terça-feira, 29 de outubro de 2019

Soneto da Paciência




Nunca fiquei preso nas regras quando escrevo. Sempre escrevo o que tenho vontade. Não sei o que é métrica e a rima é consequência da minha escrita.

Se escrevo sobre liberdade prefiro acreditar que escrevi por vontade própria. Se escrevo sobre prisão prefiro arrebentar as algemas.

Mas há alguns meses tive vontade de escrever um soneto. Passei dias esperando como uma criança espera o Natal. Passei dias pensando, pedindo para que as palavras se encaixassem em poucas estrofes, mas que, no fim de tudo, eu falasse o que queria falar.

Tive medo de me prender em meio às estrofes. Tive medo de cair pelo ridículo e perder as liberdades que o bom português proporciona. Mas tudo que fiz foi esperar.

Até que escrevi. Falei sobre paciência. Falei sobre esperar. No começo não gostei mas dei um tempo para madurar.

Espero que isso faça sentido. Espero pelo próximo soneto.

(*)

Soneto da paciência


Paciente espera para sempre
Ciente sabe que não dá mais
Espera para enfrentar de frente
Enfrenta por esperar demais

Aceita porque quer continuar
Continua por não saber parar
Pára porque precisa de descanso
Descança porque precisa recomeçar

Este ciclo requer paciência
Pedir perdão e resistência
Mas requer amor e atenção

Para que o sentimento floresça
E a fé cada vez mais cresça
É preciso entender um não

Thailan de Pauli Jaros
29OUT2019

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Um estranho na foto de alguém

Foto do compadre Allyson Santos

Eu andava distraído pelos grandes corredores do Santuário de Aparecida quando uma moça me abordou pedindo para eu tirar uma foto de sua família. Ela me entregou o celular já com a câmera aberta e eu, com o maior prazer, procurei o melhor ângulo, a melhor luz e o melhor momento. Mais tarde, eu já estava em outro lugar, um cara me pediu a mesma coisa, que fiz com a mesma vontade.

Coisa louca os dois confiarem seus celulares a um estranho em tempos de roubos e furtos a qualquer momento. Costumam dizer que não se deve confiar em ninguém, mas eles confiaram em mim. Tanto para entregar-me o celular, quanto para registrar um momento, talvez, importante de suas vidas. 

Mas não era isso que eu queria falar. Quando estamos em lugares públicos, com grande número de pessoas, é normal vermos as câmeras ou os celulares em pleno funcionamento. Todos querem eternizar aquele momento para sempre. É o primeiro banho de mar do filho, o passeio no parque com a família, a visita ao Santuário para agradecer o ano que passou.

Em nossas fotos sempre aparece algum estranho que estava no mesmo lugar, ao fundo, rindo, chorando, fazendo careta. Quase sempre o estranho se sai melhor na foto do que a gente mesmo. E como o mundo é pequeno você pode ter a chance de encontrar aquela pessoa anos mais tarde. Você pode casar com aquela pessoa sem nem lembrar. Que importância nós damos para os estranhos nas nossas fotos?

E nem deveríamos. A prioridade da fotografia é o teu filho tomando o primeiro banho de mar e não o surfista caindo da prancha na praia, é teu par envolto ao abraço de amor no parque e não a criança comprando sorvete, é o teu rosto parado na esquina mostrando a igreja do outro lado da rua numa cuidadosa sélfie e não o cara que aparece caminhando na calçada. As prioridades são tantas e tantas são as possibilidades.

Mas o leitor deve concordar que não temos escolha e não temos motivos para escolher. Nossos filhos sempre serão mais importantes, nossos pares sempre serão o centro das fotos e não há com o que se importar a não ser nesses detalhes.

Temos que aprender quais são nossas prioridades. Não adianta tentar agarrar o mundo e esquecer de abraçar quem se importa com você. Ao tentar se importar com todo mundo nos tornamos o estranho na nossa própria foto. E ninguém quer ser coadjuvante de sua própria vida.

É hora de amadurecermos e só assim seremos capazes de descartar coisas não importantes. Coisa louca ao pensar que sempre seremos o estranho na foto de alguém.

(*)

P.s. Ao lançar um novo disco de inéditas, Humberto Gessinger nos brindou com a seguinte frase: "Mas o sonho de mudar o mundo, ao menos muda o sonhador".

Abraços!
Thailan de Pauli Jaros
15OUT2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O boleiro que nunca fui



Nunca gostei de futebol. Já devo ter escrito algo sobre isso em tempos de Copa do Mundo, não lembro muito bem. A verdade é que nunca me interessei em assistir aos jogos e sou um tremendo perna de pau. Abro uma exceção a cada quatro anos, é claro, quando nossa Seleção Canarinho entra em campo.

Por essa razão nunca torci para time nenhum e quando perguntavam - com aquela malícia infantil -qual time era o meu, não entendia a piada e seguia em frente. Meu pai também nunca deixou claro qual era a torcida dele, algo entre o bairrista Paraná Clube e o Grande São Paulo. Nunca torci para nenhum desses times.

Ao longo da vida fui aprendendo detalhes e costumes de meus amigos que são torcedores -quase que- fanáticos. Comecei a acompanhar resultados do Palmeiras e Santos para conversar com amigos palmeirenses e santistas. Aprendi inclusive as piadas com a torcida da terceira idade do time da Vila. Mas sem Neymar? Nah!

Aprendi, também, piadas que o politicamente incorreto não me permite escrever nos dias atuais. Piadas sobre o São Paulo. Quase apanhei de um Palmeirense no ano passado quando falei mal do Felipão, ainda doído do sete a um. O tempo me fez estar certo sobre o técnico, minado pelo time após derrotas.

Talvez por preconceito, talvez por falta de opção, não consigo gostar do Corinthians e já odiei o Atletiba. Sempre tentei entender o famoso impedimento. Sempre sem sucesso. Não entendo o gol anulado pelo apito de um homem na lateral do campo. Sou contra o VAR - muito discutido nos dias de hoje- por acabar com discussões eternas nas mesas do bar.

Sei, por convivência, que o Flamengo é líder. Vivem me pedindo para segui-lo. Não basta a torcida organizada que se encontra toda quarta-feira do lado de casa. A TV deles tem um delay, o que me permite saber primeiro se o gol foi consumado ou se o jogador chutou para a torcida.

O futebol, assim como a política, aflora o que há de mais irracional no homem. O fanatismo da torcida na defesa de seu "time do coração" motiva milhões de pessoas a seguir em frente. Não fosse os jogos de domingo o que conversaríamos na segunda de manhã?

Dia desses li que quem não torce para nenhum time tem sorte de não sofrer toda semana. Ledo engano, caro amigo, ledo engano. O sofrimento pode até fazer parte, mas o que move uma torcida é um gol aos quarenta e seis minutos do segundo tempo. O que move uma cidade é o final do campeonato nacional. O que para uma guerra, como fez o Santos com Pelé, é justamente a torcida fanática pelo futebol, um grande espetáculo. 

O torcedor sofre, mas quando o jogador faz um gol decisivo nos pênaltis eu sempre ouço fogos de artifício por toda a parte. Sorte a minha que não sofro com isso. Azar o meu que não sofro com isso. Depois do sofrimento sempre vem a felicidade. Depois da tempestade sempre vem a bonança.

Escrevi esse texto porque voltava da missa no sábado passado e o rádio do uber sintonizava um jogo do Operário Ferroviário, que perdia de um a zero. Quando entrei no carro o pênalti foi marcado a favor do fantasma. Jogo empatado. Tudo igual. Sou pé-quente, afinal, quando desci do carro e desliguei do restante do jogo, o time adversário completou três a um.

Não sou torcedor, mas sou pé-quente e ainda me emociono com um chá de menta e um pôr de sol.

Calorosos abraços
Thailan de Pauli Jaros
01OUT2019

P.S. Posso não saber de nada, mas a pergunta em toda esquina é: hoje tem gol do Gabigol?

P.S.2. Gabigol é um nome que define o jogador de futebol brasileiro. O famoso Gabriel que faz gol e faz jus ao apelido, me dizem os jornalistas esportivos.