A corda está esticada, amarrada de uma ponta a outra. Estou sozinho, concentrado, mas uma plateia insiste em me assistir. Todos querem ver o espetáculo, muito provavelmente torcem para a queda, esperam o erro e se surpreendem quando tudo dá certo.
O dar certo sempre é incerto e quando subo na corda não tenho como saber se chegarei ao fim com o mesmo equilíbrio e concentração que comecei. Mas a esperança me faz olhar para frente e seguir em frente sem me importar com o espetáculo e com a torcida cada vez mais pessimista.
O ponto de equilíbrio é a linha tênue entre a concentração e o momento de bobeira, entre a firmeza e o nervosismo, entre a confiança e a dúvida. Só é permitido o equilíbrio para os sóbrios, que por algum motivo esquecem de olhar para baixo e deixam de enxergar o grande abismo que espera o descuidado.
O equilibrista tem noção do abismo que existe embaixo da corda, mas escolhe olhar para frente e consegue manter a constância durante todo o percurso. Fácil não é, mas a confiança de que no outro lado existe o paraíso é o consolo e o motivo pelo qual se caminha todos os dias.
Mas quando estou em cima da corda bamba também me é permitido contemplar a vista, enxergar o belo e aprender que não preciso ficar pendurado no limiar da queda quando tenho a força da contemplação, do silêncio e da concentração para uma vida bela.
Sim, pode até ser que o abismo logo abaixo me assuste e que por vezes (muitas vezes) me desequilibro e caio, mas na maioria delas uma mão me puxa para cima e me dá outra chance. Outra chance de equilíbrio é sempre bem vinda e não importa a quantidade de quedas, o que realmente importa são os momentos em que volto ao equilíbrio e finalmente chego no fim do percurso.
Se o leitor me entende, podemos dizer que o fim do percurso é só o início ou a consagração de uma bela performance que, aos poucos e com muitas quedas, o equilibrista proporcionou ao público. A vitória do equilibrista é o triunfo de um caminho corajoso e determinado, concentrado e contemplativo, vivo e com vontade de viver.
Nesse momento já não importa o abismo, a torcida aplaude surpreendida com o sucesso do equilibrista. O equilibrista somos nós e a corda bamba é a vida. A bela vida.
Thailan de Pauli Jaros
02FEV2021

Nenhum comentário:
Postar um comentário