quinta-feira, 4 de julho de 2019

Um rabisco qualquer




Volte no tempo. Imagine um dia ensolarado. Uma terça-feira, para ser mais preciso. Você provavelmente estava em casa esperando o sorveteiro passar, jogando bola na esquina ou simplesmente colocando um giz de cera no nariz. Bom, eram três da tarde e eu estava na escola. No “jardim dois”, como chamavam (ou ainda chamam) o segundo ano do primário. Falecido uniforme azul e branco do Colégio São José. 

Eu não fiz o “jardim um”. Acho que passei um ano da minha vida criando coragem. Valeu a Pena. No primeiro dia de aula, minha mãe ficou do lado de fora esperando que eu chorasse, como uma criança normal. As lágrimas não vieram, a adrenalina era alta demais. Assim como você, assisti várias vezes “Procurando o Nemo”. Saudades do Allyson no auge dos cinco anos. Era menos estressado, eu acho. Mas voltemos àquela terça-feira. Três horas da tarde.

Aproximava-se a hora do recreio. A professora havia dado a seguinte atividade: pintar o desenho de um palhaço. Parecia simples. Tão simples que naquele momento tudo parecia mais importante. Conversa vai, conversa vem. O tempo passou e a tia soltou o recado: “Só sai da sala, quem terminar a tarefinha”. Por algum motivo, todos os meus amigos que estavam fazendo zona comigo, encerraram e saíram.

Eu já estava sozinho na sala, até a professora tinha me abandonado. Bateu um enorme desespero. Peguei todos os lápis de cor que estavam na mesa com a mão direita. Segurei firme e utilizei todos ao mesmo tempo, criando uma obra de arte única, que só eu era capaz de explicar. Com o fim do expediente, fui aproveitar os quinze minutos de glória, que só o intervalo era capaz de proporcionar.

No dia seguinte, meus pais foram chamados na escola. Até hoje não sei bem o conteúdo da conversa, mas era algo do tipo “precisamos falar sobre o Allyson”. Na certa acharam que eu era louco. Hoje faço jornalismo. Enfim, foi meu primeiro ato de rebeldia na escola. Alguns dizem que eu desrespeitei as regras. Outros dizem que eu questionei o sistema. Só o tempo dirá quem está certo. Como você leu até aqui, vou te ajudar com a moral da história.

Se for dar o migué, não tenha pressa. Seja criativo (só fui aprender isso depois).

Allyson Santos
04MAI19

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