Ainda com as pálpebras pesadas depois de mais uma noite mal dormida, cheguei cansado. Tropecei cerca de quatro vezes no caminho até a Universidade. O poeta não brincava quando dizia que no meio do caminho havia uma pedra (ou várias).
Depois de um
ano inteiro fazendo o mesmo trajeto até a sala de aula, resolvi tomar um
caminho mais longo (dessa vez sem os fones de ouvido). Tinha de encontrar algo
diferente. Era preciso tropeçar em novas pedras, a começar pela entrada da
Praça Santos Andrade. Não demorou muito para mais um tombo.
Respirei
fundo e virei à esquerda. São cerca de vinte passos até a escadaria que leva ao
próximo bloco. Por costume ou necessidade, andava olhando para o chão. Acho que
a maioria das pessoas que não valorizam a experiência do contato visual faz
isso. Acredite, não é o meu caso. Com um olhar discreto de baixo para cima,
algo chama a atenção.
Dois jovens,
de alguma forma dividiam o espaço de um único azulejo. O olhar fixo não era de
qualquer efemeridade, era eterno. Por mais que não se ouvissem as frases ao pé
do ouvido, os sorrisos de ambos já denunciavam as juras de amor. Só pude olhar
por cerca de três segundos. Por sorte, foi a única coisa durou pouco naquele
momento.
Conforme
eu repetia o caminho diariamente, também se repetia a cena, mas nunca o
contexto. Dias de beijos, dias de brigas. Nada mais importava. O que importava
era que eles permaneciam ali, dividindo o mesmo pedacinho de azulejo em uma
cidade do interior do Paraná. Sem dúvida, para eles, a pequena distância entre
os pés era quilométrica.
Loira
dos olhos verdes e moreno dos olhos castanhos. Os dois se completam. Pouco
importa o “para sempre”. Pouco importa o “amor verdadeiro”. Hoje eles se
atrevem a serem felizes juntos, num mundo tão individualista. Hoje é o que
conta. Contam os minutos para cada um ir para sua respectiva sala de aula e
tentam multiplicá-los ao máximo.
Eu
nunca falei com eles, tampouco sei o curso que fazem ou sequer os nomes.
Afinal, quem sou eu para atrapalhar algo tão único, ainda que diário? Só sei
que todos os dias, das 7h45 às 8h, os dois se amam incondicionalmente.
Se um dia
lerem isto, saibam que vocês me lembram um outro casal, desses que
também contavam os segundos para o intervalo. Por mais que os corredores tenham
se tornado esquinas e os 16 tenham se tornado 20, eles continuam com o mesmo
frio na barriga. Até hoje ela não sai da minha cabeça de jeito nenhum. Quando se encontra o amor da vida, por mais que demore a vida toda, vale cada sorriso, cada abraço, cada instante.
A beleza do
cotidiano por vezes se esconde. Quando a gente menos espera, acaba tropeçando
em mais um amor de corredor. Entre um café e outro, ainda os vejo de longe.
Mesmo que sem assunto, dizem tanto. Acredite, o mundo ainda é dos amadores (por
mais que a maioria insista no contrário).
Allyson Santos
19ABR19

Nenhum comentário:
Postar um comentário