terça-feira, 15 de outubro de 2019

Um estranho na foto de alguém

Foto do compadre Allyson Santos

Eu andava distraído pelos grandes corredores do Santuário de Aparecida quando uma moça me abordou pedindo para eu tirar uma foto de sua família. Ela me entregou o celular já com a câmera aberta e eu, com o maior prazer, procurei o melhor ângulo, a melhor luz e o melhor momento. Mais tarde, eu já estava em outro lugar, um cara me pediu a mesma coisa, que fiz com a mesma vontade.

Coisa louca os dois confiarem seus celulares a um estranho em tempos de roubos e furtos a qualquer momento. Costumam dizer que não se deve confiar em ninguém, mas eles confiaram em mim. Tanto para entregar-me o celular, quanto para registrar um momento, talvez, importante de suas vidas. 

Mas não era isso que eu queria falar. Quando estamos em lugares públicos, com grande número de pessoas, é normal vermos as câmeras ou os celulares em pleno funcionamento. Todos querem eternizar aquele momento para sempre. É o primeiro banho de mar do filho, o passeio no parque com a família, a visita ao Santuário para agradecer o ano que passou.

Em nossas fotos sempre aparece algum estranho que estava no mesmo lugar, ao fundo, rindo, chorando, fazendo careta. Quase sempre o estranho se sai melhor na foto do que a gente mesmo. E como o mundo é pequeno você pode ter a chance de encontrar aquela pessoa anos mais tarde. Você pode casar com aquela pessoa sem nem lembrar. Que importância nós damos para os estranhos nas nossas fotos?

E nem deveríamos. A prioridade da fotografia é o teu filho tomando o primeiro banho de mar e não o surfista caindo da prancha na praia, é teu par envolto ao abraço de amor no parque e não a criança comprando sorvete, é o teu rosto parado na esquina mostrando a igreja do outro lado da rua numa cuidadosa sélfie e não o cara que aparece caminhando na calçada. As prioridades são tantas e tantas são as possibilidades.

Mas o leitor deve concordar que não temos escolha e não temos motivos para escolher. Nossos filhos sempre serão mais importantes, nossos pares sempre serão o centro das fotos e não há com o que se importar a não ser nesses detalhes.

Temos que aprender quais são nossas prioridades. Não adianta tentar agarrar o mundo e esquecer de abraçar quem se importa com você. Ao tentar se importar com todo mundo nos tornamos o estranho na nossa própria foto. E ninguém quer ser coadjuvante de sua própria vida.

É hora de amadurecermos e só assim seremos capazes de descartar coisas não importantes. Coisa louca ao pensar que sempre seremos o estranho na foto de alguém.

(*)

P.s. Ao lançar um novo disco de inéditas, Humberto Gessinger nos brindou com a seguinte frase: "Mas o sonho de mudar o mundo, ao menos muda o sonhador".

Abraços!
Thailan de Pauli Jaros
15OUT2019

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