Por Paulo Rogério de Almeida
Há uns vinte anos, aproximadamente, eu estava em minha casa quando recebi a visita de um senhor muito distinto, amigo da minha sogra, que tinha vindo convidá-la para sair.
Conversa vai, conversa vem, não sei como o “papo” chegou ao assunto “viagens” e, por extensão, em seguida, chegou-se à “aviação”. Esse senhor, cuja idade não mencionarei, comentou que ainda usava calças curtas e se lembrava da visita do aviador Alberto Santos Dumont à nossa cidade. E explicou que os ponta-grossenses, da época, quase passaram um tremendo “carão” (uma enorme vergonha), diante de uma pessoa tão ilustre e famosa.
E, diante do interesse geral dos presentes, relatou que, após o memorável feito do brasileiro em terras europeias, Ponta Grossa resolveu homenageá-lo, dando seu nome a uma rua. Escolheram uma das ruas mais centrais e assim ficou. Passou-se certa quantia de tempo e nada do homenageado aparecer. Claro, estava muito ocupado na Europa com outros projetos.
Mais algum tempo depois, aconteceu o falecimento de um ilustre político, o Senador Pinheiro Machado. Como era necessário prestar uma homenagem ao emérito cidadão, pensou-se, naturalmente, em nome de rua. Só que tinha que ser “aquela” rua! Porque justamente “aquela” rua, eu não sei explicar (minha pesquisa não achou o motivo e as pessoas que entrevistei também não souberam me dizer). O fato é que, com o argumento de que Santos Dumont ainda estava vivo e o outro não, retiraram as placas da então Rua Santos Dumont e colocaram-nas na atual Rua Pinheiro Machado (que, na época, tinha outro nome).
Todo mundo feliz até que, em 04 de maio de 1916, finalmente chegou à nossa cidade o famoso aviador Alberto Santos Dumont. Pelos relatos que obtive, foi uma recepção bem calorosa, com uma verdadeira procissão, constituída de carros, bicicletas e carroças, desde a entrada até o centro da cidade. Carroças? Bicicletas? Aí, você acha que eu exagerei, não é mesmo? Bem, vamos esclarecer que, em 1916, os carros não eram propriamente uns bólidos; talvez “corressem” a uns dez ou vinte quilômetros por hora. Poderiam perfeitamente ser acompanhados por bicicletas e carroças.
Segundo eu soube, no dia seguinte, 05 de maio, a convite do deputado Eliseu Campos Melo, foram visitar a Fazenda Modelo. No retorno, o deputado quis fazer uma gentileza, convidou Santos Dumont a conhecer a rua que levava o seu nome (nome do aviador, não do deputado, esclareça-se) e disse para o motorista: “Fulano, por favor, leve-nos à Rua Santos Dumont. Basta subir a Avenida Vicente Machado e dobrar à esquerda”. (Observação: na época, a Avenida tinha duas mãos). Creio que o motorista “sacou” que o deputado não estava a par das mudanças havidas, mas, como ordem é ordem, fez o que foi solicitado e estacionou o carro em frente de uma loja de ferragens chamada “Casa Osternack”.
Todos desceram e, muito orgulhoso, o deputado começou a falar e se engasgou, porque todos puderam ver, em letras bem legíveis: “Rua Senador Pinheiro Machado”.
E agora?
O motorista, muito esperto, percebendo a confusão que o deputado criara sem querer, salvou o dia, dizendo: “Puxa, que distração a minha, senhor deputado! O senhor falou Rua Santos Dumont e eu vim para o lado errado! Desculpe-me! Vamos embarcar novamente! Desta vez, não errarei!”.
Dito isso, todos voltaram a seus carros e se dirigiram para a atual Rua Senador Pinheiro Machado, onde os membros na grande comitiva e o homenageado, é claro, puderam ver, claramente, as placas onde estava escrito: “Rua Santos Dumont”.
Não preciso dizer que, algum tempo depois, quando a “poeira” assentou e não mais se comentava a “gafe”, as placas foram trocadas.
Um adendo: que lástima não termos mantido, em nossas memórias, outros fatos, engraçados ou tristes, que marcaram a história de nossa cidade.
Outro adendo: certa vez, apesar da minha disciplina ser Literatura Brasileira, nos Cursos de Letras, fiz um comentário em sala de aula e, para minha surpresa, uma das minhas alunas, uma senhora, confirmou os fatos relatados. Ela conhecia todos os detalhes, simplesmente por ser neta daquele motorista. Que notável coincidência, não?
(Crônica publicada na Revista DUO [revistaduo.com.br], Ponta Grossa, n. 2, p. 70, outubro/novembro 2012).
Paulo Rogério de Almeida é professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa

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