segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um último rascunho



            Dizem que só escrevemos em momentos de tristeza. Esquentamos o chá, olhamos a chuva e observamos as lágrimas escorrerem no ritmo do teclado. Tudo na esperança de transferir a nossa dor para uma folha sem tinta. Eu não queria escrever tanto.
(*)

            As tragédias, o alvará, as fiscalizações, o acidente. Assim como a dor, descaso e acaso viraram reféns das crônicas, das notícias, das cartas de amor e de adeus. Os sonhos infantis que antes viravam pauta, hoje descrevem lápides. As famílias que antes davam abrigo estão sós. Pessoas influentes que inspiraram gerações nos abandonaram de forma tão repentina.

            Tudo que acontece neste início de ano não cabe no papel, e muito menos no coração. Temos muito que aprender. Enquanto isso não acontece, às vezes é bom esquentar um chá e deixar a tristeza guiar os parágrafos. Pode ser um texto qualquer como este  que digito, ou algo que inspire as pessoas a tentar fazer um país diferente. 
(*)

Uma pena, ao digitar, ter de tocar sempre na mesma tecla. Eu não queria escrever tanto como te escrevo agora e como se tem feito necessário escrever. De certa forma me acalma e me faz ver a bondade no abraço, a sinceridade no olhar e a luz na próxima esquina.

Escrevo para Brumadinho, para as vítimas das chuvas no Rio de Janeiro, para os jovens no Ninho do Urubu. Hoje, especialmente, para Ricardo Boechat, que inspirou tanta gente a escrever e nos fez crer no bom jornalismo. "Quantas vidas valem o tesouro nacional? Quantas vidas cabem na foto do jornal? Às sete da manhã quanto vale a vida Depois da meia noite antes de abrir o sinal São segredos que a gente não conta e faz de conta que não quer nem saber Quem souber fale agora ou cale-se pra sempre" Eng. Hawaii - Quanto vale a vida?

Allyson Santos

11FEV2019

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