Dia desses fui ao mercado para comprar algumas coisas para passar a semana. Casualmente vi que o ketchup de um quilo estava em promoção. Valia mais a pena comprar um quilo, do que pagar dois ou três reais mais barato para levar o de duzentas ou trezentas gramas. Mas o resto da história você verá ao longo do texto. E fará mais sentido.
Sempre tive um pouco de agonia de quem comprava - sem querer- o refrigerante zero porque não via o rótulo cinza. Sempre impliquei com quem comprava - sem querer- algum produto estilizado sem prestar atenção que ao lado estava o tradicional. Sempre reclamei de quem - sem querer- abria o pacote de ponta cabeça. Sempre duvidei do caráter de quem- sem prestar atenção na tampa verde- levava para casa o ketchup picante no lugar do ketchup normal. Eu levei o ketchup picante.
Alguns momentos da nossa vida deixamos de prestar atenção em detalhes que não podem passar despercebidos. Temos que zelar pelas pequenas coisas, por uma rotina, um cuidado especial para aquilo que fazemos sempre. De modo algum podemos viver a vida sem prestar atenção no que estamos vivendo.
Vamos lá. Quando começamos a prestar atenção nas contrariedades do dia-a-dia é que percebemos que reclamamos demais de coisas poucas. Só fui ver que tinha comprado o ketchup errado dois dias depois, quando abri a geladeira e vi a tampa verde. Se o Raul Seixas - pra ficar no exemplo mais popular- diz que é de batalhas que se vive a vida, devemos aceitar nossas contrariedades diárias sempre com um sorriso no rosto.
Ninguém suporta os fracos. Sobretudo aqueles que não fazem nada para se fortalecer. Vamos primeiro arrumar a casa, limpar a alma para depois enfrentarmos o inimigo nessa guerra infinita que chamamos de vida. Enfrentar nossas próprias fraquezas não é fácil, mas tudo que vem fácil - normalmente- não vale a pena.
Todo santo dia temos algo que dá errado. Faça o teste. Você acorda de manhã e pensa em tudo o que deve fazer durante o dia. De noite, quando voltar a dormir, pense em tudo que deveria mas deixou de fazer porque não conseguiu. Pense em tudo que saiu diferente do que você imaginava.
É o chuveiro que queimou no dia mais frio do ano, o único prato que quebrou em um pequeno momento de bobeira, o pão que seria teu jantar e não tinha no mercado, o gás que acabou no meio da produção do almoço, a tempestade que veio e destruiu os postes te deixando sem luz e sem bateria no celular, impossibilitando de conversar com aquela pessoa que te esperava.
Algumas coisas fogem de nosso controle, outras não. Algumas coisas são escolhas nossas, outras não. Vivemos de contrariedades e não podemos lutar contra elas. O mundo não funciona assim. Para cada contrariedade um oferecimento. Para cada coisa ruim, uma coisa boa. Pronto. Estaremos fortes e preparados. Tá afim de encarar?
Se o chuveiro queima tome um banho gelado. Se o prato quebrou jogue-o no lixo e use uma panela. Se não tem pão coma uma fruta. Se o gás acabou use o microondas ou invente outra solução. Se está sem luz faça um jantar a luz de velas. Para cada problema uma - ou muitas- solução. Lembre-se: Se podemos resolver não é - e nunca foi- um problema. Se não podemos resolver, vamos em frente.
Pelos próximos meses estou fadado a colocar ketchup picante - do qual não sou muito fã- nas comidas em que usualmente eu colocava o tradicional. O melhor é parar de reclamar e viver a vida. Limpar a alma, arrumar a casa e se preparar para o mundo, cruel e sanguinário, que nos espera. Não sejamos chatos, sejamos fortes.
(*)
Em outubro do ano passado, em um de meus melhores e mais inspiradores dias, escrevi uma espécie de poema sobre algumas coisas que estavam em minha cabeça. Revisitanto meus escritos em tempos de pandemia, vi que o texto de outubro caiu como uma luva para a situação que estamos vivendo. Vou postar aqui, mas já adianto que nada está pronto, foi apenas um pequeno poema escrito no borrão de um caderno durante um dia tedioso.
A explosão da usina
A passagem pra China
A expressão da menina
Parada na esquina
A explosão na usina
O vazamento do vírus
A promessa da cura
A construção da usina
A passagem pra China
A viagem dos sonhos
O compromisso estatal
O escravo na China
A expressão da menina
Coroada com a morte
Maconha, crack, cocaína
A corrupção da menina
Parado na esquina
semáforo vermelho
A bolsa balança
Na mão da esquina.
(*)
Eu ando na rua e fico prestando atenção na multidão em minha volta. Olha aquele com máscara na mão, olha aquele que não cobre o nariz e aquela que tirou a máscara para fumar e assoprar a fumaça na minha cara. E essa família que veio passear no centro? Cadê a tua máscara, menina?
Eu vou no mercado e fujo da aglomeração com o pensamento de que as pessoas não levam o problema a sério. Por que você não pisa na fita de distancimento da fila, homem?
Você já reparou que um problema sanitário acarretou em um grave problema social? Nós estamos nos julgando o tempo todo. Nossos pensamentos mesquinhos afloraram desde o começo da pandemia e estamos felizes por isso. Nós julgamos aqueles que precisam sair de casa para trabalhar, nós julgamos aqueles que vão no mercado enquanto nós também precisamos fazer compras.
Do alto de nossos egos cheios de certezas nós não entendemos como as pessoas não querem ficar em casa. Do centro de nossos umbigos nós julgamos aqueles que tentam a salvação com um simples remédio. Nós sabemos de tudo, eles não sabem de nada.
Afinal de contas, eu sei que eles têm razão, mas a razão é só o que eles têm.
Calorosos abraços
Thailan de Pauli Jaros
13JUL2020







