- Como tem passado? - Perguntou
o médico.
- Estou bem sim. Estou
tranquilo... - Respondeu o homem sem qualquer ânimo na voz. Como se nem ele
acreditasse no que havia dito. Talvez não fosse capaz.
- Tem conseguido “alargar
o pavio” nos últimos dias? – pergunta típica que os doutores fazem para tentar
criar um ambiente de informalidade. Quase sempre sem sucesso.
- Bom, eu tento. Mas no
meu emprego nem sempre isso é possível.
O tom de voz sugeria
uma crise pânico, ansiedade, ira ou depressão. Não pude distinguir bem por traz
da cortina que nos separava. Como se tratava de uma sessão de acupuntura, não
foi difícil perceber que o homem estava apostando ali, suas últimas fichas.
- Imagino. Deve existir
muita má fé no mundo judiciário. – disse o médico, que aparentemente não estava
sequer ouvindo.
- Só o que existe é má
fé. Todos os dias. – retrucou o paciente - Não me surpreenderia em nada caso um
dia descubram que nosso ex-presidente é inocente. Que toda a operação está, de
fato, comprometida. Que não podemos confiar em nada. Acreditar em ninguém. É
uma das coisas que me tiram o sono.
- Mas não tem se
entregado. Né?
- Tem sido difícil com
os problemas em casa. Tenho me sentido sozinho. Muitos pensamentos
negativos.
- Mais problemas?
- Acho que a acupuntura
tem ajudado com o stress, mas é só a ponta do iceberg. Minha esposa me deixou.
Não vejo meus filhos há quase um mês...
Não pude acompanhar o
restante da conversa. Meu tempo com as agulhas no rosto havia acabado. A assistente
já tinha ligado a música japonesa aleatória, que no fim das contas só me deixa
mais nervoso com os choques elétricos. Minutos se passaram. O médico atravessou
a cortina que separava as duas camas e veio até mim.
- Os movimentos do
rosto voltaram depressa. Você foi o meu paciente que evoluiu mais rápido, sem
dúvida! Está se sentindo bem?
- Ah doutor... quer
mesmo saber?
“Ouvi uma piada uma vez: Um
homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e
cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e
incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”
Rorschach
Watchmen – Alan Moore
Allyson Santos
13SET19

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