terça-feira, 7 de maio de 2019

Aquele do cartão de crédito


Eu voltava pra casa conversando com o motorista do uber sobre a facilidade que os aplicativos de serviço nos trouxeram. É fato que ficamos mal acostumados com todos esses privilégios que somos obrigados - por nós mesmos- a consumir. Por dez reais a menos compramos uma pizza no dia em que comeríamos pão com queijo, e assim vamos gastando nosso pouco dinheiro. Mas não era essa a história que queria contar.

Em 2016 fui ao show do Oswaldo Montenegro com minha madrinha, seu filho e meu irmão. A apresentação era em Curitiba e morávamos a duas horas da capital. Combinamos de começar a viagem bem cedo, parar tomar café no caminho e chegar em Curitiba ainda antes do almoço.

Tudo saiu conforme o combinado, exceto pela exposição de carros antigos que acontecia na cidade onde paramos para o café. Como tínhamos tempo aproveitamos para voltar ao passado com as kombis e os passates em exposição. Finalmente chegamos em Curitiba e fomos direto até o local do show para traçarmos uma rota, já que voltaríamos mais tarde.

Entre um papo e outro fomos almoçar no shopping, afinal ninguém é de ferro. Minha tia entrou numa dessas lojas de departamento para fazer algumas compras e as horas foram passando, passando, passando. Nosso roteiro atrasou porque ela caiu no papo do vendedor e resolveu fazer o cartão da loja. "É rapidinho", disse sorridente o funcionário. Aquele sorriso de quem sabe que está enganando mais um cliente. No final das contas conseguimos chegar a tempo no teatro e assistimos ao belíssimo show do artista.

Mas eu lembrei dessa história quando, três anos depois, fui ao shopping comprar o presente de aniversário de meu pai. Resolvi fazer o cartão da loja, que prometia dez porcento de desconto na primeira compra. Eu, na minha ingenuidade, achei que era um cartão de fidelidade e fui submetido a milhões de perguntas.

- "Você tem filho?"- "Não", - "Estado civil?" - "Solteiro", - "Escolaridade?" - "Superior incompleto", - "Trabalha com o quê?" - "Não trabalho, estudo", - "Ah! Então vou colocar que você é autônomo" - "Oi?". Nesse momento percebi que não era um cartão fidelidade e já queria voltar atrás, mas decidi continuar para ver onde aquilo ia chegar. - "Vou colocar que você trabalha com vendas há dois anos". Aceitei com a consciência pesada, algo estava errado, mas a moça era simpática. Então ela tirou uma foto do meu rosto, digitalizou meus documentos e pediu para eu esperar porque o pessoal da sede da empresa iria me ligar.

Atendi a ligação e uma mulher com sotaque nordestino avisou que estava entrando em contato para confirmar alguns dados. Percebi que era o padrão da loja. Confirmei meu nome, idade, estado civil, escolaridade. Foi então que ela perguntou qual era o meu trabalho. Hesitei e respondi: "autônomo". E ela: "tudo bem, mas trabalha com quê?". Pensei muito mas respondi novamente: "Com vendas". Quando eu achava que o interrogatório tinha terminado ela me vem com essa: "Que tipo de vendas?", a vendedora na minha frente gesticulava algo na camiseta, rapidamente respondi: "Vendo roupas, essas coisas". A mulher era insistente no telefone: "há quanto tempo você vende roupas?", a moça na minha frente fazia o número dois com os dedos e eu reticente na resposta: "uns dois anos". A moça desligou e pediu para eu aguardar na loja.

Depois de alguns instantes de agonia a atendente da loja me avisou que tinham negado o meu cartão. Perdi o desconto mas ganhei a minha dignidade com um leve sorriso de alívio que saiu do meu rosto outrora preocupado. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria uma coisa dessas.

Mas, entretanto, todavia, voltei ao shopping na semana passada para comprar outro presente em outra loja e o vendedor veio todo feliz explicando as promoções e vantagens que eu teria caso fizesse o cartão de fidelidade. Cá estou eu com o cartão de uma loja de calçado que, provavelmente, nunca mais irei voltar.

Thailan de Pauli Jaros
07MAI2019


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