terça-feira, 19 de novembro de 2019

O carneiro na sala


Diz a história que um homem foi até o padre reclamar que sua casa era muito pequena, que a sala era miserável e não cabia quase nada. O padre, entendendo as dores do sujeito e procurando uma solução, sugeriu que o homem colocasse um bode no centro da sala e o deixasse lá por alguns dias.

Passado um tempo o homem voltou ao padre ainda mais triste e reclamão, o espaço continuava pequeno e o bode no meio da sala atrapalhava ainda mais. O padre, então, pediu para que o sujeito tirasse o bode da sala, já que a situação havia piorado. E assim foi feito.

Dias depois o homem encontrou o padre novamente e com um sorriso no rosto lhe disse que estava satisfeito com sua casa, que sobrava espaço e a sala era enorme. O espaço continuava o mesmo, mas o bode na sala fez com que o homem valorizasse o espaço antes tido como minúsculo.

Contei essa história porque ela é recorrente no mundo político, normalmente para politicagem, mas na minha situação essa história foi meio que real, só que o personagem não foi um bode e sim um carneiro.

(*)

Não lembro a minha idade, mas esse fato aconteceu anos atrás. Eu desbravava o interior de minha cidade de bicicleta, passeava pelas trilhas, corria no chão de terra e pulava em poças de água da chuva.

Um dia, eu e meu irmão íamos até a chácara de nossos avós e encontramos no meio do caminho um carneiro. O animal aparentava ser pacífico, mas seu dono logo avisou que não poderíamos correr porque certamente iria irritá-lo. Desci calmamente da bicicleta e continuei o caminho bem devagar. Meu irmão ignorou a sugestão do dono do carneiro e, com sua bicicleta, desceu a pequena rua até o nosso destino.

- "Chico" - gritava o homem para o carneiro, que para minha surpresa tinha um nome bem simpático. Eu segurando minha bicicleta de passo em passo tentava despistar o bicho já um pouco desconfiado. Ele me seguia e quanto mais eu apertava o passo, mais ele vinha em minha direção. - "Seja o que Deus quiser" - pensei ao subir na bicicleta e pedalar como se não houvesse amanhã.

Não tinha erro pior. O Chico correu atrás de mim e seu dono ficou para trás. Minha corrida com o carneiro durou uma eternidade. São Silvestre era somente uma miragem nessa altura do campeonato. Até que finalmente eu e minha bicicleta chegamos na casa de meus avós sãos e salvos, pelo menos era o que eu pensava.

Mal recuperei o fôlego ao encontrar meu irmão na cozinha e quando olhamos lá estava o carneiro dentro da sala. O animal entrou na casa e passeou pelos corredores e quartos. Sem reação nos escondemos atrás do sofá e esperamos socorro. - "Ai meu São Silvestre, São Francisco, rogai por nós, cuida desse bicho e de nós".

Quando já não tinha solução uma camionete despontou no horizonte. Era o dono do Chico que viu, na impossibilidade de chamar com carinho, a necessidade de prender o animal na caçamba do carro, para levá-lo a salvo à sua verdadeira casa.

Nós, sempre corajosos, agradecemos a boa vontade do homem e o bom humor do carneiro. Virou piada, virou história.

Até semana que vem
Thailan de Pauli Jaros
19NOV2019


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