terça-feira, 5 de novembro de 2019

Anos-luz



Já era madrugada, não sei ao certo a hora. Eu estava dentro do ônibus voltando de uma longa viagem. As estrelas se misturavam em meio aos aviões e helicópteros que movimentavam o céu de São Paulo, fazendo jus ao títilo de metrópole.

Mas uma estrela em particular me chamou a atenção. Parecia que ela estava me seguindo. Era brilhante, tinha uma luz impressionante. Parecia que estava me olhando. Quando percebi estava conversando com a estrela. Não lembro qual foi o assunto, não lembro se ela respondeu. Provavelmente ela nem existia mais. Possivelmente era um planeta. Parecia que estava girando. Incontáveis anos-luz era a distância entre eu e aquela estrela. Eu tão insignificante, ela tão brilhante.

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Lembrei que a primeira vez que vi uma estrela cadente foi em uma noite de inverno. Eu voltava para casa no sereno após tirar os pontos de um rasgo no braço. Aquele brilho era tão grandioso que por um instante pensei que seríamos extintos, assim como os dinossauros.

Anos depois, quando vi a segunda estrela cadente, descobri que a primeira foi especial. Não era uma estrela caindo no céu, era uma bola de fogo rápida e cadente. Um meteoro que rasgava o horizonte estrelado na fria noite de junho.

Como qualquer criança fiz um pedido tosco que mantive em segredo por todos os dias de minha vida. O segredo continua, mas posso dizer que o desejo se realizou. Hoje, é claro, não acredito mais nisso, tenho outras coisas para acreditar.

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As reflexões causadas pela estrela durante a viagem me fizeram chegar em outros astros. Escrevo sobre aqueles que, talvez por falta de humildade, perdem o equilíbrio e se tornam o centro das atenções. As grandes estrelas mundanas que juram ser brilhantes mas fazem a luz se apagar como num fogo de palha. Uma fagulha que se levanta na imensidão, chama a atenção e logo se apaga no meio do nada. Até as mais belas estrelas podem cair. Algumas conseguem chamar a atenção no precipício, outras causam estragos inimagináveis, mas a maioria não faz o dinossauro perceber que não existe mais.

A chama do que podemos chamar de estrelismo se espalha rapidamente e é aplaudida a cada vírgula, a cada puxada de ar, a cada passo. Os aplausos sinalizam que a coletividade sempre está esperando novos astros, novas caricaturas, novos deuses. E os altares continuam repletos de estrelas, são milhares que quase não cabem em tão pouco espaço. Todos felizes, todos alimentados pelo próprio ego e pela própria destruição.

E o público pede bis, quer a cambalhota, quer o sorriso de canto, o olhar triunfante. Continua querendo até que uma hora cansa. Cansa porque a pedra, o sangue e a gritaria constituem o próximo passo. Se Raul Seixas dizia que "o problema é muita estrela, pra pouca constelação", podemos dizer que nossos telescópios continuam a postos para assistirmos felizes à destruição do que outrora amávamos.

O fogo, a queda, a lágrima, a fé. As estrelas brilham e se apagam e como gran finale nos afastamos delas e procuramos outros astros para amar. De repente alguém insubstituível não é mais importante para nós. A anos-luz de nossos olhos há uma imensidão incapaz de ser tocada, e nós, quando pararemos de amar a nossa estrela atual? Se é que já não a amamos há tempos...

Até a próxima esquina!
Thailan de Pauli Jaros
05NOV2019 

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