Um bolso furado. As
maiores tragédias da humanidade devem ter começado assim. Não encontrava a chave
do novo apartamento. Na verdade, está mais para uma quitinete, mas não por
humildade ou opção. As finanças haviam apertado depois do divórcio. O que deu
para comprar foi um cubículo próximo a Rua XV. Bom lugar para quem quer se
esconder da cidade e de si mesmo. Uma escrivaninha, um colchão velho e um
guarda-roupa o acompanhavam nas primeiras semanas, além das dívidas e da
melancolia. Agora não tinha nem isso. Todas as portas haviam se fechado para
aqueles cabelos grisalhos. Ninguém se importava com sua pele fria e seu emprego
inútil. Estava sozinho. Ainda teve de gastar com um chaveiro.
Um momento de inocência. As pequenas coisas, os lampejos
de alegria são os que nos mantém vivos. Ela voltava da faculdade a pé. Alguém
uma vez disse que era bom gastar a sola do sapato para que o mundo não gastasse
a alma. Na batida da música independente que tocava em seus fones de ouvido,
jogava o molho de chaves de uma mão para outra. Com os olhos fechados, sonhava com
uma mentira repetida nos outdoors. Ela sabia disso. Estava feliz. A revolução
era em seu coração jovem, com imenso potencial para decepção. Em um dos
arremessos, uma das chaves se soltou caprichosamente e encontrou a calçada de uma
esquina qualquer. Quando percebeu, era tarde demais para procurá-la. Cedo
demais para abrir qualquer porta. Momento exato para rir da própria falta de
atenção.
O
fato é que não sei como essa chave veio parar comigo. Eu te enrolei tanto nos
primeiros parágrafos para não revelar quem é o dono da chave? Sim e não. Mas
pense comigo, a chave 55 apareceu nas minhas coisas há algumas semanas e ninguém dos
meus amigos sabe de quem é. Sinceramente, eu não sei se quero solucionar o
mistério. Imagino uma história diferente do possível dono da chave toda a vez
que olho para ela. Chega a ser algo mágico. Às vezes triste, às vezes feliz,
mas sempre mágico. As chaves dizem muito sobre as pessoas. Por vezes, tudo.
Por
muito tempo eu quis solucionar os mistérios que existem dentro de mim. Os picos
de estresse, a necessidade de sumir de vez em quando, o fato de eu não falar
muito sobre mim, o rancor que aprendi a guardar com o passar dos anos. São as
portas trancadas que fazem de mim quem eu sou. A minha própria chave 55 é que
mantém minhas possibilidades infinitas para ser quem eu quiser e não aquilo que
os outros esperam.
Mas
enfim, se você perdeu uma chave com uma etiqueta “55”, me procure! Estou sempre
por aí. Sempre distante, mas sempre por aí.
Allyson Santos
23MAI19
Allyson Santos
23MAI19

Nenhum comentário:
Postar um comentário