quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

A ceia de Natal e a virtude da paciência

Para algumas pessoas as festas de Natal começam nos primeiros dias de novembro. As lojas e mercados já decoram os ambientes no fim de outubro. Então são cada vez mais comuns as confraternizações entre amigos, as festas “da firma”, os panetones nos cantos das salas.

Não costumo esconder que sou um exímio amante dessa época natalina, por todos os motivos que não preciso explicar. Por isso tenho a ousadia de contar uma das minhas histórias de Natal.

Era o fim de 2020, primeiro ano da pandemia. Decidi com amigos fazer uma confraternização de fim de ano. Estávamos em três pessoas, sorteamos um amigo secreto para economizar em presentes e decidimos fazer uma janta. À princípio pediríamos uma pizza, como sempre.

Quando nos reunímos, normalmente jogamos os famosos jogos de tabuleiros como Monopoly, War ou Detetive. Enquanto estamos competindo, a pizza chega e tudo parece ficar completo.

Era por volta das oito da noite quando resolvemos ir ao mercado comprar guloseimas. Eis que no fundo de um freezer estava aquele chester que parecia delicioso. Em um momento de bobeira, quando as rápidas decisões certamente são um erro, compramos o chester.

É aí que essa história de Natal começa. Chegamos em casa. Abrimos o chester congelado e fomos ler as instruções para assa-lo. Eu já devo ter mencionado que nunca tínhamos assado um frango.

Acontece que dentro da ave tinha um pacote com os miúdos, aqueles pedaços que o pessoal diz que gosta mas sempre sobram. Como vamos assar com um plástico dentro? 

Agora o leitor deve imaginar aquele episódio em que o Mr Bean perde o relógio dentro do peru de Natal. Foi o que aconteceu. Não, não perdemos o relógio dentro do chester, mas só porque não tínhamos um relógio. Depois de tentativas frustradas, o frango passou por um procedimento cirúrgico e retiramos o material.

Colocamos para assar devia ser quase dez da noite. Sorte a nossa que tínhamos comprado amendoins para “enganar o estômago”.

Foi uma noite tipicamente natalina. Conversamos, rimos e exercitamos a virtude da paciência. A gente até reclama na hora, mas Ariano Suassuna já dizia que tudo o que é ruim de passar é bom de contar. Cá estou eu, compartilhando essa história de imprudência, falta de planejamento e um pouco de irritação.

O fato virou história e decidimos manter a tradição. Não dos atrasos, mas da festa natalina. Nos reunimos novamente neste ano. Dessa vez estávamos em cinco pessoas e planejamos tudo: o amigo secreto, o cardápio e os detalhes decorativos. 

Meus amigos foram ao mercado ainda de manhã, compraram um peru, bebidas e ingredientes para uma tábua de frios. Quando cheguei na festa, a tábua de frios já estava pronta e muito bonita (viu, Dener, coloquei esse detalhe no texto) e o peru já estava no forno há algum tempo.

Acho que era por volta das oito da noite resolvemos revelar o amigo secreto depois de ter comido alguns pedaços de queijo e salame. Após algumas histórias e risadas comuns para esse tipo de evento, fomos ver como estava o peru.

Coloquei aquele ponto final ali só para dar uma pausa dramática. O leitor já deve estar pensando que algo saiu errado, que o peru queimou, etc. Devo dizer que esse achismo está correto. Algumas horas passaram desde o início do assamento quando descobrimos que o forno não tinha sido ligado (sim, era um forno elétrico).

Nosso infortúnio aconteceu pelo segundo ano consecutivo e virou tradição, infelizmente. Mas é isso mesmo. Afinal, isso é a vida acontecendo, a vida real. Nada mais justo do que exercitarmos as virtudes, principalmente nesta época do ano.

Colocamos para assar, fizemos mais uma tábua de frios e jogamos Detetive. Nesse improviso quase comemos a sobremesa - um pavê que rendeu as piadas tradicionais - antes da janta, mas aguentamos a espera. 

Só para finalizar, cito uma frase do Chesterton que me fez pensar na paciência como uma das grandes virtudes nesses tempos voláteis: "Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder". Certamente naquela noite o tempo não foi perdido.

(*)

Talvez eu volte por aqui ainda neste ano com reflexões sobre o ano que passou e as metas para o ano que vem...


Um feliz e Santo Natal para todos nós

Grande abraço!

Thailan de Pauli Jaros

22DEZ2021

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