Já tem me incomodado faz um tempo. Coisa de alguns meses e poucas horas. Começou numa daquelas noites quentes de verão que, cá entre nós, eu nunca gostei. Foi nesse dia que ela apareceu pela primeira vez. Chegou devagarinho, igual gente tímida que precisa puxar assunto com o motorista do ônibus pra saber onde descer, e veio até o meu ouvido como quem quer contar um segredo. Ela nunca mais foi embora.
A mosca tirou meu sono naquela noite que eu tinha programado de esquecer dos problemas do meu mundo. Era uma noite tão perfeita… Eu tinha tudo sob o meu controle, mas ela não queria saber. Naquele dia, eu me levantei, acendi todas as luzes do quarto pra dar um fim em tudo. Com a luz, ela desapareceu. Bastava eu me deitar, para que aquele zumbido infernal voltasse aos meus ouvidos. Desde então, nesse ritmo frenético de looping, fluem as nossas conversas noite adentro, dias afora.
Quando você tem uma mosca te perturbando sempre, os dias começam a parecer cada vez mais iguais. Os textos que você escreve são os mesmos. As piadas preconceituosas, a procrastinação, os pecados, as infidelidades. Tudo parece estar sempre ali, no seu ouvido. Não tem nada que você possa fazer. Você começa a achar que tudo é uma grande coincidência, uma pegadinha ou só mais um episódio mal escrito da vida idêntica que você insiste em levar, mas fica pior. Comigo, ficou. O problema mesmo começou por volta do terceiro mês.
A mosca começou a aparecer em outros momentos do meu dia. Quando eu comi um pouco a mais no almoço, ela estava na cadeira da frente, esfregando aquelas mãos frias de quem se alimenta de sangue. Quando eu ofendi alguém no trânsito enquanto mexia no celular, ela aparecia no retrovisor. Quando eu respondia àquelas mensagens, ela me torturava de orelha a orelha.
Na última vez que fui à igreja, a mosca também estava lá. Ela pousou em um daqueles fios que as paróquias estão usando pra separar os assentos. A mosca estava bem na minha frente, mas nesse dia, eu não senti ódio dela. Ficamos nos encarando por um tempo, como se tentássemos descobrir o que havia de errado um com o outro. Não brinco, ela ficou ali por pelo menos uns 20 minutos. Eu não senti vontade de matá-la. De alguma forma, queria que ela me desse respostas para tudo que está acontecendo. Uma resposta para as pessoas que eu magoei, para o tempo que eu perdi e para os pecados que cometi.
Ela não me disse nada, mas eu pude ver a dor daqueles grandes olhos e, no fim, descobri que somos iguais. A busca por atenção, o voo sobre os defeitos fétidos dos nossos inimigos, a insignificância, o bater de asas sem rumo e a solidão interna e eterna. Hoje? Hoje ela ainda está aqui. Dentro da insônia dos meus dias, ela está cada vez mais presente. Conforme as pessoas vão embora, mais moscas eu vejo. Deus, estou vendo tantas moscas desde que ela foi embora... Acho que preciso decidir entre ser uma delas de vez… ou não. Talvez eu tenha que tomar mais banhos também.
Allyson Santos
20 JAN 2021
P.S. Não sei mais mexer aqui, mas meus textos vão sair sempre nas quintas pra não encavalar com os do mestre Thailan. O horário depende do nível de tragédias que acontecerem em PG e região. Saudações!

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