São tempos difíceis. As vezes me pego parado pensando, se estou vivendo o mesmo dia repetidamente. Nunca pensei que sentiria falta das obrigações e problemas que enfrentava, antes da Pandemia. O fato de já saber que o amanhã não será diferente, não trará algo novo, já torna esses tempos de isolamento mais complicados de enfrentar. É curioso, pois o ser humano tende a acreditar que ter o controle de tudo, saber o que vai acontecer amanhã e depois de amanhã, é um dos vários traços de uma rodovia que tem o destino final na felicidade e na segurança.
Mas o que nesses tempos de confinamento vem nos mostrando, é como ter a ciência do que vai acontecer não é um fator tão confortável. São dias cansativos, sensíveis. Acredito que o déimo nono ano do século XXI, o primeiro da nova década, nos fará repensar muitas coisas. Muitas coisas...
Para fugir um pouco dessa loucura, costumo as vezes pegar o carro, e ir dar uma volta pela cidade, para relembrar como é a vida lá fora. Como a cidade ainda respira, os novos rostos agora marcados pelas máscaras surgem na paisagem urbana. Em um desses dias, decidi realizar uma rota diferente. Dessa vez, segui o trajeto mais distante da cidade, em uma estrada municipal que liga com os bairros rurais e cidades vizinhas. O relógio que se encontra acima do velocímetro e marcador de gasolina, marcava as 18h34min. Agora, no inverno, o sol se esconde mais cedo do que o de outras estações, portanto a minha rodagem já invadia a noite. Não sou acostumado a dirigir de noite em estradas que permitem velocidade maior, e com este período de isolamento, as estradas estão vazias. Olhava a frente, e só via um palmo a frente do carro. Mais que isso, era escuridão e um total ponto de interrogação. Não enxergava nada além do que a iluminação do carro apontava. O que seguia ali para mim, era uma incógnita.
Incógnita que me fez refletir. Não enxergava nada do que vinha depois, curva após curva, acostamento após acostamento. Me fez perceber, como a estrada pode ser uma metáfora simbólica do que vivemos. Enxergamos o amanhã, mas não conseguimos avistar daqui há um mês, um ano. Curiosamente parecido com o que passei ali naquela estrada. Enxergava ali no que conseguia iluminar. Depois, não sabia muito bem o que viria. Nessa nossa estrada, como conseguir saber o que vem além do que enxergamos? Como saber como estaremos na próxima cidade que nosso carro chegará? Nesse isolamento, vivemos talvez um dos momentos mais perplexos do século. Relações foram cortadas, sonhos foram pausados. Promessas tiveram que esperar, amores tiveram que se separar. Projetos terão que aguardar. Assim com a estrada que percorri, está difícil de enxergar mais a frente, de planejar a nossa viagem.
Mas, mesmo sem enxergar o que vinha depois do que a luz do carro conseguia iluminar, eu segui. Dirigi em uma velocidade segura, com mais atenção. E quando percebi, havia chegado em um trecho mais iluminado. O caminho não era mais, tão escuro. Isso me fez perceber, que quanto mais escuro e longe da luz as coisas pareçam ser, uma hora a luz ressurge. E acredito que, mesmo agora, enxergar esteja difícil, lá na frente encontraremos de volta uma rota mais iluminada. Encontraremos trechos melhores, lugares melhores. Poderemos descer do carro, olhar a nossa volta com mais segurança. Poderemos retomar projetos, seguir com os sonhos. Poderemos reajustar nosso carro, reabastecer. Assim, possamos seguir com nossa estrada, em busca dos lugares que queremos chegar.

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