Volte no tempo. Imagine
um dia ensolarado. Uma terça-feira, para ser mais preciso. Você provavelmente
estava em casa esperando o sorveteiro passar, jogando bola na esquina ou
simplesmente colocando um giz de cera no nariz. Bom, eram três da tarde e eu
estava na escola. No “jardim dois”, como chamavam (ou ainda chamam) o segundo
ano do primário. Falecido uniforme azul e branco do Colégio São José.
Eu não fiz o “jardim um”. Acho que passei um ano da minha
vida criando coragem. Valeu a Pena. No primeiro dia de aula, minha mãe ficou do
lado de fora esperando que eu chorasse, como uma criança normal. As lágrimas
não vieram, a adrenalina era alta demais. Assim como você, assisti várias vezes
“Procurando o Nemo”. Saudades do Allyson no auge dos cinco anos. Era menos
estressado, eu acho. Mas voltemos àquela terça-feira. Três horas da tarde.
Aproximava-se
a hora do recreio. A professora havia dado a seguinte atividade: pintar o
desenho de um palhaço. Parecia simples. Tão simples que naquele momento tudo
parecia mais importante. Conversa vai, conversa vem. O tempo passou e a tia
soltou o recado: “Só sai da sala, quem terminar a tarefinha”. Por algum motivo,
todos os meus amigos que estavam fazendo zona comigo, encerraram e saíram.
Eu
já estava sozinho na sala, até a professora tinha me abandonado. Bateu um
enorme desespero. Peguei todos os lápis de cor que estavam na mesa com a mão
direita. Segurei firme e utilizei todos ao mesmo tempo, criando uma obra de
arte única, que só eu era capaz de explicar. Com o fim do expediente, fui
aproveitar os quinze minutos de glória, que só o intervalo era capaz de
proporcionar.
No
dia seguinte, meus pais foram chamados na escola. Até hoje não sei bem o conteúdo
da conversa, mas era algo do tipo “precisamos falar sobre o Allyson”. Na certa
acharam que eu era louco. Hoje faço jornalismo. Enfim, foi meu primeiro ato de
rebeldia na escola. Alguns dizem que eu desrespeitei as regras. Outros dizem
que eu questionei o sistema. Só o tempo dirá quem está certo. Como você leu até
aqui, vou te ajudar com a moral da história.
Se
for dar o migué, não tenha pressa. Seja criativo (só fui aprender isso depois).
Allyson Santos
04MAI19

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