A gatinha não parava de miar, parecia estar com fome. Pulou do sofá e foi direto ao pote de ração. Levantei com certa preguiça e enchi a cumbuca. Ela sente falta do seu companheiro, o gato - não sei o motivo, mas nunca demos nome, sempre foi gato- que sumiu há algumas semanas.
Quando voltei para o sofá, passei em frente ao espelho e vi algo estranho. Aquele bendito cabelo branco. Não é possível que um jovem de 21 anos tenha cabelo branco. Um jovem não pensa em ter cabelos brancos. Não pensa em envelhecer.
"Jovens, envelheçam depressa", foi o conselho dado por Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico. Um conselho contundente e autoexplicativo. Um tapa na cara daqueles que querem mudar o mundo mas não conseguem organizar a própria vida, ou, arrumar a própria cama. Querem dar pitaco em política externa mas ganham mesada dos pais sem, sequer, lavar uma louça.
As pessoas fogem da velhice como o diabo da cruz. São os cremes, as plásticas, as academias em cada esquina e as opiniões infundadas. Ninguém tem o menor interesse em amadurecer pois acreditam que já são maduros o suficiente. Todos já têm opinião. Todos já sabem de tudo. Todos têm certezas. São todos estrelas, parafraseando Raul Seixas, e poucas constelações.
O mesmo jovem que falta aula para discursar sobre o clima e para protestar contra não se sabe o quê sofre com a solidão. Mas não qualquer solidão, aquela mais sofrida, a pior delas. Quando o sujeito é rodeado de pessoas, frequenta festas toda semana, conversa com gente de todos os tipos, finge suportar e aceitar todas as diferenças e quando percebe está sozinho. Solitário no meio de uma festa, no discurso do protesto ou no escuro de um cinema.
É que deixar de ouvir o que os outros têm a dizer e só falar pode nos deixar sozinhos. Deixar de aceitar normas morais, conservar coisas transcedentais e fugir para momentos fugazes que passam num piscar de olhos é pedir para ficar solitário. Acreditar que está no topo do mundo e na crista da onda pode deixar o tombo maior e mais dolorido. O chão é a vida real. Sempre foi a vida real.
E sem conseguir aceitar o sofrimento da solidão, sem suportar a mínima dor, o sujeito recorre à respostas infundadas e explicações rasas de qualquer niilista e/ou correntes de pensamentos tortos e difusos. Também acredita piamente em qualquer "coach" por aí. "Tudo no meu ritmo"- dizem- "que é diferente dos demais". Pode até ser, mas qual é o seu ritmo? Toma cuidado para não destoar da música.
Essa síndrome de Peter Pan já é famosa, mas o que o jovem terá no futuro que realmente valha a pena? Que realmente importará? Qual a vida que vale a pena ser vivida? Onde está o mundo real? Com certeza não nessas bolhas de intolerantes insuportáveis.
Criança precisa de tutela e adulto precisa de responsabilidade. A vida real é assim e sempre será. Nenhuma necessidade de autoafirmação e sensação de pertencimento pode mudar isso.
Pensei nisso por um momento quando encontrei o fio de cabelo branco. Mas o devaneio sumiu quando olhei aquele fio em meio ao barulho da televisão e as luzes acesas. Pensamentos desnecessários pois me dei conta de que aquele fio de cabelo era o que sobrou do pelo branco do gato sumido, que grudou na almofada onde me deitei.
Cresçam, sejam responsáveis
Thailan de Pauli Jaros
24SET2019
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| Última foto com o gato antes de ele sumir |


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