quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os mistérios da chave 55



Um bolso furado. As maiores tragédias da humanidade devem ter começado assim. Não encontrava a chave do novo apartamento. Na verdade, está mais para uma quitinete, mas não por humildade ou opção. As finanças haviam apertado depois do divórcio. O que deu para comprar foi um cubículo próximo a Rua XV. Bom lugar para quem quer se esconder da cidade e de si mesmo. Uma escrivaninha, um colchão velho e um guarda-roupa o acompanhavam nas primeiras semanas, além das dívidas e da melancolia. Agora não tinha nem isso. Todas as portas haviam se fechado para aqueles cabelos grisalhos. Ninguém se importava com sua pele fria e seu emprego inútil. Estava sozinho. Ainda teve de gastar com um chaveiro.

Um momento de inocência. As pequenas coisas, os lampejos de alegria são os que nos mantém vivos. Ela voltava da faculdade a pé. Alguém uma vez disse que era bom gastar a sola do sapato para que o mundo não gastasse a alma. Na batida da música independente que tocava em seus fones de ouvido, jogava o molho de chaves de uma mão para outra. Com os olhos fechados, sonhava com uma mentira repetida nos outdoors. Ela sabia disso. Estava feliz. A revolução era em seu coração jovem, com imenso potencial para decepção. Em um dos arremessos, uma das chaves se soltou caprichosamente e encontrou a calçada de uma esquina qualquer. Quando percebeu, era tarde demais para procurá-la. Cedo demais para abrir qualquer porta. Momento exato para rir da própria falta de atenção.

O fato é que não sei como essa chave veio parar comigo. Eu te enrolei tanto nos primeiros parágrafos para não revelar quem é o dono da chave? Sim e não. Mas pense comigo, a chave 55 apareceu nas minhas coisas há algumas semanas e ninguém dos meus amigos sabe de quem é. Sinceramente, eu não sei se quero solucionar o mistério. Imagino uma história diferente do possível dono da chave toda a vez que olho para ela. Chega a ser algo mágico. Às vezes triste, às vezes feliz, mas sempre mágico. As chaves dizem muito sobre as pessoas. Por vezes, tudo.

Por muito tempo eu quis solucionar os mistérios que existem dentro de mim. Os picos de estresse, a necessidade de sumir de vez em quando, o fato de eu não falar muito sobre mim, o rancor que aprendi a guardar com o passar dos anos. São as portas trancadas que fazem de mim quem eu sou. A minha própria chave 55 é que mantém minhas possibilidades infinitas para ser quem eu quiser e não aquilo que os outros esperam.

Mas enfim, se você perdeu uma chave com uma etiqueta “55”, me procure! Estou sempre por aí. Sempre distante, mas sempre por aí.

Allyson Santos
23MAI19

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