sexta-feira, 19 de abril de 2019

Amores de Corredor



Ainda com as pálpebras pesadas depois de mais uma noite mal dormida, cheguei cansado. Tropecei cerca de quatro vezes no caminho até a Universidade. O poeta não brincava quando dizia que no meio do caminho havia uma pedra (ou várias).

Depois de um ano inteiro fazendo o mesmo trajeto até a sala de aula, resolvi tomar um caminho mais longo (dessa vez sem os fones de ouvido). Tinha de encontrar algo diferente. Era preciso tropeçar em novas pedras, a começar pela entrada da Praça Santos Andrade. Não demorou muito para mais um tombo.

Respirei fundo e virei à esquerda. São cerca de vinte passos até a escadaria que leva ao próximo bloco. Por costume ou necessidade, andava olhando para o chão. Acho que a maioria das pessoas que não valorizam a experiência do contato visual faz isso. Acredite, não é o meu caso. Com um olhar discreto de baixo para cima, algo chama a atenção.

Dois jovens, de alguma forma dividiam o espaço de um único azulejo. O olhar fixo não era de qualquer efemeridade, era eterno. Por mais que não se ouvissem as frases ao pé do ouvido, os sorrisos de ambos já denunciavam as juras de amor. Só pude olhar por cerca de três segundos. Por sorte, foi a única coisa durou pouco naquele momento.

Conforme eu repetia o caminho diariamente, também se repetia a cena, mas nunca o contexto. Dias de beijos, dias de brigas. Nada mais importava. O que importava era que eles permaneciam ali, dividindo o mesmo pedacinho de azulejo em uma cidade do interior do Paraná. Sem dúvida, para eles, a pequena distância entre os pés era quilométrica.

Loira dos olhos verdes e moreno dos olhos castanhos. Os dois se completam. Pouco importa o “para sempre”. Pouco importa o “amor verdadeiro”. Hoje eles se atrevem a serem felizes juntos, num mundo tão individualista. Hoje é o que conta. Contam os minutos para cada um ir para sua respectiva sala de aula e tentam multiplicá-los ao máximo.

Eu nunca falei com eles, tampouco sei o curso que fazem ou sequer os nomes. Afinal, quem sou eu para atrapalhar algo tão único, ainda que diário? Só sei que todos os dias, das 7h45 às 8h, os dois se amam incondicionalmente.

Se um dia lerem isto, saibam que vocês me lembram um outro casal, desses que também contavam os segundos para o intervalo. Por mais que os corredores tenham se tornado esquinas e os 16 tenham se tornado 20, eles continuam com o mesmo frio na barriga. Até hoje ela não sai da minha cabeça de jeito nenhum. Quando se encontra o amor da vida, por mais que demore a vida toda, vale cada sorriso, cada abraço, cada instante.

A beleza do cotidiano por vezes se esconde. Quando a gente menos espera, acaba tropeçando em mais um amor de corredor. Entre um café e outro, ainda os vejo de longe. Mesmo que sem assunto, dizem tanto. Acredite, o mundo ainda é dos amadores (por mais que a maioria insista no contrário).

Allyson Santos
19ABR19

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