te deixando sem luz e sem bateria no celular, impossibilitando de conversar com aquela pessoa que te esperava.

Algumas coisas fogem de nosso controle, outras não. Algumas coisas são escolhas nossas, outras não. Vivemos de contrariedades e não podemos lutar contra elas. O mundo não funciona assim. Para cada contrariedade um oferecimento. Para cada coisa ruim, uma coisa boa. Pronto. Estaremos fortes e preparados. Tá afim de encarar?

Se o chuveiro queima tome um banho gelado. Se o prato quebrou jogue-o no lixo e use uma panela. Se não tem pão coma uma fruta. Se o gás acabou use o microondas ou invente outra solução. Se está sem luz faça um jantar a luz de velas. Para cada problema uma - ou muitas- solução. Lembre-se: Se podemos resolver não é - e nunca foi- um problema. Se não podemos resolver, vamos em frente.

Pelos próximos meses estou fadado a colocar ketchup picante - do qual não sou muito fã- nas comidas em que usualmente eu colocava o tradicional. O melhor é parar de reclamar e viver a vida. Limpar a alma, arrumar a casa e se preparar para o mundo, cruel e sanguinário, que nos espera. Não sejamos chatos, sejamos fortes.

(*)

Em outubro do ano passado, em um de meus melhores e mais inspiradores dias, escrevi uma espécie de poema sobre algumas coisas que estavam em minha cabeça. Revisitanto meus escritos em tempos de pandemia, vi que o texto de outubro caiu como uma luva para a situação que estamos vivendo. Vou postar aqui, mas já adianto que nada está pronto, foi apenas um pequeno poema escrito no borrão de um caderno durante um dia tedioso.

A explosão da usina
A passagem pra China
A expressão da menina
Parada na esquina

A explosão na usina
O vazamento do vírus
A promessa da cura
A construção da usina

A passagem pra China
A viagem dos sonhos
O compromisso estatal
O escravo na China

A expressão da menina
Coroada com a morte
Maconha, crack, cocaína
A corrupção da menina

Parado na esquina
semáforo vermelho
A bolsa balança
Na mão da esquina.

(*)

Eu ando na rua e fico prestando atenção na multidão em minha volta. Olha aquele com máscara na mão, olha aquele que não cobre o nariz e aquela que tirou a máscara para fumar e assoprar a fumaça na minha cara. E essa família que veio passear no centro? Cadê a tua máscara, menina?

Eu vou no mercado e fujo da aglomeração com o pensamento de que as pessoas não levam o problema a sério. Por que você não pisa na fita de distancimento da fila, homem?

Você já reparou que um problema sanitário acarretou em um grave problema social? Nós estamos nos julgando o tempo todo. Nossos pensamentos mesquinhos afloraram desde o começo da pandemia  e estamos felizes por isso. Nós julgamos aqueles que precisam sair de casa para trabalhar, nós julgamos aqueles que vão no mercado enquanto nós também precisamos fazer compras.

Do alto de nossos egos cheios de certezas nós não entendemos como as pessoas não querem ficar em casa. Do centro de nossos umbigos nós julgamos aqueles que tentam a salvação com um simples remédio. Nós sabemos de tudo, eles não sabem de nada.

Afinal de contas, eu sei que eles têm razão, mas a razão é só o que eles têm.

Calorosos abraços
Thailan de Pauli Jaros
13JUL2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Nossos Carros em estradas escuras

São tempos difíceis. As vezes me pego parado pensando, se estou vivendo o mesmo dia repetidamente. Nunca pensei que sentiria falta das obrigações e problemas que enfrentava, antes da Pandemia. O fato de já saber que o amanhã não será diferente, não trará algo novo, já torna esses tempos de isolamento mais complicados de enfrentar. É curioso, pois o ser humano tende a acreditar que ter o controle de tudo, saber o que vai acontecer amanhã e depois de amanhã, é um dos vários traços de uma rodovia que tem o destino final na felicidade e na segurança.
Mas o que nesses tempos de confinamento vem nos mostrando, é como ter a ciência do que vai acontecer não é um fator tão confortável. São dias cansativos, sensíveis. Acredito que o déimo nono ano do século XXI, o primeiro da nova década, nos fará repensar muitas coisas. Muitas coisas...
Para fugir um pouco dessa loucura, costumo as vezes pegar o carro, e ir dar uma volta pela cidade, para relembrar como é a vida lá fora. Como a cidade ainda respira, os novos rostos agora marcados pelas máscaras surgem na paisagem urbana. Em um desses dias, decidi realizar uma rota diferente. Dessa vez, segui o trajeto mais distante da cidade, em uma estrada municipal que liga com os bairros rurais e cidades vizinhas. O relógio que se encontra acima do velocímetro e marcador de gasolina, marcava as 18h34min. Agora, no inverno, o sol se esconde mais cedo do que o de outras estações, portanto a minha rodagem já invadia a noite. Não sou acostumado a dirigir de noite em estradas que permitem velocidade maior, e com este período de isolamento, as estradas estão vazias. Olhava a frente, e só via um palmo a frente do carro. Mais que isso, era escuridão e um total ponto de interrogação. Não enxergava nada além do que a iluminação do carro apontava. O que seguia ali para mim, era  uma incógnita.
Incógnita que me fez refletir. Não enxergava nada do que vinha depois, curva após curva, acostamento após acostamento. Me fez perceber, como a estrada pode ser uma metáfora simbólica do que vivemos. Enxergamos o amanhã, mas não conseguimos avistar daqui há um mês, um ano. Curiosamente parecido com o que passei ali naquela estrada. Enxergava ali no que conseguia iluminar. Depois, não sabia muito bem o que viria. Nessa nossa estrada, como conseguir saber o que vem além do que enxergamos? Como saber como estaremos na próxima cidade que nosso carro chegará? Nesse isolamento, vivemos talvez um dos momentos mais perplexos do século. Relações foram cortadas, sonhos foram pausados. Promessas tiveram que esperar, amores tiveram que se separar.  Projetos terão que aguardar. Assim com a estrada que percorri, está difícil de enxergar mais a frente, de planejar a nossa viagem.
Mas, mesmo sem enxergar o que vinha depois do que a luz do carro conseguia iluminar, eu segui. Dirigi em uma velocidade segura, com mais atenção. E quando percebi, havia chegado em um trecho mais iluminado. O caminho não era mais, tão escuro. Isso me fez perceber, que quanto mais escuro e longe da luz as coisas pareçam ser, uma hora a luz ressurge. E acredito que, mesmo agora, enxergar esteja difícil, lá na frente encontraremos de volta uma rota mais iluminada. Encontraremos trechos melhores, lugares melhores. Poderemos descer do carro, olhar a nossa volta com mais segurança. Poderemos retomar projetos, seguir com os sonhos. Poderemos reajustar nosso carro, reabastecer. Assim, possamos seguir com nossa estrada, em busca dos lugares que queremos chegar.

terça-feira, 31 de março de 2020

Nós e nossas circunstâncias


Caro leitor, há quanto tempo, não? 

O tempo passou tão rápido e tantas coisas aconteceram que não sei nem por onde começar. São tempos difíceis, conturbados. Por alguns instantes esquecemos do que realmente importa e nos damos conta de que estamos brigando mais uma vez. É o vizinho que aumentou o volume do som, é o político que falou bobagem, é o outro que respondeu. Ufa, são tantas coisas. São tempos difíceis.

Mas do limão pode sair uma limonada. Enquanto não podemos abraçar quem amamos, estar perto dos nossos e percorrer caminhos seguros, podemos aproveitar para refletirmos sobre nossas próprias vidas. Abraçar a nós mesmos, estar perto de nós mesmos e reposicionar o coração. A realidade nos impôs uma condição e estar nela não é nossa escolha. São tempos difíceis.

Mas reposicionar o coração não é só questão de estar bem consigo mesmo. É parar para respirar, tentar experimentar a serenidade, deixar de julgar as ações dos outros, deixar de rotular as pessoas e observar o mundo a sua volta. Observar o que acontece no entorno, perceber o vento batendo na janela, o passarinho cantando, a folha caindo no chão e aquele único pingo caindo na terra seca no início da chuva.

Observar o mundo que nos cerca e nos cercar da beleza que o mundo oferece. Quantas vezes já repeti que o caminho é tentar enxergar a beleza no caos? São tempos difíceis, mas a dificuldade só é superada se passarmos serenos e enfrentarmos com a cabeça erguida, sem mesquinhez. 

São inúmeras as discussões - e todas válidas- sobre a melhor forma de passarmos pelo aperto que a realidade - mais uma vez- nos impôs. São inúmeras as discussões. Mas são inúmeras as formas serenas de encarar essa mesma realidade. Poderia dar muitos bons exemplos de como as pessoas estão encarando o tal "isolamento forçado", como as cantorias nas janelas, a aproximação das famílias, os atos de caridade, as ações de piedade.

Mas todos esses exemplos se resumem em uma imagem que não me sai da cabeça. Em um momento desolador, o mundo ficou aflito ao ver o Papa Francisco sozinho na Praça de São Pedro. Ao dar a benção, em um ato de piedade, o Santo Padre pediu a salvação da humanidade ao Único que pode salva-la. Em um ato de caridade, o Papa atravessou a Praça abaixo de chuva para provar que ninguém precisa temer. Em um ato de fé emocionou o mundo inteiro ao provar que um momento desolador pode servir de consolo a toda uma humanidade.

Reposicionar o coração é servir, é não reclamar, é fortalecer a fé, é aceitar a realidade. É fazer do limão uma deliciosa limonada. São tempos difíceis. São tempos consoladores.

Aguenta firme. Tudo vai passar!
Thailan de Pauli Jaros
31MAR2020


sábado, 22 de fevereiro de 2020

Quando o Carnaval chegar




Vou tirar as fantasias empoeiradas do armário. Com a máscara de sempre, estarei cima do trio elétrico só para ver as outras caírem. Desta vez eu chego na hora. Quero ver as avenidas se fechando, as escolas aquecendo e as bandeiras tremulando no ar. Vou sentir o cheiro da alegria adiada enquanto passeio vagarosamente pela multidão abafada só para te ver desfilar.

Quando o carnaval chegar eu quero estar pronto. Quero dançar tudo que eu nunca dancei, cantar o que nunca cantei, chorar como nunca chorei. É por isso que eu tenho me guardado em comodismo durante todo esse tempo. Nada vai importar como antes e a cadência do batuque deve afagar esses batimentos cardíacos antes tão acelerados. Com a beleza do teu desfile, para sempre eu não poderei estar. Em algum momento terei de ir embora... outro que tome meu lugar.

Assim que a luz apagar e o povo sumir, juntarei os meus retalhos de cetim espalhados pela avenida. Aos poucos o samba vai se calar e eu vou esquecer de todos os olhares que passaram tão próximos dos meus, como se não fossem nada. Conforme a solidão dos meus dias regresse, também não vou lembrar do beijo molhado de maracujá. Teu desfile não passará de uma vaga lembrança nos furos da minha máscara. Talvez ela reapareça de vez em quando, ou quando o carnaval chegar. Nos meses mais frios, estarei me guardando. Você sabe onde me encontrar.

sábado, 11 de janeiro de 2020

O Eterno Retorno


Alguém uma vez disse que a vida nada mais é, do que um eterno retorno. Tudo aquilo que você já viveu tende a se repetir em um ciclo infinito. Em outras palavras, a gente respira sempre a mesma vida, com todas as suas mazelas, torturas e incoerências. A morte não é um fim. Trata-se apenas de mais um passo em direção aos momentos mais grandiosos ou medíocres de nossa existência. 

Felizes aqueles que encontram nos detalhes vida, a magia necessária para seguir em frente. Afinal, maior prova de amor não existe. Aceitar que a vida será sempre a mesma não deve ser um fardo, e sim, a mais sublime das plenitudes. 

A teoria supõe que há um número finito de maneiras em que os acontecimentos podem ser arranjados no universo, logo, eles tendem a se repetir após vastas eras de tempo. Os ciclos solar e lunar se sincronizam a cada 33 anos, por exemplo. Exatos 38 anos depois, a história se repetiu.

Se viver infinitamente as mesmas coisas significasse contemplar as estrelas, a calmaria do oceano, o amor verdadeiro e os três minutos finais daquele jogo do dia 23 de novembro, eu aceitaria para sempre o meu destino.



No mesmo dia, em novembro de 1981, um esquadrão liderado por um ser divino conquistava a América. Naquele dia, um garoto sentava-se em frente a TV. Com os olhos atentos, ele observava as passadas largas de Adílio, a técnica indefectível de Junior e os toques de classe de uma certa entidade. Quando Deus anotou aqueles os dois gols no Estádio Centenário, em Montevidéu, o universo encontrava novamente seu estado de equilíbrio. O rubro-negrismo havia se reencontrado.

O menino agora já é homem e conhece de cor o roteiro. Ele estava sentado ao lado do filho quando o garoto com nome de anjo fez com que a energia do cosmos voltasse a fluir. Entre lágrimas e sorrisos os dois se abraçaram. Na pausa do choro incessante do mais novo, o pai fala:

“Agora você entende, meu filho. É por isso que sou Flamengo”.



Neste instante, o filho se lembrou que cada balançar de redes comemorado até ali. Lembrou-se dos milagres de Diego, da entrega de Rodrigo, da classe de Pablo, da raça de Rafael, da inteligência de Filipe, do controle de Gerson, da superação de Willian, dos dribles de Everton, da maestria de Giorgian, da liderança de Diego Ribas, do poder decisivo de Bruno e dos gols de Gabigol.

Tudo estava bem de novo, e assim estará por toda a eternidade. Um ciclo infinito. Um eterno retorno.

P.s: Fotos meramente ilustrativas.

Allyson Santos
11NOV2020

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Um tolo em busca de ouro


"Eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar", cantou Raul Seixas em "Ouro de tolo", famosa música lançada nos anos 1970 do século passado. Hoje, na virada de ano e início dos anos 2020 ainda permanecemos conformados com o mundo que nos cerca. É isso mesmo, não há o que fazer.

Nossos dentes já caíram, o apartamento está uma sujeira e o trono nem existe mais. Aos poucos nós vamos morrendo no conformismo de nossas rotinas e aquela "porção de coisas" que tínhamos para conquistar vai ficando para trás como as árvores passando na rodovia.

Eu que não me conformo com o conformismo tento começar o ano com metas bem claras. Sei que é clichê mas me parece que o Zeca Pagodinho não estava totalmente certo quando cantou "deixa a vida me levar". Ora, cadê os planos? Cadê a lista de conquistas? Onde estão as medalhas de ouro?

Vamos lá. Sem essa de encher o saco. Pare para pensar qual é a tua situação, onde você está, o que fez para chegar até aqui. Quantas vezes errou, quantas acertou, o que te fez continuar em frente. Isso que vale a pena. O resto é detalhe.

Ao pesquisar sobre a música de Raul Seixas, encontrei o verdadeiro nome do popularmente conhecido ouro de tolo. Me diz o site Brasil Escola que o mineral do enxofre é denominado de "pirita", uma pedra com aspectos que lembram o ouro nativo e que enganam os - aqui chamados - tolos. Entretanto, o ouro de tolo não tem o mesmo valor do verdadeiro ouro.

Nos resta pensar se em 2020 queremos correr atrás da verdade para podermos crescer e amadurecer ou se devemos nos contentar com combinações quase-perfeitas e imitações duvidosas. Eu confesso, não quero me decepcionar. 

Vem ni mim 2020
Thailan de Pauli Jaros
01JAN2020