quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Senão você dança

 


Hora de ir pra casa. Hoje eu fiz um pouco mais do que devia...Ok, talvez muito mais do que eu devia. Tomei café com muito açúcar. Adiantei algumas coisas do trabalho na parte da manhã. Coloquei uma música com uma batida legal e triste ao mesmo tempo no carro. Não ouvi nenhum um obrigado, muito menos aquele “Eu te amo” (que eu nunca ouvia e ainda fiz questão de perder). Não lembro de absolutamente nada do que eu escrevi. Cheguei cedo e saí atrasado.

No caminho de volta, passei pelo último semáforo antes de casa e avistei um grupo de jazz. Eram pelo menos umas 20 pessoas, todas mais ou menos da mesma idade. Eles ensaiavam uma coreografia no meio de uma viela escura. Naqueles poucos segundos que fiquei olhando, tudo parecia muito sincronizado. Eles sorriam. Quando atravessei com o carro, todos saíram da frente, mas ninguém ficou chateado, eu acho (se você faz parte, fui eu que passei na esquina do Sepam com um Pálio Branco). Pensei em buzinar, mas como eu já tinha atrapalhado, não vi muito clima.

Cheguei em casa e fiquei sentado no escuro da garagem, desta vez mais que o normal. Fui dormir pensando que, de um jeito ou de outro, com segurança ou insegurança, a gente sempre acaba dançando. No fim, a gente só escolhe como e quando. Coragem e força pra você, que ainda tem tempo pra dançar jazz, falar mais "Eu te amo" para as pessoas e colocar menos açúcar no café.

Eu até ia escrever sobre outra coisa, mas que moral eu tenho pra falar de rotina? A propósito, só acho que era jazz porque estava escrito na camisa da instrutora de dança.


ALLYSON SANTOS

27 DE JANEIRO 2021

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Aconteceu em Ponta Grossa

Por Paulo Rogério de Almeida

Há uns vinte anos, aproximadamente, eu estava em minha casa quando recebi a visita de um senhor muito distinto, amigo da minha sogra, que tinha vindo convidá-la para sair.

Conversa vai, conversa vem, não sei como o “papo” chegou ao assunto “viagens” e, por extensão, em seguida, chegou-se à “aviação”. Esse senhor, cuja idade não mencionarei, comentou que ainda usava calças curtas e se lembrava da visita do aviador Alberto Santos Dumont à nossa cidade. E explicou que os ponta-grossenses, da época, quase passaram um tremendo “carão” (uma enorme vergonha), diante de uma pessoa tão ilustre e famosa.

E, diante do interesse geral dos presentes, relatou que, após o memorável feito do brasileiro em terras europeias, Ponta Grossa resolveu homenageá-lo, dando seu nome a uma rua. Escolheram uma das ruas mais centrais e assim ficou. Passou-se certa quantia de tempo e nada do homenageado aparecer. Claro, estava muito ocupado na Europa com outros projetos.

Mais algum tempo depois, aconteceu o falecimento de um ilustre político, o Senador Pinheiro Machado. Como era necessário prestar uma homenagem ao emérito cidadão, pensou-se, naturalmente, em nome de rua. Só que tinha que ser “aquela” rua! Porque justamente “aquela” rua, eu não sei explicar (minha pesquisa não achou o motivo e as pessoas que entrevistei também não souberam me dizer). O fato é que, com o argumento de que Santos Dumont ainda estava vivo e o outro não, retiraram as placas da então Rua Santos Dumont e colocaram-nas na atual Rua Pinheiro Machado (que, na época, tinha outro nome).

Todo mundo feliz até que, em 04 de maio de 1916, finalmente chegou à nossa cidade o famoso aviador Alberto Santos Dumont. Pelos relatos que obtive, foi uma recepção bem calorosa, com uma verdadeira procissão, constituída de carros, bicicletas e carroças, desde a entrada até o centro da cidade. Carroças? Bicicletas? Aí, você acha que eu exagerei, não é mesmo? Bem, vamos esclarecer que, em 1916, os carros não eram propriamente uns bólidos; talvez “corressem” a uns dez ou vinte quilômetros por hora. Poderiam perfeitamente ser acompanhados por bicicletas e carroças.

Segundo eu soube, no dia seguinte, 05 de maio, a convite do deputado Eliseu Campos Melo, foram visitar a Fazenda Modelo. No retorno, o deputado quis fazer uma gentileza, convidou Santos Dumont a conhecer a rua que levava o seu nome (nome do aviador, não do deputado, esclareça-se) e disse para o motorista: “Fulano, por favor, leve-nos à Rua Santos Dumont. Basta subir a Avenida Vicente Machado e dobrar à esquerda”. (Observação: na época, a Avenida tinha duas mãos). Creio que o motorista “sacou” que o deputado não estava a par das mudanças havidas, mas, como ordem é ordem, fez o que foi solicitado e estacionou o carro em frente de uma loja de ferragens chamada “Casa Osternack”.

Todos desceram e, muito orgulhoso, o deputado começou a falar e se engasgou, porque todos puderam ver, em letras bem legíveis: “Rua Senador Pinheiro Machado”.

E agora?

O motorista, muito esperto, percebendo a confusão que o deputado criara sem querer, salvou o dia, dizendo: “Puxa, que distração a minha, senhor deputado! O senhor falou Rua Santos Dumont e eu vim para o lado errado! Desculpe-me! Vamos embarcar novamente! Desta vez, não errarei!”.

Dito isso, todos voltaram a seus carros e se dirigiram para a atual Rua Senador Pinheiro Machado, onde os membros na grande comitiva e o homenageado, é claro, puderam ver, claramente, as placas onde estava escrito: “Rua Santos Dumont”.

Não preciso dizer que, algum tempo depois, quando a “poeira” assentou e não mais se comentava a “gafe”, as placas foram trocadas.

Um adendo: que lástima não termos mantido, em nossas memórias, outros fatos, engraçados ou tristes, que marcaram a história de nossa cidade.

Outro adendo: certa vez, apesar da minha disciplina ser Literatura Brasileira, nos Cursos de Letras, fiz um comentário em sala de aula e, para minha surpresa, uma das minhas alunas, uma senhora, confirmou os fatos relatados. Ela conhecia todos os detalhes, simplesmente por ser neta daquele motorista. Que notável coincidência, não?

(Crônica publicada na Revista DUO [revistaduo.com.br], Ponta Grossa, n. 2, p. 70, outubro/novembro 2012).

Paulo Rogério de Almeida é professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa

(*)

Comentário do blog: Há algum tempo pedi para o professor Paulo, meu professor de português, mandar uma de suas crônicas para publicarmos aqui no blog. Ele, muito simpático e atensioso, aceitou e nos enviou a divertida história da visita de Santos Dumont a Ponta Grossa. Agradeço ao professor e ressalto publicamente que o espaço sempre estará aberto para outras histórias.

Boa semana!
26JAN2021
Thailan de Pauli Jaros

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Mosca

 



Já tem me incomodado faz um tempo. Coisa de alguns meses e poucas horas. Começou numa daquelas noites quentes de verão que, cá entre nós, eu nunca gostei. Foi nesse dia que ela apareceu pela primeira vez. Chegou devagarinho, igual gente tímida que precisa puxar assunto com o motorista do ônibus pra saber onde descer, e veio até o meu ouvido como quem quer contar um segredo. Ela nunca mais foi embora.



A mosca tirou meu sono naquela noite que eu tinha programado de esquecer dos problemas do meu mundo. Era uma noite tão perfeita… Eu tinha tudo sob o meu controle, mas ela não queria saber. Naquele dia, eu me levantei, acendi todas as luzes do quarto pra dar um fim em tudo. Com a luz, ela desapareceu. Bastava eu me deitar, para que aquele zumbido infernal voltasse aos meus ouvidos. Desde então, nesse ritmo frenético de looping, fluem as nossas conversas noite adentro, dias afora.



Quando você tem uma mosca te perturbando sempre, os dias começam a parecer cada vez mais iguais. Os textos que você escreve são os mesmos. As piadas preconceituosas, a procrastinação, os pecados, as infidelidades. Tudo parece estar sempre ali, no seu ouvido. Não tem nada que você possa fazer. Você começa a achar que tudo é uma grande coincidência, uma pegadinha ou só mais um episódio mal escrito da vida idêntica que você insiste em levar, mas fica pior. Comigo, ficou. O problema mesmo começou por volta do terceiro mês.



A mosca começou a aparecer em outros momentos do meu dia. Quando eu comi um pouco a mais no almoço, ela estava na cadeira da frente, esfregando aquelas mãos frias de quem se alimenta de sangue. Quando eu ofendi alguém no trânsito enquanto mexia no celular, ela aparecia no retrovisor. Quando eu respondia àquelas mensagens, ela me torturava de orelha a orelha.



Na última vez que fui à igreja, a mosca também estava lá. Ela pousou em um daqueles fios que as paróquias estão usando pra separar os assentos. A mosca estava bem na minha frente, mas nesse dia, eu não senti ódio dela. Ficamos nos encarando por um tempo, como se tentássemos descobrir o que havia de errado um com o outro. Não brinco, ela ficou ali por pelo menos uns 20 minutos. Eu não senti vontade de matá-la. De alguma forma, queria que ela me desse respostas para tudo que está acontecendo. Uma resposta para as pessoas que eu magoei, para o tempo que eu perdi e para os pecados que cometi.



Ela não me disse nada, mas eu pude ver a dor daqueles grandes olhos e, no fim, descobri que somos iguais. A busca por atenção, o voo sobre os defeitos fétidos dos nossos inimigos, a insignificância, o bater de asas sem rumo e a solidão interna e eterna. Hoje? Hoje ela ainda está aqui. Dentro da insônia dos meus dias, ela está cada vez mais presente. Conforme as pessoas vão embora, mais moscas eu vejo. Deus, estou vendo tantas moscas desde que ela foi embora... Acho que preciso decidir entre ser uma delas de vez… ou não. Talvez eu tenha que tomar mais banhos também.


Allyson Santos

20 JAN 2021


P.S. Não sei mais mexer aqui, mas meus textos vão sair sempre nas quintas pra não encavalar com os do mestre Thailan. O horário depende do nível de tragédias que acontecerem em PG e região. Saudações!

Orgulho e Preconceito


Pobre de nós. Chega a ser engraçado como dificultamos nossas vidas impondo regras desnecessárias, procurando mentiras improvisadas, fingindo ser alguém que nunca existiu e moldando nossa realidade através de achismos e desejos idiotas.

Orgulhosos e vaidosos que somos, não enxergamos além do nosso próprio nariz e acreditamos piamente no que dizem a nosso respeito e a respeito de outros. Na maioria das vezes não acreditamos nem no que os nossos próprios olhos estão vendo.

Tive essa pequena reflexão depois de assistir "Orgulho e Preconceito", filme baseado no romence de Jane Austen que retrata a vida da sociedade no século XIX. Mundo diferente do nosso, mas ao mesmo tempo tão parecido. Os tempos mudam, mas os erros e vícios continuam os mesmos.

Não cabe a mim contar a história do filme, mas escrever sobre impressões que tive em minha aventura cinematográfica. Além, é claro, de uma fotografia interessante, o que mais me chamou a atenção foram os intermináveis diálogos entre as personagens. Diálogos esses que eram recheados de tensão, doçura, competição e afeto.

Nossa, mas como misturar tensão com doçura? Competição e afeto? Não sei, só sei que enriqueceu o enredo e tornou a obra belíssima.

Os interesses pessoais tomam conta das personagens, Uma mãe que quer casar as filhas e filhas que querem achar um marido. Homens em busca de mulheres e os protagonistas difíceis de entender.

Isso nos faz lembrar de nossa própria realidade, quais são os nossos sonhos, o que imaginamos para o futuro e como vivemos o presente. Vejamos, é melhor conhecermos nossos próprios defeitos e nossa realidade antes de apontar o dedo para os outros.

E conhecer nossos vícios é também entender a realidade do próximo antes de julgar a partir de impressões ou até mesmo pela ótica dos outros. Assim que conhecemos outras pessoas e deixamos conhecer sem escaras nos olhos, não temos a necessidade de julgamento.

Mesmo assim, as emoções podem tomar conta e logo concretizamos uma opinião negativa sobre quem acabamos de conhecer, ou vimos na rua, ou ouvimos falar. E sabe o que é pior? Não fazemos nada para mudar essa opinião, agimos como se não fosse possível mudar, olhar por outro ângulo, aproximar a lupa.

A verdade é que muitas vezes somos orgulhosos demais para mudar um preconceito. Essa dificuldade em conhecer a realidade (nossa própria e dos outros) nos impede de viver verdadeiramente. Por isso que eu disse no começo do texto que os intermináveis diálogos do filme eram sensacionais.

Somente a conversa interessada pode mudar nossas opiniões já formadas mas que são rasas e cheias de idiotices. Mostrar interesse é ser interessante, deixar o orgulho de lado é provar que podemos ser chamados de homens.

Os tempos são outros, mas os vícios continuam os mesmos. Atualmente não escutamos as pessoas, não abrimos os olhos para os detalhes e só queremos saber do que é fugaz, do que é instantâneo. Pobre de nós que não conversamos mais.


Boa semana, faces

Thailan de Pauli Jaros

19JAN2021

P.S. A partir da semana que vem os textos serão publicados toda terça-feira às 10h.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O começo da nova década

No começo de 2020, publicações festivas e esperançosas davam boas vindas à nova década que se iniciava. Imediatamente o pessoal mais inteligente e sabido das coisas repreendia e ensinava que, na verdade, a nova década só se iniciaria em 2021.

Pois bem, aos trancos e barrancos o tempo passou e a nova década chegou. O primeiro ano dos próximos dez. Mas o que devemos esperar desse longo período que, ao fim de tudo, nos espera? Sei lá.

Uma pequena pesquisa sem nenhuma base teórica, seja lá o que isso significa, me mostrou que as expectativas estão baixas. Eu, um otimista nato, prefiro acreditar nos meus olhos e continuar em frente. As contrariendades (que são muitas) podem fazer parte do caminho. Sem pedras não há atrito e o atrito muitas vezes nos ajuda a caminhar.

É que muitos esperam resolver todos os problemas da humanidade em um piscar de olhos, em uma manifestação de rua, em uma nota de repúdio. Muitos gritam demais, sabem muito, atrapalham de mais. Para manter a serenidade nesse grande big brother em que vivemos, basta nos colocarmos na nossa própria realidade, largar mão da miopia.

Não precisamos enxergar longe, mas prestar atenção nos detalhes de nossa vida. Quem está por perto, quem podemos ajudar, o que podemos fazer por alguém que conhecemos. Essa briga também é minha? Talvez. Talvez não. 

Temos que entender que a felicidade não é momentânea, isso é uma mentira infeliz na moda dos nossos tempos voláteis. Enquanto não fincarmos os pés no chão e construírmos bases fortes, os momentos serão só momentos e logo voltaremos às preocupações mundanas.

Temos que encontrar a felicidade com muito custo, encontrá-la também nas contrariedades, nos problemas e nas nossas próprias misérias. Encontrar forças sobrenaturais para seguir em frente, fortes com um sorriso no rosto.

A ideia é servir, ajudar, não reclamar dos pequenos desgostos e, acima de tudo, aceitar que não somos o centro do mundo, ninguém nos deve nada.

Na nova década podemos ser mais pacientes, falar menos e mais baixo, estar a serviço do próximo e acabar com nossa mesquinhez. É isso. É só isso.


Thailan de Pauli Jaros

12JAN2021