segunda-feira, 13 de maio de 2019

Efeito Borboleta

Foto: Vinícius Santos
           

              Era um fim de tarde mais conturbado que o normal, se é que existem tardes normais. Eu tinha dois treinos de futsal. O primeiro às 18h e o segundo as 21h30. Se quiserem pensar que sou um bom atleta, ótimo. Eu evitaria o adjetivo, afinal, fazer algo várias vezes não te torna necessariamente bom. Saí de casa com pressa. O relógio me atrasava.

            Estacionei o carro duas quadras para baixo do ginásio. Durante a caminhada, lembrei que precisava ligar para o pai, já que não tinha avisado ninguém dos meus compromissos com a várzea. Tentativa e erro. Vasculhei a mala e os bolsos. Nada do celular. E olha que, assim como você, nunca saio de casa sem o aparelho, seja por vício ou necessidade. Segue o baile.

Ao fim do primeiro treino, tive que mudar a ideia original. Voltar para casa não estava nos planos, já que poderia muito bem ter participado da resenha esportiva enquanto o tempo passava. Mesmo exausto, mantive fixa a ideia de marcar presença no segundo treino. No período em que comia uma pizza requintada, encontrei o celular e prometi carona para cinco sujeitos. Como caberia no carro?  Pergunta que faço até hoje.

Enquanto recuperava as energias, começou uma chuva torrencial. O mundo caía justamente naquele horário, após um dia nublado e seco. O relógio na parede batia 21h, aproximadamente. Quando abro a porta do carro, sinto uma agonia, um aperto incomum próximo ao lado esquerdo do peito. Já havia dirigido incontáveis vezes com o tempo ruim, no entanto, algo estava errado naquela noite.

Comecei a abrir o portão eletrônico. Segundos depois, ouço da janela gritos desesperados de minha irmã e imediatamente paro o carro e travo o controle. Olho pelo retrovisor e vejo meu cachorro preso entre as barras de ferro do portão. Sempre que chove, ele se assusta com as trovoadas e se esconde. Dessa vez, ele tentava escapar do perigo por entre as grades. Saio do carro, deixando a porta aberta na chuva, e corro em direção a ela para resgatá-lo.

Depois de cerca de trinta minutos de exaustão, ele próprio se contorceu (de um jeito que só o cachorro conseguiria) e voltou correndo para a casinha. Eu estava encharcado e havia perdido o horário do treino, sem mencionar a imensa justificativa ao pessoal da carona, que teve de apelar para o Uber.

O bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? Foi o que um meteorologista se questionou, ao estudar aspectos da teoria do caos. Basicamente, a análise de Edward Lorenz consistia em observar como as pequenas mudanças podem afetar diretamente as consequências e o destino dos grandes sistemas. Mais ou menos o que aconteceu na semana passada.

Se eu tivesse saído um pouco antes rumo ao primeiro treino. Se eu lembrasse de pegar o celular. Se não chovesse naquele exato instante. Se eu não hesitasse ao entrar no carro. Se meu cachorro não ficasse preso. Se eu me atrasasse um pouco para voltar para casa. Tudo seria diferente. No fim das contas, o bater de asas de uma borboleta foi além do acaso.

Allyson Santos
13MAI19

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