Na dúvida do que escrever comecei a procurar histórias na minha própria memória, vasculhar emoções e tentar tirar do fundo da mente algo curioso, diferente ou até mesmo normal demais. Mas tudo o que me veio na cabeça foi Elis Regina e Tom Jobim cantando "águas de março". Não sei o motivo, só sei que gostei.
O pau, a pedra e o fim do caminho nos lembram que o verão vai embora e o outono se aproxima abrindo um novo ciclo de um novo ano. Somos obrigados a considerar que um quarto do ano já se passou e nossas metas ainda estão pedalando, né não? Desculpe, caro leitor, mas tenho que lembra-lo dos teus planos no primeiro minuto do dia primeiro do primeiro mês deste ano.
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Uma bailarina na chuva consegue rodopiar como num palco? A maquiagem borra quando a lágrima insiste em cair? O batom continua na boca depois de um beijo molhado? A lapela manchada representa o amor? Uma árvore, ao cair no meio do mato vazio, faz barulho? As águas de março fecham o verão? Para onde vão as andorinhas? Se a estiagem prevalecer e a chuva não chegar o verão não acaba?
Um tenista pode vibrar quando o match point é do adversário? A torcida atrapalha um jogador de vôlei durante o saque? O brasileiro gosta tanto de futebol? Se a terra é redonda onde é o fim do mundo? Se a terra é plana quando cairemos no abismo? Se Tom Jobim perder o tom o Jobim dá conta?
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Você já pensou no mundo sem as palavras? O mundo sem as palavras não seria mundo, as cartas de amor não iriam existir, as cartas não iriam existir. Já imaginou um mundo sem cartas? Nunca saberíamos o que é uma certidão de nascimento, escritores teriam que trocar de profissão, bons leitores não iriam ter livros para ler, livrarias não iriam abrir, não iria existir nenhum livro. Bibliotecas? O que são?
A música diz que um beijo vale mais que mil palavras, mas sem as palavras nem a música poderia existir. O mundo da música também seria afetado. Como compositores iriam escrever? Não, eles não iriam escrever. Nunca saberíamos a utilidade do alfabeto, vogais?
Não teríamos palavras pra explicar como seria o mundo sem a escrita. As assinaturas seriam o DNA, mas o que seria o DNA? Pois não existiria nem a letra “D” nem a “N” e nem a “A”. Não existiria nenhuma letra. Confuso, não é?
Desenhos um dia acabariam virando escrita, alguém daria um basta nessa confusão e logo inventaria alguma forma de comunicação. Não teríamos comunicação, não teríamos dinheiro, não sobreviveríamos sem a escrita. Quem iria escrever piadas? Ninguém. Xingamentos talvez não fariam falta, ou fariam. Quando você batesse o dedinho do pé no canto do sofá, o que gritaria?
O mundo sem a escrita seria sem graça, sem graça seria o mundo sem as palavras, sem as regras que fazem a gente odiar a escrita, o mundo sem a escrita não seria mundo, fim de papo...
(Texto escrito no fim do verão de 2015)
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No fim do verão
Estive pensando, quando acordei
Sentado sozinho, assim eu fiquei
Imaginando coisas, que ali eu criei
Só há um caminho, um percurso, uma lei
As folhas secaram, tudo mudou
O frio está próximo e não sei quem eu sou
As blusas chegaram, a moda voou
No percurso encaro: o outono voltou
Onde encontro a luz da manhã?
No escuro uma prece, uma vida, uma dor
O que eu faço depois de amanhã?
Se tudo que tenho é um frasco de amor?
Encontrei você, perdida no espaço
Na solidão eu achei, o teu ponto fraco
Uma vida amarga, um abraço pra sustentar
No fim no espaço, há falta de ar
Eu achei você, bem longe daqui
E em troca, teu coração recebi
Encontrei a lágrima no fim do verão
O pássaro voltando pro teu coração
Estava pensando em levantar
Sair da inércia pra longe andar
O meu coração, só pensa em você
Na solidão, só penso em você
Te encontrei num simples gesto
Te encontrei num pequeno bom dia
Você me chamou, dispensei o resto
Encontrei você, numa ventania.
Viva São José
Thailan de Pauli Jaros
19MAR2019

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