A primeira sensação
real de medo é inesquecível. Eu tinha seis anos quando meus pais me levaram
para o centro da cidade comprar um colchão novo. “Mas, ué? Você tem medo de
colchão?”. Aposto que minha namorada gostaria que eu tivesse, pela minha
quantidade imensurável de horas dormidas. Mas não, o medo vem um pouco mais
adiante. Havia acabado de beber um refrigerante no caminho até a loja e, ao
chegar lá, bateu aquela vontade de ir ao banheiro.
A atendente me levou até o recinto. A porta branca nos
fundos do estabelecimento levava a um corredor escuro que, por sua vez, levava
ao banheiro. A moça me guiou até o fim e perguntou:
-Você tem medo do escuro?
-Você tem medo do escuro?
No auge da bravura de um garoto de seis anos de idade,
olhei a minha volta e calculei que a luz do banheiro me levaria até a porta de
saída. Dito e feito. Fiz minha parte na história, lavei minhas mãos. Saí
caminhando rapidamente pelo breu que preenchia o corredor. A porta do banheiro,
minha única fonte de iluminação, se fecha sem explicação. Naquele momento,
todos os meus pesadelos de infância me perseguiram e o caminho que parecia
simples havia se transformado em labirinto.
Apalpando as paredes desesperadamente, encontro a
maçaneta. O pequeno detalhe é que a vendedora não havia me ensinado corretamente como girar aquela maçaneta. Não sei explicar até hoje, mas a porta
só abriria se você seguisse o procedimento correto. Qualquer deslize e eu
ficaria confinado lá dentro por horas.
Aos
prantos, lágrimas e todo tipo de oração que sabia naquela altura da vida,
aclamava por ajuda. Os cinco minutos que passei lá dentro foram suficientes
para que eu visse todo tipo de assassino, bicho papão, espírito, lenda urbana e
demônio. Não me lembro de ter chorado tanto em outra época da infância.
Consegui me libertar daquele inferno momentâneo. Nunca mais pisei na loja.
Há
poucos dias, acordei no meio da noite com vontade de tomar água. O relógio
batia 3h da manhã. Meu celular estava sem bateria. Sem pensar muito, levanto.
Percorro o escuro total, bebo água e volto dormir. Foi assustador como aquilo
não surtiu qualquer impacto emocional. Havia se tornado mecânico há
tempos. Eu não tive tempo de perceber ou sequer lembrar do que eu sentia medo
quando criança. Naquela noite troquei uma ideia com os demônios que antes me
perseguiam. Era como se eu, de alguma forma, os entendesse. Todas as dores, a
solidão, as angústias, as responsabilidades, as falsidades. O medo pode
enfraquecer, mas a falta dele, por vezes é mais preocupante. Coragem ou excesso de
realidade? Você decide.
Allyson Santos
15JUL19

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