sexta-feira, 15 de março de 2019

O primeiro a chegar e o último a sair



             A distância entre o portão do estádio e a baliza pode durar alguns segundos ou uma vida toda. Basta um leve sopro de vento ou uma simples garoa fina para que o trajeto dure uma eternidade, ou talvez nunca termine. Afinal, é uma missão ingrata evitar ou provocar aquilo que muda diretamente o rumo de toda uma sociedade.

          Um grande escritor uma vez disse que “quando certo time vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, a vida canta, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes, há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz, está feliz”. Deve ser uma responsabilidade imensa garantir que tal raciocínio se concretize e uma dor insuportável ter de interrompê-lo, ou não ser capaz disso.

          Treinamentos incessantes para se tornar refém do acaso são apenas detalhes perto da solidão que só os frios postes brancos proporcionam. Além da crueldade, é trabalho para um só. Quando ocorrem acidentes de percurso, não há com quem dividir a culpa, não há ombro para chorar. Ser goleiro é viver no contrapé, é espalmar a tragédia, é fazer o possível (e o impossível) para o bem e para o mal.
            Hoje não é dia do goleiro. Aliás, nunca é o dia do goleiro (a não ser que a bola não ultrapasse a última linha). Todo e qualquer movimento deve ser previamente calculado. Por vezes a matemática deve fluir 0.6 segundos antes do fim. Por vezes, ao fixar  os olhos no atacante que acaricia a bola na marca da cal, não há calculadora. Apesar de exercer função tão ingrata, o goleiro tem coração. O maior dos corações, seja para suportar a dor, ou para aguentar a alegria de quem salva o coração de tantos outros.

          O caminho é longo para quem pisa primeiro no gramado. A distância é infinita para aqueles que tem coragem de percorrê-lo até o fim. Dedico este texto a todos os meus amigos da baliza. O dia nunca é de vocês, mas isso somente porque os deuses do esporte lhes proporcionaram a oportunidade (ou a punição) de criar seu próprio destino. E jamais esqueçam que todo grande time começa por um grande goleiro! 

Obrigado @DoRicoAoPobre por continuar alimentando meus sonhos e por me ensinar que o futebol, assim como a vida, não tem divisão!

Publicarei alguma coisa aqui toda vez que quinta virar sexta.

Allyson Santos
15FEV19

4 comentários:

  1. Bela reflexão.
    Goleiro: uniforme difrente pode jogar com aa mãos, treinamento diferente. Sempre joguei para vencelos, com dribles e chutes para surpreender. Embate que me faz sempre se reinventar no futebol.

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  2. parabéns a todos que tem corragem de vestir essa camisa diferente é suportar a derrota mesmo quando vc n tem culpa alguma em nem um lance q vc tenha falhado, se vc não tivesse levado o gol nois ganhava. cruel essa profissão mas pra mim muito gratificante. parabéns mais uma vez a todos os goleiros corajosos .

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  3. Parabéns pela Crônica Allyson (...) posição tida como "ingrata", pouco lembrada nas vitórias, porém,massacrada nas derrotas, mas, quem vive debaixo da baliza, sabe bem a necessidade em se manter física, técnica, tática e psicologicamente BEM...abraços de seu primo GOLEIRO

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  4. Excelente constatação do ponto de vista daquele que tem a ingrata missão de impedir o objetivo maior do esporte. Parabéns Allyson, texto irretocável. André

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