terça-feira, 26 de novembro de 2019

Fechado pra balanço



Algumas coisas que acontecem nas nossas vidas são difíceis de entender. Muitas coisas são impossíveis. Outras só entendemos depois de muito tempo. E mesmo assim o entendimento é finito, é absurdo. Por vezes contestamos o que não podemos entender, ficamos revoltados ao perceber como as coisas funcionam e a vida vai passando. E o tempo vai passando. Quando paramos para pensar, o mês já terminou.

Ah, o tempo. O senhor da razão, que cura todas as feridas, abre portas e fecha janelas. O tempo sempre está certo, mesmo quando está errado. E durante dias de histeria o tempo nos mostra que a paciência pode ser nossa aliada e a calma consegue nos fazer contar as pedras que estão pelo meio do caminho.

Nessas andanças sobre o pedregulho, carregando nossas cruzes e respirando com atenção, o mundo vai nos mostrando coisas belíssimas e nos apresentando pessoas especiais. Mas o mais importante está muito além do que nossos olhos conseguem enxergar, o fundamental é transcendente, é sobrenatural.

Naturalmente o leitor deve estar pensando de onde vem os devaneios deste jovem (pseudo) cronista. Respondo com a paciência que me é necessária e um leve respiro para encher de ar os pulmões: não sei. Para mim, no momento em que escrevo esta carta, não me interessam as futilidades e as perguntas objetivas. Meu único objetivo é sentir. A verdade é que eu tô fechado pra balanço e não sei quando terminarei de contar. Quem sabe quando as pirâmides desaparecerem ou quando os kamikazes chegarem ao chão. Só o tempo dirá.

O mundo continua girando. Os bares estão abertos, os semáforos mudam freneticamente seus verdes, amarelos e vermelhos globos acima das ruas, as indústrias vomitam fumaças que parecem incendiar uma cidade inteira e o show tem o dever de continuar.

Respira. Tenha Paciência. Longe da histeria do mundo podemos meditar e encontrar respostas para nossas dúvidas, encontrar caminhos nos becos sem saída e saírmos da área de alcance. É necessário nos desligarmos do mundo que nos cerca e conversarmos com Deus. Ao menos tentarmos conversar com Ele.

Não interessa o que digam, não interessa o que pensam. Não se incomode com os outros e os outros não se incomodarão com você. Sirva, faça algo que tenha sentido e procure o que o mundo tem de melhor: a caridade. Afinal, é só isso que importa.

Sem a menor vontade de encontrar de onde chegam meus pensamentos eu finalizo por aqui. O tempo voa e eu continuo fechado pra balanço, espero que por muito tempo.

Thailan de Pauli Jaros
26NOV2019

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O carneiro na sala


Diz a história que um homem foi até o padre reclamar que sua casa era muito pequena, que a sala era miserável e não cabia quase nada. O padre, entendendo as dores do sujeito e procurando uma solução, sugeriu que o homem colocasse um bode no centro da sala e o deixasse lá por alguns dias.

Passado um tempo o homem voltou ao padre ainda mais triste e reclamão, o espaço continuava pequeno e o bode no meio da sala atrapalhava ainda mais. O padre, então, pediu para que o sujeito tirasse o bode da sala, já que a situação havia piorado. E assim foi feito.

Dias depois o homem encontrou o padre novamente e com um sorriso no rosto lhe disse que estava satisfeito com sua casa, que sobrava espaço e a sala era enorme. O espaço continuava o mesmo, mas o bode na sala fez com que o homem valorizasse o espaço antes tido como minúsculo.

Contei essa história porque ela é recorrente no mundo político, normalmente para politicagem, mas na minha situação essa história foi meio que real, só que o personagem não foi um bode e sim um carneiro.

(*)

Não lembro a minha idade, mas esse fato aconteceu anos atrás. Eu desbravava o interior de minha cidade de bicicleta, passeava pelas trilhas, corria no chão de terra e pulava em poças de água da chuva.

Um dia, eu e meu irmão íamos até a chácara de nossos avós e encontramos no meio do caminho um carneiro. O animal aparentava ser pacífico, mas seu dono logo avisou que não poderíamos correr porque certamente iria irritá-lo. Desci calmamente da bicicleta e continuei o caminho bem devagar. Meu irmão ignorou a sugestão do dono do carneiro e, com sua bicicleta, desceu a pequena rua até o nosso destino.

- "Chico" - gritava o homem para o carneiro, que para minha surpresa tinha um nome bem simpático. Eu segurando minha bicicleta de passo em passo tentava despistar o bicho já um pouco desconfiado. Ele me seguia e quanto mais eu apertava o passo, mais ele vinha em minha direção. - "Seja o que Deus quiser" - pensei ao subir na bicicleta e pedalar como se não houvesse amanhã.

Não tinha erro pior. O Chico correu atrás de mim e seu dono ficou para trás. Minha corrida com o carneiro durou uma eternidade. São Silvestre era somente uma miragem nessa altura do campeonato. Até que finalmente eu e minha bicicleta chegamos na casa de meus avós sãos e salvos, pelo menos era o que eu pensava.

Mal recuperei o fôlego ao encontrar meu irmão na cozinha e quando olhamos lá estava o carneiro dentro da sala. O animal entrou na casa e passeou pelos corredores e quartos. Sem reação nos escondemos atrás do sofá e esperamos socorro. - "Ai meu São Silvestre, São Francisco, rogai por nós, cuida desse bicho e de nós".

Quando já não tinha solução uma camionete despontou no horizonte. Era o dono do Chico que viu, na impossibilidade de chamar com carinho, a necessidade de prender o animal na caçamba do carro, para levá-lo a salvo à sua verdadeira casa.

Nós, sempre corajosos, agradecemos a boa vontade do homem e o bom humor do carneiro. Virou piada, virou história.

Até semana que vem
Thailan de Pauli Jaros
19NOV2019


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Tarde demais


Diz a música que as flores de plástico não morrem. Ora, é claro que não morrem, elas também não vivem. As flores de plástico não morrem, mas não há nada mais bonito do que o nascimento de uma nova flor de verdade. Aquele momento em que o botão da rosa se torna um monumento esplêndido, angelical. As flores de plástico não morrem, mas não vivem e não exalam o cheiro do afeto que só a verdade produz.

(*)

Você abraçou quem você ama hoje? O abraço caloroso de afeto, surgindo da força mais bruta e desabrochando em um único lugar de carinho e proteção. Um abrigo que te salva do mundo e te faz viajar no mais belo sentimento que existe nesta terra.

Você beijou quem te ama hoje? Aquele beijo que todos desejavam e que alguém precisava mais do que nunca e que nunca havia pensado. A demonstração da mais simples aliança, demonstração de afeto afetando o coração e causando lindas borboletas no estômago.

Você sorriu para algum amigo? Você sorriu para um desconhecido? Com toda certeza alguém precisou do teu sorriso para continuar em frente, alguém que esperava mais do que podia esperar. Alguém ganhou o dia só de ter a oportunidade de ver uma pequena imperfeição em forma de curva em algum rosto que, por coincidência, era o teu. O sorriso simples e singelo, afetuoso e sincero que muda o dia de qualquer um.

Você elogiou alguém? Cumprimentou alguém que já fez falta? Pode ser que alguém que não consiga demonstrar, que vive sorrindo, que aparenta estar feliz precise muito de um elogio sincero, de um bom dia afetuoso ou de um "oi" quase que sagaz. As aparências não dizem o que o sentimento insiste em mostrar.

(*)

Você já pensou que às vezes pode ser tarde demais? Muitas vezes e para muitas pessoas é tarde demais. Quando a vela apaga, quando a flor de plástico morre não há choro nem vela que possa fazer voltar atrás. O tempo só vai para frente, e o tempo sempre tem razão, mesmo quando erra.

Então faz o seguinte: abrace, beije, elogie, sorria, cumprimente e fale "eu te amo", "eu gosto de você". Faça isso enquanto pode. Reze baixinho, reze alto, reze enquanto pode. Às vezes pode ser tarde demais. A flor é linda, cheirosa, colorida, exala vida, mas quando morre as pétalas caem uma a uma. Às vezes nem o olhar mais sincero é capaz de evitar a queda de uma pétala.

A flor de plástico não morre porque já nasceu seca, fria e sem vida. A flor de plástico não morre porque já nasceu tarde demais.

Sinceros abraços
Thailan de Pauli Jaros
12NOV2019

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Morrer pela causa


Foto: Allyson Santos

Este não é um texto melancólico, muitos menos aqueles panfletos de autoajuda que você joga fora na primeira esquina esburacada que atravessa. Não tem nada a ver com aqueles dizeres anestésicos de rede social que romantizam o fracasso, o sofrimento e a inveja.  A crônica, assim como tudo aquilo que existe, é uma ideia. A ideologia, um amor desperdiçado, um caso perdido, uma mentira qualquer. Por quantas você morreria?

Eu tinha 8 anos quando comecei a lutar judô na escola. Demorei para crescer e meu condicionamento físico era, no mínimo, questionável. Era mais lembrado pelos meus dentes da frente, levemente maiores que os do restante. Não demorou para me apelidarem de “Esquilo”. Mesmo roendo o tatame de vez em sempre, cheguei até a faixa amarela. Essa parte não é mentira, acredite.
               
Depois de mais de uma década, me obriguei a voltar.  Não por vaidade, nem saúde, mas por uma ideia. Uma ideia que me manteve vivo por muito tempo e no próprio tempo se perdeu. Pessoas, egoísmos, interesses e estresses cotidianos. Na tentativa de subir sozinho pela escada, parecia burrice querer encontrar um corrimão. Nada pode ser maior que a ideia.

Me afastei de tudo para colocar a vida em ordem, para me livrar da concorrência desleal, dos gritos por atenção, da falsidade que só um conjunto de egos inflados é capaz de disseminar. Eu precisava de um ponto de apoio, mesmo que pequeno, para reaprender a andar. Eu precisava acreditar em algo de novo. Precisava de uma ideia. Ela veio meio do nada, meio fraca, mas suficiente para me preencher de alguma coisa. Me fez sentir falta de algo que eu já tinha deixado para trás, mas que sempre esteve ali.

Em resumo, tomei uma surra no primeiro treino de judô. Hoje tem de novo. Morrer pela ideia às vezes é necessário. Não por todas, mas por aquelas que vale a pena se viver. Não faça por você. Não faça pelos outros. Não faça por ódio. Não faça por rancor. Faça pela ideia. No fim da passarela é isso que vai importar.

Allyson Santos
07NOV2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Anos-luz



Já era madrugada, não sei ao certo a hora. Eu estava dentro do ônibus voltando de uma longa viagem. As estrelas se misturavam em meio aos aviões e helicópteros que movimentavam o céu de São Paulo, fazendo jus ao títilo de metrópole.

Mas uma estrela em particular me chamou a atenção. Parecia que ela estava me seguindo. Era brilhante, tinha uma luz impressionante. Parecia que estava me olhando. Quando percebi estava conversando com a estrela. Não lembro qual foi o assunto, não lembro se ela respondeu. Provavelmente ela nem existia mais. Possivelmente era um planeta. Parecia que estava girando. Incontáveis anos-luz era a distância entre eu e aquela estrela. Eu tão insignificante, ela tão brilhante.

(*)

Lembrei que a primeira vez que vi uma estrela cadente foi em uma noite de inverno. Eu voltava para casa no sereno após tirar os pontos de um rasgo no braço. Aquele brilho era tão grandioso que por um instante pensei que seríamos extintos, assim como os dinossauros.

Anos depois, quando vi a segunda estrela cadente, descobri que a primeira foi especial. Não era uma estrela caindo no céu, era uma bola de fogo rápida e cadente. Um meteoro que rasgava o horizonte estrelado na fria noite de junho.

Como qualquer criança fiz um pedido tosco que mantive em segredo por todos os dias de minha vida. O segredo continua, mas posso dizer que o desejo se realizou. Hoje, é claro, não acredito mais nisso, tenho outras coisas para acreditar.

(*)

As reflexões causadas pela estrela durante a viagem me fizeram chegar em outros astros. Escrevo sobre aqueles que, talvez por falta de humildade, perdem o equilíbrio e se tornam o centro das atenções. As grandes estrelas mundanas que juram ser brilhantes mas fazem a luz se apagar como num fogo de palha. Uma fagulha que se levanta na imensidão, chama a atenção e logo se apaga no meio do nada. Até as mais belas estrelas podem cair. Algumas conseguem chamar a atenção no precipício, outras causam estragos inimagináveis, mas a maioria não faz o dinossauro perceber que não existe mais.

A chama do que podemos chamar de estrelismo se espalha rapidamente e é aplaudida a cada vírgula, a cada puxada de ar, a cada passo. Os aplausos sinalizam que a coletividade sempre está esperando novos astros, novas caricaturas, novos deuses. E os altares continuam repletos de estrelas, são milhares que quase não cabem em tão pouco espaço. Todos felizes, todos alimentados pelo próprio ego e pela própria destruição.

E o público pede bis, quer a cambalhota, quer o sorriso de canto, o olhar triunfante. Continua querendo até que uma hora cansa. Cansa porque a pedra, o sangue e a gritaria constituem o próximo passo. Se Raul Seixas dizia que "o problema é muita estrela, pra pouca constelação", podemos dizer que nossos telescópios continuam a postos para assistirmos felizes à destruição do que outrora amávamos.

O fogo, a queda, a lágrima, a fé. As estrelas brilham e se apagam e como gran finale nos afastamos delas e procuramos outros astros para amar. De repente alguém insubstituível não é mais importante para nós. A anos-luz de nossos olhos há uma imensidão incapaz de ser tocada, e nós, quando pararemos de amar a nossa estrela atual? Se é que já não a amamos há tempos...

Até a próxima esquina!
Thailan de Pauli Jaros
05NOV2019