sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Envelheço na cidade



            Antigamente eu olhava para os dois lados antes de atravessar a rua. Observava melhor as estrelas. Admirava uma boa foto. Parava e conversava com um amigo de longa data que há tempos havia perdido contato. Tinha mais ânimo para escrever as coisas. Abraçava as pessoas que amo. Falava olhando nos olhos. Era menos orgulhoso, menos vaidoso, menos rancoroso. Conseguia me planejar melhor. Eu já me importei mais com o dia 16 de agosto.

            Antes de começar a escrever este texto, olhava para o arquivo em branco e notava que havia muito de mim ali dentro. Há tempos deixei de controlar as teclas. Com todas as suas incógnitas, costumes, desigualdades, solidões, propagandas, leis e injustiças, é a cidade que me molda. Em algum momento me deixei levar por ela. Perdi o controle. Ela escreve o que quer. Faz de mim o que quer. Fez de mim o que sou.

Tudo foi se tornando cada vez mais vazio. Os erros que eu perdoava, as falsidades que eu tolerava, os medos que eu cultivava, as ideias que eu defendia. É como se hoje, tudo estivesse no piloto automático. No percurso, deixei de ser aquele garoto que sonhava e que mantinha fé nas coisas e nas pessoas.

            Vinte anos se passaram. A cidade mudou muita gente que eu conhecia. Trouxe gente nova e criou novos paradigmas. Convivo diariamente com a tristeza das escolhas que não fiz, tentando recuperar meu próprio controle. O caos do cotidiano nas esquinas não tem concerto. O que posso fazer é encontrar meios, não de sobreviver, e sim de viver nele.

Se antes eu admirava as minhas incertezas, hoje elas me tiram o sono e me paralisam a face. Pequenos efeitos colaterais de quem vive com medo do amanhã. Não preciso da folha inteira, só de alguns parágrafos de volta para admirar as pequenas coisas dentro da série de outras que sou obrigado a defender sem motivo. Uma pena a gente só pensar nessas coisas uma vez a cada 12 meses. Mais um ano que se passa e eu não sei o que fazer. Feliz aniversário!

Mais um ano que se passa

Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade

Essa vida é jogo rápido

Para mim ou pra você
Mais um ano que se passa
Eu não sei o que fazer

Juventude se abraça

Faz de tudo pra esquecer
Um feliz aniversário
Para mim ou pra você

Feliz aniversário

Envelheço na cidade!

Ira!
Allyson Santos
16AGO19

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